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segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Os vácuos das relações humanas em Um alguém apaixonado

Assim como nos trabalhos pregressos de Abbas Kiarostami, a incompletude é uma característica marcante de Um alguém apaixonado (Like someone in love, 2012), apresentado na mostra competitiva do 65º Festival de Cannes. Despreocupado no que tange a preencher todos os espaços da narrativa, o realizador iraniano volta a fazer cinema de autor se arriscando em uma pátria estrangeira, a exemplo do que havia feito no extraordinário Cópia fiel (Copie conforme, 2010), em que pôs Juliette Binoche transitando entre vários idiomas e se comunicando de forma, por vezes, com aparência de arbitrária com William Shimel. Entretanto, no filme em análise ele foi ainda mais longe, no sentido metafórico do termo. A trama é ambientada no Japão, país cujo idioma Kiarostami não domina, e que o impeliu a convergi-la totalmente para a questão da incomunicabilidade.

Somos apresentados, de início, a uma jovem universitária que, como tantas outras de sua idade, ganha a vida se prostituindo. Em uma longa conversa em uma mesa de bar, aos poucos, é possível entender que o seu namorado, com quem fala ao telefone, não tem a menor ideia de sua vida paralela, e a garota faz de tudo para que assim permaneça, contando com a cumplicidade de uma amiga muito próxima. Já nessa primeira sequência, o espectador é dimensionado para uma das tônicas da cinematografia de Kiarostami: os longos diálogos travados com interlocutores que, normalmente, estão fora de quadro, um detalhe que pode soar, a certa altura, angustiante. Outras vezes, ocorre uma alternância de personagens que fica sob o nosso campo de visão, o que pode levar a sensação de que, quando se trata de outro, há sempre sombras e vazios a serem preenchidos.

Ao sair dali, a jovem toma um táxi e passa por movimentadas avenidas de Tóquio, enquanto ouve as mensagens deixadas na secretária eletrônica do seu celular, quase todas elas de sua avó. Ela lha havia comunicado que faria uma visita, mas a jovem não atendeu a nenhum dos seus telefonemas e, por isso, suas tentativas de contato foram inúteis. Pacientemente, Kiarostami nos faz ouvir uma a uma das doze mensagens armanezadas em seu celular, e nos permite até mesmo desenvolver algum tipo de afeição pela voz afável daquela senhora. Com intervalos de poucos minutos, ela foi deixando recados para a neta com a esperança de vê-la pessoalmente, e insistiu o quanto pôde, já que voltaria à sua cidade naquele mesmo dia. Quando, enfim, a jovem pode ir ao seu encontro, acaba sendo tarde demais, pois ela já partira. Esses dois episódios situados na primeira meia hora de Um alguém apaixonado são eficientes em demonstrar o quanto a incomunicabilidade afeta as relações humanas, mesmo nos eventos mais banais.


Existe ainda outro grande desencontro na história. Ele ocorre entre a jovem e um simpático idoso que ainda trabalha como professor universitário e tem um grande renome em sua área. Carente de carinho e paixão, ele se desdobra em mil cuidados com a garota, que nunca parece retribuir, de fato, tamanha dedicação. Entretanto, a incerteza também reina sobre esse aspecto do filme. O título, combinado com a sinopse, leva a crer que se esteja diante da história de um senhor que se descobre apaixonado por uma mulher muito mais nova, com idade para ser sua neta, mas Kiarostami jamais nos deixa certos de que esse é o mote real de seu filme. Afinal, ela também parece apaixonada, mas não pelo professor, e sim pelo namorado, com quem ela parece manter um relacionamento tumultuado, consoante alguns indícios da narrativa deixam entrever.

O tal rapaz também se comporta como alguém apaixonado, mas também deixa incerteza sobre se esse é ou não o seu caso. Aliás, o título original é menos específico nesse sentido, pois não há um artigo diante do pronome indefinido, mesmo porque é algo impossível na sintaxe da língua inglesa. Teria sido mais adequado manter a tradução literal em português, embora ela desse margem a uma ambiguidade infame: “Como alguém apaixonado” poderia levar à interpretação da primeira palavra do título não somente como uma conjunção comparativa, mas também como a primeira pessoa do verbo “comer”, tomado em sua acepção literal e metafórica, esta última a possibilidade infame de leitura do título. Nesse sentido, também existe uma perda, tão sutil quanto relevante, no contato com o longa, uma joia pesada e dura que incomoda tanto quanto instiga e encanta.

Outra recorrência dos filmes do cineasta volta a aparecer por aqui: as longas conversas em carros. Como se fosse uma obrigação (no bom sentido), suas histórias sempre guardam passagens importantes situadas nesse contexto – basta dar uma olhada em filmes como Através das oliveiras (Zire darakhatan Zeyton, 1994) e Gosto de cereja (Ta'm e guilass, 1997) para se ter uma ideia do quanto esse tipo de cena é marcante em sua obra. Contudo, em se tratanto de Kiarostami, a sinonímia entre exposição e esclarecimento é inexistente. Aliás, seria uma incoerência pensar que as conversas de seus personagens possam trazer muitas respostas aos vários questionamentos que se levantam com o transcorrer da narrativa. Como Antonioni, Lynch ou mesmo Bergman, Kiarostami preza por manter seu cinema aberto a inferências e valoriza tanto o silêncio quanto a palavra, produzindo espécimes raríssimos de filmes, que requerem um tempo de decantação na memória do público. O final inesperado e abrupto de Um alguém apaixonado só vem comprovar essa teoria.

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