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sexta-feira, 1 de novembro de 2013

50 diretores essenciais (parte 5)

A seleção de 50 realizadores cujas obras merecem a atenção de qualquer cinéfilo chega ao fim. Com esta quinta parte, fica à disposição um vasto universo de possibilidades de estilos, olhares, recortes e resultados. A escolha fica sempre por conta do espectador e, não necessariamente, haverá concordância plena com todas as escolhas, sem falar que, para se chegar a somente 50 nomes, é necessário enxugar bastante e deixar vários cineastas de fora. Mas... esse é o ônus de toda lista, bem como a razão da sua dificuldade.

Sendo assim, vamos aos 10 últimos eleitos que, os demais, não estão dispostos em ordem de preferência, à exceção do primeiro lugar, meu favorito indiscutível até aqui. As partes anteriores podem ser acessadas mais facilmente pelos links abaixo.


41. Luchino Visconti (1906 - 1976)


Mais um representante da era áurea da cinematografia italiana, Visconti foi responsável por assinar o marco inaugural do neorrealismo, que consistia em tramas ambientadas nas regiões menos glamourosas do seu país vivenciadas por gente comum, encarnada por atores não profissionais. Por outro lado, também adentrou os aposentos da burguesia perto do seu nascedouro, flagrando suas contradições e suas debilidades. Seu filme mais famoso, O leopardo, traz uma frase que sintetiza o espírito de várias épocas: "É preciso mudar para que as coisas permaneçam exatamente como estão".

PRINCIPAIS FILMES: Obsessão (1943), Rocco e seus irmãos (1960), O leopardo (1963).

42. Andrei Tarkovsky (1932 - 1986)


Cineasta de reflexões herméticas, esse russo convida a um mergulho sem precedentes no interior humano e na depuração constante do tempo, que atravessa qualquer relacionamento. Seus filmes exigem olhos bem abertos - leia-se, é preciso estar muito acordado - e assistir a eles somente uma vez não é o bastante. Tarkovsky estuda as chagas nas emoções, o valor de cada milissegundo, a angústia da solidão a que todos estamos fadados, em maior ou menor grau. Quase 30 anos depois de seu falecimento, sua obra continua firme como um monólito misterioso, ao alcance de ser tocado, mas de desvendamento penoso.

PRINCIPAIS FILMES: O espelho (1975), Stalker (1979), Nostalgia (1983), O sacrifício (1986).

43. Heitor Dhalia (1970 - )


A lista precisava de um representante brasileiro, mas ele não está aqui simplesmente para preencher cota. Seu talento é inversamente proporcional à sua filmografia, constituída de apenas quatro títulos até aqui. Em cada um, vem explorando diferentes nuances de dramaticidade e apresentando lados mais ou menos palatáveis do homem. Do fascínio por uma bunda, passando pela inquietude adolescente que deixa caminhar a esmo, à ganância que abala uma sólida amizade, seus filmes trazem um sopro de renovação ao Cinema nacional, sobretudo por deslocar o eixo de discussão sobre as mazelas do país, deixando de lado as favelas e buscando cenários menos insalubres e, nem por isso, menos problematizáveis.

PRINCIPAIS FILMES: O cheiro do ralo (2006), À deriva (2009), Serra Pelada (2013).

44. Alain Resnais (1922 - )


Um dos realizadores mais velhos em atividade - só perde para Manoel de Oliveira - Resnais gosta de relembrar o quanto o Cinema é um poderoso simulacro, no qual emoções e eventos podem se misturar de tal forma que se tornam praticamente indivisíveis, assim como é um repositório da memória, tanto passível de simular quanto o próprio Cinema. Nos últimos anos, tem se dedicado a mostrar também o alto grau de artificialidade a que as relações humanas têm chegado, traduzida especialmente por uma fotografia de cores berrantes e cenários esfumaçados. Não costuma filmar seus próprios roteiros, e se apropria dos textos alheios com habilidade inenarrável. Sua musa é a ruiva Sabine Azéma.

PRINCIPAIS FILMES: Hiroshima, mon amour (1959), Ano passado em Marienbad (1961), Medos privados em lugares públicos (2006), Ervas daninhas (2009).

45. James Gray (1969 - )

Falando em ruivos, aqui está um diretor representante dessa parcela tão rara da população. Em suas tramas, há um misto de violência scorsesiana com ópera viscontiana, uma conjunção que, por mais improvável que venha a soar em um primeiro momento, funciona maravilhosa e harmonicamente. A despeito dessa filiação imponente, esse novaiorquino imprime assinatura pessoal e brinda seu público com tramas simples que abarcam a complexidade de se escolher entre a segurança e a aventura, entre o relativo conforto da ambiguidade e a dureza de se assumir apenas um lado. Também é de currículo curto, mas já fez por merecer um lugar entre os essenciais.

