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quinta-feira, 11 de julho de 2013

A espuma dos dias, uma elegia surrealista

A espuma dos dias (L’écume des jours, 2013) é um daqueles filmes que, logo em seus primeiros minutos, dá a entender o quanto exige a suspensão da descrença. Ambientada em uma Paris contemporânea, a trama gira em torno de Colin (Romain Duris), um homem de cotidiano extravagante que vive confortavelmente graças à riqueza que mantém guardada em seu cofre. Todos os dias, ele tem à sua disposição o simpático Nicolas (Omar Sy), que lhe serve como advogado, assistente e, de quebra, cozinheiro. Suas finanças em alta são resultado do sucesso de sua invenção genial: um piano que, conforme é dedilhado, permite a preparação de coquetéis. E esse é apenas um dos detalhes inusitados que permeiam a narrativa do longa, cuja base é o romance homônimo de Boris Vian. O texto foi publicado originalmente na década de 40, apenas dois anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, o que significa um contexto de euforia e confusão. Não faltou imaginação ao autor, falecido aos 39 anos, para contar uma história muito simples, mas plena de elementos excêntricos. 

Boa parte dos demais aspectos insólitos da história surgem quando Colin é apresentado a Chloé (Audrey Tautou) em uma festa. Sentindo imensa vontade de se apaixonar depois de ouvir Nicolas e o amigo Chick (Gad Ehlmaleh) contarem sobre seus sentimentos por suas respectivas conquistas amorosas, ele esmurra a mesa e deseja encontrar sua metade naquele mesmo dia. Dali para a frente, é como se Gondry desatasse por completo os laços que ainda prendiam seus personagens à realidade, apossando-se do espírito inventivo que guiou Vian em seu romance de 256 páginas. E cada item atípico é experienciado por eles como algo totalmente natural, à semelhança dos personagens de Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas (Loong Boonmee raleuk chat, 2010). Os fatos e situações simplesmente acontecem, totalmente incorporados ao dia a dia de cada um. É justamente dessa profusão de criatividade que surge o encanto de A espuma dos dias.

Ao longo de seus 125 minutos de duração, o filme apresenta duas fases bem demarcadas. Quase metade da história é cheia de momentos cômicos, muitos deles oriundos da perspectiva surrealista dos ambientes e das condutas nada óbvias de Colin, Nicolas, Chloé e Chick. O público nunca sabe exatamente o que esperar de cada um, e essa imprevisibilidade contribui para manter a atenção redobrada aos seus passos, além de reforçar a certeza de que, por mais descolado da realidade palpável (?), o enredo não descuida um só instante da humanidade desses personagens, que vão conquistando cena após cena, entre erros e acertos, altos e baixos. A certa altura, portanto, torna-se plenamente aceitável a doença de Chloé: após ter engolido acidentalmente uma partícula esbranquiçada enquanto dormia, ela desenvolve um nenúfar em um dos pulmões. O tratamento consiste em inalar flores de várias espécies, o que leva Colin a uma rotina de altas despesas e injeta drama à narrativa.


A demarcação entre a porção alegre e a porção triste de A espuma dos dias também se dá pela fotografia. Clicados por Christophe Beaucarne, os espaços habitados e frequentados pelos personagens vão da explosão policromática às variações em preto e branco. Esse aspecto técnico do filme está em excelentes mãos, diga-se de passagem. E ele sabe transitar entre os cliques de longas com propostas mais ancoradas no real, como Pintar ou fazer amor (Peindre ou faire l’amour, 2005), ou plenos de artifícios incomuns, como Sr. Ninguém (Mr. Nobody, 2009). Sendo assim, Gondry pôde deitar e rolar no quesito criatividade, distribuindo adoráveis bizarrices pelo contexto e fazendo relembrar o vigor que apresentou em Brilho eterno de uma mente sem lembranças (Eternal sunshine of a spotless mind, 2004), considerado por boa parte da comunidade cinéfila como sua obra-prima – com muitos méritos. A julgar pelo cartaz e por sua sinopse, pouco esclarecedores, o filme em análise pode ser entendido como mais uma história de amor. Mas, quando os olhos são postos nessa narrativa tão improvável, essa noção é alargada e quem sai ganhando é o espectador, brindado com lindas rimas visuais e intérpretes completamente à vontade com os jogos cênicos propostos pelo diretor. A propósito, ele faz uma ponta na história como um dos médicos que atende Chloé, receitando comprimidos nada convencionais.

A química entre Duris e Tautou é outro detalhe favorável. Eles contracenam pela terceira vez e imprimem vitalidade aos seus personagens, assim como uma graciosa leveza que os torna facilmente apreciáveis. Cada um a seu modo, eles sabem arrancar sorrisos e comover com suas atitudes, podendo até mesmo despertar identificação, mesmo porque estão longe de uma construção maniqueísta, sobretudo Colin, que é rondado muito de perto por Alise (Aïssa Maïga), namorada de seu melhor amigo. Chloé, por sua vez, encanta com seu despojamento, demonstrado já no primeiro encontro com o futuro parceiro, e diverte ao “compor” uma canção para declarar seu amor por ele. A letra da música é formada simplesmente pelo nome dele, repetido à exaustão em uma curva melódica suave. Entoada pela personagem, torna-se verdadeiramente hilária pelo que traz de improviso.

Quando abraça sua porção dramática de vez, A espuma dos dias revela sua vocação: a de elegia surrealista sobre a tentativa constante de preservação, sobretudo da memória, um tema que é caro a Gondry – além de Brilho eterno..., ele tratou do assunto em Rebobine, por favor (Be kind rewind, 2008), apresentando, a um só tempo, um manifesto e um tributo ao Cinema. Aqui, novamente ele está muito à vontade para se desvencilhar da lógica e falar de amor como nenhum outro realizador do seu tempo. O romance de Colin e Chloé, porém, é somente a ponta de um profundo iceberg de ideias, que dá conta de abarcar o discurso metalinguístico ao apresentar, de forma intercalada à narrativa principal, a construção do livro em que toda a história está contida. Não é uma proposta fácil de acolher, verdade seja dita, mas entregar as retinas e o coração a esse relato de coita amorosa nada ortodoxo é um presente que o espectador pode dar a si mesmo.

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