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segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

A saraivada de balas em Por um punhado de dólares

Balas traçantes cruzam os céus ensolarados da pequena cidade onde se passa Por um punhado de dólares (Per um pugno di dollari, 1964), primeiro tomo da Trilogia do Homem sem Nome de Sergio Leone, expoente na seara do western spaghetti, termo usado para designar os faroestes realizados por diretores italianos. Centrado no Pistoleiro sem Nome (Clint Eastwood) – à época apenas ator – o cineasta não economiza nos tiros para contar sua história. Ele chega a uma cidade cujas regras são ditadas pelas armas de fogo e se vale de toda a sua habilidade com elas para defender o seu espaço e a sua liberdade. O lugar está claramente dividido entre duas facções inimigas, e não tarda para que ambos os lados enxerguem o seu talento com uma pistola nas mãos. Com isso, ele recebe propostas de representantes desses lados e percebe que pode ganhar uma boa quantia em dinheiro se fizer jogo duplo.

Calcado nessa premissa, Leone consegue entregar um faroeste muito divertido, com instantes de inusitado alívio cômico e disparos constantes. O pistoleiro é o arquétipo do herói solitário que se coloca em confronto direto com toda uma cidade. Como não confia e não conta com ninguém, permanece na defensiva e só pensa em defender o seu lado, valendo-se de uma impressionante perspicácia quando se trata de colocar sua arma para funcionar. Em pouco mais de uma hora e meia, Por um punhado de dólares quase não apresenta momentos de cessar fogo, pois as batalhas se vão sucedendo praticamente sem intervalo. O inimigo está sempre à espreita, e não há tempo a perder com distrações de qualquer natureza. Nesse sentido, as mulheres de porte sedutor que habitam a cidade são figuras secundárias. O foco está no jogo de gato e rato empreendido pelo pistoleiro e pelos lados que ele se esforça para enganar.

Uma característica marcante do filme é sua objetividade. Aqui, os personagens não estão dispostos a jogar conversa fora e vão direto ao ponto, o que significa atirar e, depois perguntar, na maioria das vezes. O pistoleiro age da mesma forma: quando menos se espera, lá está ele fazendo uso de sua fiel escudeira e mandando bala em quem cruzar seu caminho e ameaçar a sua tranquilidade. Leone vai na contramão do John Ford de Rastros de ódio (The searchers, 1956), cujo resultado final é uma narrativa prolixa e enfadonha que está longe de fazer jus à boa fama que carrega há tantos anos. Por um punhado de dólares, com sua enxutez, empolga muito mais, e abre de forma interessante a Trilogia, valendo-se, entre outros elementos, da precisa interpretação de um ainda jovem Eastwood, cuja carreira ainda ensaiava seus primeiros passos, já que se tratava de um desconhecido até então. Econômico em palavras, implacável e certeiro nos tiros, ele é o retrato da amoralidade. Sem falar na ótima trilha assinada por Ennio Morricone, que viria a se tornar colaborador recorrente de Leone, incluindo os filmes seguintes da Trilogia.


Cada um dos lados que rege a cidade mantém o seu império à custa de uma atividade ilícita. Os Rojos contrabandeiam bebidas, ao passo que os Baxters traficam armas. Nenhuma das partes quer perder, muito menos o pistoleiro, que usa todo o seu sarcasmo e cinismo para levar vantagem custe o que custar. Ele ainda encontra tempo para ajudar a jovem Marisol e, com isso, evitar que ela seja amante de Ramón Rojo (Gian Maria Volonté) à sua revelia. É a prova de que, sob a carapaça de homem armado até os dentes, esconde-se um coração capaz de atos de generosidade. Quase como o herói urbano de Drive (idem, 2011), um outro protagonista sem nome cujo ímpeto violento não anula sua predisposição a auxiliar mocinhas à mercê de sujeitos intratáveis. Por mais improvável que pareça à primeira vista, existe um diálogo entre ambas as produções, o que só vem demonstrar o quando Leone foi inspirador para diretores de gerações seguintes à sua. Inclui-se aí um certo Quentin Tarantino e uns tais de Kill Bill – Volume 1 (Kill Bill: Vol. 1, 2003) e Kill Bill – Volume 2 (Kill Bill: Vol. 2, 2004).

O próprio Leone, por sua vez, recorreu a uma fonte pregressa para conceber Por um punhado de dólares. Trata-se de uma refilmagem de Yojimbo – O guarda costas (Yojimbo, 1961), filmado apenas três anos antes e um dos exemplares cultuados da obra de Akira Kurosawa. O realizador japonês, aliás, não recebeu de muito bom grado a “homenagem” e se reportoou a Leone para deixar explícita a sua opinião sobre o longa: “É um ótimo filme, mas é o meu filme”. De fato, as sinopses de ambos guardam várias semelhanças, e a comparação entre os filmes se torna praticamente inevitável. Kurosawa chegou a exigir compensações por conta desse remake e, depois de algum tempo, tudo o que seus produtores conseguiram foram alguns milhares de dólares e um percentual do faturamento do filme em solo asiático. A obra ainda carrega consigo o título de primeiro western spaghetti da história do cinema, mas a verdade é que já havia ao menos 25 filmes de faroeste realizados na Itália quando ele estava pronto. Mas o mérito acabou com Por um punhado de dólares em virtude da grande atenção internacional que recebeu. Deixando de lado polêmicas e títulos algo indevidos, temos uma trama bem amarrada e norteada pelo poder de fogo das armas em profusão.

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