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quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

O palco e a força da palavra em César deve morrer

Laureado no Festival de Berlim com o Urso de Ouro de melhor filme, César deve morrer (Cesare deve morire, 2011) é um enxutíssimo ensaio sobre a força da palavra orquestrado com brilhantismo pelos irmãos Paolo e Vittorio Taviani, dois octagenários cujo cinema se mantém atrelado a questões sociais e a um certo engajamento político. O cerne da história, que passeia entre as esferas ficcional e documental, são a escolha do elenco e os ensaios para uma nova adaptação teatral da peça Júlio César. O grande diferencial dos atores selecionados é justamente o fato de eles não serem atores. Trata-se de detentos de um presídio de segurança máxima em Rebibbia, no subúrbio romano. A partir das entrevistas com os canditatos aos papéis, o espectador vai experimentando a sensação de conhecer a verdade e a encenação de cada um deles.

De saída, a sinopse de César deve morrer permite se lembrar do intrincado Jogo de cena (idem, 2008), cuja estrutura básica também consiste em provocar o público com a encenação de verdade e a verdade da encenação. No filme de Eduardo Coutinho, nunca se sabia ao certo quando se estava diante de uma atriz contando um fato de sua vida particular, de uma anônima simulando um acontecimento ou de uma atriz fingindo ser outra pessoa. Na produção dos Taviani, por sua vez, cada um dos homens retratados é verdadeiramente um presidiário, mas, aos poucos, os diretores removem a já tênue fronteira entre intérprete e personagem. Conforme vão sendo escolhidos e iniciando os ensaios e as leituras dramatizadas, eles vão se apropriando de seus papéis de tal forma que é possível se confundir quanto ao que é parte de suas respectivas personalidades e o que é a intepretação de cada um.

Uma estratégia simples adotada no filme é a de mostrar os ensaios e os demais fatos do cotidiano dos presos em preto e branco, ao passo que o prólogo e a encenação da peça para a plateia são mostrados a cores. Essa decisão dos cineastas confere um ar de recorte de realidade às cenas e, de certa forma, compunge o público a abandonar seu apego à distinção explícita entre real e fictício. Interessa muito mais apresentar o processo de imersão daqueles homens em um texto que aborda vingança, honra, prestígio e luta. São muitos sotaques, biotipos, origens, intenções e posturas diferentes reunidas em um mesmo elenco, e eles precisam aprender a administrar essa multiplicidade sem perder a harmonia e o equilíbrio. Homens comuns experimentando o poder transformador da arte, afinal, indo para além dos limites exíguos de suas respectivas celas.


A dificuldade em classificar César deve morrer como drama ou documentário deixa entrever que as etiquetas, na arte, são quase sempre insuficientes. E é sempre bom lembrar que todo documentário tem o seu componente de ficção, não é a verdade nua e crua, como podem supor muitos. Sendo assim, a ficção documental dos Taviani é mais um feliz exemplar de proposta provocativa à compartimentação dos gêneros e uma ode à beleza da arte, capaz de penetrar terrenos acidentados e nivelá-los a instâncias de sensibilidade. É um filme que também permite entender o quanto ela pode estar presente no cotidiano e dizer muito sobre o nosso mundo, nossas inquietações e nossas mazelas mais profundas, sem, necessariamente, receber uma abordagem acadêmica. Àqueles que insistem no distanciamento entre arte e povo, os Taviani oferecem um discurso totalmente na contramão.

Os ensaios dos diretores com os presidiários duraram seis meses, o que possibilitou que esses não-atores encontrassem seus respectivos papéis e se dedicassem à empresa de viver personagens de si mesmos e os personagens de seus personagens. César deve morrer, portanto, oferece uma gradação de tons intepretativos e abre espaço para a reflexão de seu público, mostrando a arte como um estudo da condição humana e uma tentativa de ordenar uma realidade caótica. Por outro lado, o ato final da obra traz uma leve derrapada dos diretores, ouvida na fala de um dos presos sobre a transformação que a peça lhe proporcionou. É uma frase totalmente desnecessária em seu didatismo, mas que não chega a comprometer a estrutura geral da obra, cujo percurso até ali já havia garantido a sua permanência na memória da plateia como uma interpelação apaixonada pelo ato de encenar.

Um comentário:

  1. Olá, sou dono do cinetoscópio, e estou procurando novos colaboradores, se tiver interesse, entre em contato com guiblayd01@hotmail.com

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