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terça-feira, 26 de novembro de 2013

Cine Holliúdy, uma declaração de amor arretada ao Cinema

O Cinema é uma arte que congrega uma enorme variedade de cores, sons, imagens, olhares e sotaques, despida ou não de qualquer traço restritivo, a depender das escolhas de seus realizadores. E, mesmo quando uma história é ambientada em localização temporal e geográfica bem delimitadas, pode existir a chance de um diálogo mais amplo, que atinja o coração da plateia e a leve para dentro da história. Esse é o caso de Cine Holliúdy (idem, 2013), um exemplar arretado de declaração de amor a essa arte tão jovem se comparada às demais, cuja existência já foi muito mais longe do que poderiam supor os contemporâneos de seu nascimento, em fins do século XIX. Falado em “cearencês” e, por isso, legendado para os demais estados brasileiros (um dos índices cartunescos da história), o filme acompanha a jornada quixotesca de Francisgleydisson (Edimilson Filho), um sonhador por natureza que pula de cidade em cidade à procura de um lugar onde possa se estabelecer como dono de cinema (o local de exibição, não a arte). 

A trama é ambientada na década de 70, época em que as cidades brasileiras interioranas não contavam com muitas opções quando o interesse era assistir a filmes. Os cinemas eram artigos raros em várias delas, e muitos habitantes passavam suas vidas inteiras sem pisar em uma sala escura – realidade pavorosa para qualquer cinéfilo. Nesse cenário, o protagonista oferece alento para gente de cotidiano simples, desejosa de viajar para outros mundos e, inconscientemente, à procura de catarse. Logo nos primeiros minutos de narrativa, ele está se mudando novamente com a esposa Maria das Graas (Miriam Freeland) e o filho homônimo (Joel Gomes) em mais uma tentativa de recomeço. A cada vez que a televisão chega e dá o conforto de se assistir a filmes em casa, os cinemas de rua perdem terreno e, por conseguinte, Francisgleydisson fica sem função na cidade, sendo obrigado a procurar outro local mais no interior para se estabelecer como difusor dessa arte.

É assim que ele chega a mais uma cidade em que a televisão ainda não se popularizou e investe tudo que tem para erguer de novo o seu sonho, que ele transmite com notável entusiasmo ao filho, com quem mantém um relacionamento de verdadeiro carinho e amizade, no melhor estilo “meu pai é meu ídolo”. A esposa também se dispõe a fazer sacrifícios em nome dessa paixão pelo Cinema, e exerce a nobre função de esteio da pequena família, ora estimulando o marido, ora ponderando sobre o que eles podem fazer para garantir o sucesso da empreitada de suas vidas. Ali, deparam com uma fauna de habitantes hilários, com seus sotaques carregados e disposição para sonhar, que se relaciona com o Cinema de uma maneira bastante própria, que se traduz, por exemplo, em dar a um filho o nome de Valdisney (qualquer semelhança fonética ou gráfica com o falecido Midas da animação não é mera coincidência). E o vocabulário dos moradores locais é coalhado de palavras e expressões curiosas, não parafraseadas pelas legendas, mas deduzíveis pelos contextos em que são empregadas.


Nessa vasta galeria de tipos curiosos – que até podem parecer chapados, mas representam, de fato, uma fatia populacional brasileira -, não faltam os mal-intencionados, como o prefeito Olegário Elpídio (Roberto Bomtempo). Para ele, o esforço de Francisgleydisson em inaugurar uma sala de cinema é a chance de levar a fama sem deitar na cama. Acompanhado de sua mulher espilicute – “bonita”, em cearencês -, ele profere discursos em que dá cambalhotas com as palavras e, no fim das contas, não sai da zona da demagogia. E o povo se encanta com o que ouve e se permite sonhar novamente, adentrando as portas do cinema e entrando no universo mágico que os filmes permitem visitar e fazer parte. A essa altura, o longa de Halder Gomes se mostra muito próximo de Cinema Paradiso (idem, 1988), um dos mais lindos atestados do quanto a sétima arte pode marcar a vida definitivamente, desde a mais tenra infância. Não seria exagero afirmar que Cine Holliúdy é a versão nordestina do filme de Giuseppe Tornatore, o que significa dizer que também merece lugar no coração onde bate um peito cinéfilo.

O longa é derivado de O astista contra o caba do mal (idem, 2004), curta-metragem centrado nas tentativas de Francisgleydisson para que a primeira sessão de cinema na cidade em que chegou transcorra sem qualquer problema. Do começo ao fim da projeção, ele enfrenta uma série de dificuldades, tratadas com um humor que mescla ingenuidade e malícia, e essa sequência aparece novamente na versão longa-metragem, estendendo-se por mais tempo e se mostrando igualmente hilária. O protagonista se vê obrigado a fazer de tudo um pouco, da dublagem dos diálogos ao entretenimento do público quando o projetor deixa de funcionar. Quando se pensa que a história acontece no Brasil dos anos 70, uma época pré-milagre econômico, o que se percebe é que alguns problemas seguem acontecendo para quem deseja fazer Cinema. Se Francisgleydisson dedica toda a sua vida à paixão que o move, cineastas e produtores que tencionam ir além do cinema de linguagem televisiva precisam mover céus e terra para furar o bloqueio que essa vertente, por tantas vezes, nefasta da sétima arte ergue.

Cine Holliúdy também é um manifesto em favor de um Cinema que preserve a sua “cor local”, termo proveniente do Romantismo brasileiro para se referir a narrativas em que os elementos presentes são peculiares da região em que a trama se passa. Ao se pensar nessa questão, vêm a reboque as características positivas e negativas – nem tudo é exatamente agradável. Gomes fundiu suas memórias da infância com suas crenças particulares e as transformou em filme, abordando um tema que conhece bem, contando com a parceria de atores que compartilham de boa parte das suas idiossincrasias. Entre eles, Edimilson Filho, amigo de longa data do diretor, que mora há 13 anos nos Estados Unidos e trilha um caminho inverso ao da maioria dos seus colegas patrícios, que constrói uma carreira bem-sucedida aqui e expande seus horizontes territoriais a posteriori. Portanto, conhece ambos os lados da moeda e fica muito à vontade no papel. No olhar da crítica, o film causou rachas: houve quem encarasse o filme como problemático na montagem – um exagero; para Cacá Diegues, veterano realizador alagoano, o baixo orçamento não impede sua qualidade e serve para mostrar que Cinema se faz de várias maneiras, opinião muito mais digna de ser acolhida.

8/10

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