PRINCIPAIS FILMES: Os donos da noite (2007), Amantes (2008), O imigrante (2013).

46. Valerio Zurlini (1926 - 1982)


Para a crítica, Zurlini era o "poeta da melancolia". Ao se entrar em contato com seus filmes, a afirmativa pode ser tomada como verdadeira, pois que os personagens que os compõem experimentam diferentes gradações de tristeza, mas não resvalam no dramalhão. São histórias de relações familiares, de amores complicados e da constatação do quanto é difícil saber se colocar em palavras diante do outro. Era impressionante sua capacidade de gerar consternação, e se deixar levar por suas narrativas calmas e clássicas é uma grande e intensa experiência.

PRINCIPAIS FILMES: Verão violento (1959), A moça com a valise (1961), Dois destinos (1962).

47. Mike Nichols (1931 - )


Traquejo para abordar os relacionamentos amorosos não faltam a Nichols, um veterano cuja ambição passa pelas mentiras e vaidades que assolam esse terreno que é sempre multifacetado. Diretor de atores como pouquíssimos, também sabe filmar a encenação de conflitos atemporais, sejam os internos, sejam os externos e os compartilhados entre parceiros que, ora se amam, ora se repelem. Sua obra-prima - ao menos, dentre as que já vi - é Closer - Perto demais, uma radiografia incômoda sobretudo pelo seu efeito especular, em que o egoísmo e outras fraquezas rondam os amores e tornam seu fracasso apenas uma questão de tempo. Um olhar pessimista, é verdade, mas no qual há casais que se encaixem.

PRINCIPAIS FILMES: A primeira noite de um homem (1967), Ânsia de amar (1971), Closer - Perto demais (2004).

48. Jean-Pierre Dardenne (1951 - ) e Luc Dardenne (1954 - ) 


Os rótulos podem ser empobrecedores, mas o que costumam dar a esses irmãos belgas não poderia ser mais abrangente: o de cineastas do humanismo. Atingindo um elevado patamar de realismo, a dupla perscruta os sentimentos mais submersos que vão no coração de uma criança, sua dificuldade de entender um mundo que se ergue codificado por muitas contradições e silêncios desoladores. Como tantos diretores, têm seu ator predileto: Jérémie Renier, presente em quase todos os seus filmes, que encarna tão bem a figura do jovem adulto irresponsável que é mais uma engrenagem de um ciclo nefasto de abandono. Preferem abrir mão de uma trilha sonora a maior parte do tempo e deixam as situações falarem por si sós.

PRINCIPAIS FILMES: O filho (2002), A criança (2005), O silêncio de Lorna (2008), O garoto da bicicleta (2011). 

49. Karim Ainöuz (1966 - )


Mais um nome brasileiro que tem méritos suficientes para constar da lista. Fascinado pela estrada e pelo deslocamento dos que se sentem deslocados, o cearense trouxe de volta as cores nordestinas, roubadas pela insistência isomorfista da televisão, que também passa pelos sotaques. Para ele, a viagem é tão ou mais importante que a chegada, pelo que permite de epifanias e pequenas revoluções interiores, que se processam a duras penas e chegam sem que seus personagens se deem conta delas exatamente no momento em que estão acontecendo. De sua parceria com Marcelo Gomes, surgiu uma das pérolas de nosso tempo, belo e triste até no título, retirado de uma frase de caminhão.

PRINCIPAIS FILMES: O céu de Suely (2006), Viajo porque preciso, volto porque te amo (2009), O abismo prateado (2011).

50. Aleksandr Sokúrov (1951 - )


Tão longe de nós e tão perto, Sokúrov é de uma ambição visual atordoante. Seus filmes primam por fotografias esmeradas, que podem ser de tons sépia ou acinzentados, um invólucro todo especial para histórias de sentimentos confusos, de espasmos visuais e de percursos históricos deslumbrantes. Mas a estética não é o seu único ponto positivo: cada enredo vai a fundo nas emoções e concede momentos únicos. Costuma acertar na maioria das vezes e faz por onde manter a Rússia entre as pátrias de grandes realizadores, tendo conterrâneos de peso a quem, por vezes, se reporta.

PRINCIPAIS FILMES: Arca russa (2002), Pai e filho (2004), Fausto (2011). 

3 comentários:

  1. Dentre os citados, Mike Nichols é o meu favorito, apesar de eu não ser um fanático por "A Primeira Noite de um Homem"

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  2. Obrigado pela visita e pelo comentário, Brenno!
    A primeira noite de um homem me agrada muito, mas prefiro Closer dentre os filmes de Mike Nichols.

    Abraço!

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  3. Obrigada pela longa lista. Vai ser muuuito útil pra definir os próximos filmes a serem assistidos. Senti falta do Campanella com seus maravilhosos "o filho da noiva" e "o segredo dos seus olhos".

    Valeu! :)

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