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quarta-feira, 10 de julho de 2013

Terapia de risco, uma espiral de reviravoltas

Anunciada aos quatro ventos, a iminente aposentadoria de Steven Soderbergh vem se revelando altamente produtiva: o realizador nunca filmou tanto quantos nos últimos três anos. Dessa vez, porém, ele prometeu que seria seu último longa-metragem na função. Trata-se de Terapia de risco (Side effects, 2013), com cuja premissa ele volta a cutucar a indústria farmacêutica, como fizera recentemente em Contágio (Contage, 2011). Porém, se neste a trama tinha ares de ficção científica, naquele o diretor prefere fazer um passeio por gêneros cinematográficos, o que inclui ecos hitchcockianos a partir de certa altura. A protagonista é a atormentada Emily (Rooney Mara), que aguarda a libertação do esposo Martin (Channing Tatum, em sua terceira parceria com Soderbergh), preso há alguns anos. Emocionalmente agitada, sua condição piora quando ele retorna para casa. 

Preocupado com a instabilidade de Emily, Martin a encoraja a dar continuidade ao seu tratamento, e ela se consulta regularmente com o doutor Jonathan (Jude Law). Ao constatar que o remédio que prescreveu à paciente não está surtindo efeito, decide lançar mão de uma droga cuja utilização ainda se encontra em fase experimental, o Ablixa. O medicamento lhe é apresentado por uma representante da indústria farmacêutica como uma fonte de bom retorno financeiro, o que faz de Jonathan um parceiro de lucros em um sistema no qual a preocupação real com o bem estar dos pacientes inexiste. O importante é reunir dividendos a partir da necessidade cada vez mais comum que as pessoas têm de se sentirem felizes, uma clara demonstração do quanto se tornou difícil para muitos lidar com a tristeza. Assim, Emily começa o seu tratamento com o Ablixa. O problema são os efeitos colaterais da nova droga.

Conforme prossegue em ingeri-la, Emily tem ataques de sonambulismo e uma irritabilidade que dificulta seu relacionamento com Martin, a ponto de ele não reconhecer mais a mulher. De volta ao consultório de Jonathan, eles relatam os problemas e despertam no médico o senso de investigação, a fim de conhecer mais detalhadamente as propriedades e consequências do uso do Ablixa. A partir daí, o personagem de Law cresce na trama e suplanta, por um certo tempo, o protagonismo de Emily, quase assumindo o posto de herói. Entretanto, o roteiro de Scott Z. Burns não tem suas bases fincadas no maniqueísmo, o que torna vã qualquer tentativa de rotular qualquer um dos personagens. O mais interessante de Terapia de risco é ir conhecendo as camadas que cada um apresenta, o que desencadeia uma espiral de reviravoltas capaz de fazer o filme transitar entre o drama, o suspense, o noir e o thriller psicológico, deixando o espectador em constante estado de atenção. 


Em sua busca por entender melhor a ação do medicamento e também o histórico de tratamentos de Emily, Jonathan chega à doutora Victoria (Catherine Zeta-Jones, esplêndida), que havia tratado a jovem por até alguns anos antes e fornece algumas informações importantes a respeito do tempo em que ela foi sua paciente. Mas a sensação que passa a acompanhar Jonathan é a de que os fatos que lhe estão diante dos olhos são apenas a ponta de um iceberg que esconde verdades inconvenientes para alguns, e suas investigações prosseguem numa rotação que se vai revelando perigosa. Por sua vez, ele não está incólume a desvios de caráter, e também mostra sua porção menos confiável, sobretudo por se prestar a administrar uma droga cujo escopo de atuação ainda não foi bem delimitado unicamente pelo interesse em continuar ganhando dinheiro – e esse não é o único dos seus erros. A gota d’água para que ele se veja em um quebra-cabeça é o ato extremo de Emily, supostamente praticado sob o efeito do tal Ablixa.

Terapia de risco é, portanto, um filme de muitas verdades, que, por vezes, chegam a se contradizer, como acontece em um bom suspense. É também um filme em que ninguém é simplesmente o que aparenta, tal qual os personagens de um bom noir. E não falta drama na história de uma mulher que perdeu o gosto pelos prazeres simples que passou a sentir a companhia do marido como um fardo. Os detratores de Soderbergh talvez não enxerguem metade dessas virtudes no longa, mas elas estão lá, devidamente amarradas pela criatividade do roteiro, embora as reviravoltas, que tomam conta do terço final da narrativa, sejam um tanto excessivas. Há muitas puxadas de tapete consecutivas a essa altura, o que leva o espectador a substituir várias vezes uma verdade pela outra, quando achava que a verdade atual era tudo o que faltava saber acerca daquela trama. E a porção hitchcockiana do diretor se revela especialmente nos planos algo obscuros e na insistência em desvendar o caráter de cada um paulatinamente. O resultado é um filme intenso, de atmosfera sufocante e, se for mesmo o seu último para o cinema, um belo canto de cisne e uma nova amostra de sua versatilidade.

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