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quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Passion e as armadilhas de uma trama farsesca

Insultado com a falta de espaço no circuito comercial, Passion (idem, 2012) tem uma roupagem que pode conduzir muitos a tomá-lo por um filme menor de Brian De Palma. Trata-se de uma refilmagem do francês Crime de amor (Crime d'amour, 2010), originalmente protagonizado pelas beldades Kristin Scott Thomas e Ludivine Sagnier. Na versão do realizador nascido em Nova Jersey há 73 anos, as estrelas não ficam devendo no quesito beleza: Rachel McAdams e Noomi Rapace interpretam Christine e Isabelle, respectivamente. As duas trabalham juntas há pouco tempo, mas vêm estreitando laços rapidamente e ganhando uma cumplicidade que se estende para além das quatro paredes do escritório de publicidade em que são chefe e funcionária. Logo de cara, aparecem comemorando o fechamento de um importante negócio, e o roteiro adaptado pelo próprio diretor já oferece um vislumbre de tensão sexual entre elas conforme vão se embriagando, levemente interrompida pela presença de um outro funcionário do escritório. 

Esse clima de desejo latente e olhares provocativos se consolida nas cenas posteriores, mas acaba se rompendo e se transmutando a partir da atitude nada honesta de Christine, que atribui a si mesma a autoria de uma ideia que lhe havia sido apresentada no dia anterior por Isabelle, chocando-a. Demonstrando amoralidade, a chefe loura quer fazê-la pensar que foi um ato legítimo, que a própria Isabelle teria executado se estivesse em seu lugar. É a gota d'água para que uma vontade de vingança seja despertada na funcionária, e o ensejo ideal para que De Palma coloque elementos de suspense e ambiguidade que tornam Passion uma legítima trama farsesca. É bom que se lembre que, traduzido, o título do filme é Paixão, termo oriundo do grego que é, antes de mais nada, uma leitura aproximada e, por vezes, empobrecedora, de um conceito filosófico que vai muito além do desejo carnal. Tomado em uma instância mais ampla, é emoção e sentimento, para o bem e para o mal. Portanto, a escolha do diretor para o título, ainda que soe simplória aos ouvidos, é eficiente e resumitiva do quanto a narrativa está impregnada de sentimento.

Isabelle, então, quer colocar em prática um plano que faça Christine pagar por sua traição. A essa altura, o jogo sujo da chefe - que sabe usar e abusar da sua sensualidade áurea, por assim dizer - atingiu não somente o seu orgulho profissional, mas o seu coração. Esse segundo alvo, porém, não chega a ser explicitado em momento algum da trama, por mais que pareça óbvio a maior parte do tempo. E, aos poucos, De Palma vai mostrando o quanto Passion é coerente com a sua filmografia e, simultaneamente, é um sopro de renovação no que costuma fazer, por adequar seu olhar a um mundo contemporâneo em que a vigilância sobre as vidas é realidade patente. Não faltam elementos típicos do noir, que vão da fotografia de tons entenebrecidos (responsabilidade de José Luis Alcaine) ao estilo nem-tudo-é-o-que-parece, sintetizando nas figuras bipolares das protagonistas, envolvidas em um jogo de gata e rata que transborda sensualidade. A trilha sonora de Pino Donaggio, velho colaborador do cineasta, amplifica esse vigor sexy do longa-metragem, que competiu na edição 2012 do Festival de Veneza.


Como é de bom tom nos exemplares fidedignos de suspense, uma boa dose de reviravoltas está garantida em Passion. Se, de início, o público pode acreditar que toda a vilania está concentrada em Christine, esse julgamente está sujeito a oscilações e até mesmo à mudança, pelo que Isabelle vai revelando do seu caráter: teria sido ele sempre dúbio ou foi a circunstância da traição que o flexibilizou negativamente? Mais importante do que se assegurar de uma ou outra possibilidade é mergulhar nesse fio condutor que aponta para um universo no qual os fins parecem justificar os meios e um punhado de malícia pode garantir a permanência por cima. Com sua atmosfera inebriante, o filme evoca principalmente Um tiro na noite (Blow out, 1981) e Dublê de corpo (Body double, 1984), os dois grandes atestados do discipulado hitchcockiano que De Palma cultiva há tantos anos, sem se restringir a mero decalque do mestre. À diferença básica dos filmes mencionados, porém, Passion não tem espaço para o exercício da metalinguagem, ao menos não de forma tão escancarada.

Para além das autorreferências - trabalhadas pelo realizador a partir de um material alheio, é bom que se lembre -, a produção também estabelece diálogo com outros filmes de trama delirante, como o soturno Cidade dos sonhos (Muholland Drive, 2001). É bem verdade que David Lynch se abriu em muito mais devaneios que seu colega de ofício, mas não faltam a Passion o erotismo e a sagacidade que a narrativa embaralhada do longa ao qual pode ser reportado direta ou indiretamente. O longa ainda tem o mérito de ser daqueles que cresce na memória e alcança patamares mais elevados à medida que suas cenas vão sendo repassadas mentalmente, uma qualidade rara em tempos de produções requentadas e descartáveis que aportam nas salas de cinema a cada final de semana. Por outro lado, Passion também é capaz de fomentar a controvérsia, sobretudo por volta de seus vinte minutos derradeiros, que fazem de Terapia de risco (Side effects, 2013) seu primo de primeiro grau, especialmente em uma sequência determinante para as tramas de ambos. E quem diria que poderia haver diálogo entre Brian De Palma e Steven Soderbergh nessa história tão vagabunda e, ao mesmo tempo, tão sofisticada?

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