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quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

A professora de piano e o lado perverso da solidão

O cotidiano desenxabido de Erika Kohut (Isabelle Huppert) consite em aulas particulares de piano para alunos adolescentes com os quais ela já não demonstra muita paciência. De vez em quando, ela extravasa seus anelos sexuais frequentando cabines nas quais tem acesso a vídeos pornográficos, um claro contraste com a sua personalidade sisuda a maior parte do tempo. Aos poucos, A professora de piano (La pianiste, 2001) vai se mostrando como uma obra legítima de Michael Haneke, realizador pródigo em oferecer retratos incômodos e acachapantes de indivíduos à beira de um colapso ou já dentro de um. Com uma narrativa que jamais oferece instantes de alívio, o realizador austríaco arranca de Huppert um dos seus desempenhos mais memoráveis e coloca em discussão a estranha capacidade que alguns têm de corroer a si mesmos.

Em casa, a relação de Erika com a mãe (Annie Girardot) é doentia, oscilando entre o carinho e a repulsão – existem até mesmo alguns ecos de homoerotismo, sobretudo pelo fato de as duas dividirem a cama de vez em quando. No mesmo dia, elas podem compartilhar palavras gentis uma com a outra e, no instante seguinte, disparar comentários ácidos e cruéis sobre suas atitudes, revelando uma família de comportamento perturbado. Com a entrada em cena de Walter Klemmer (Benoît Magimel), a fúria sexual de Erika se canaliza para ele. O jovem músico estabelece o ponto de virada na rotina errante da protagonista, contribuindo para acentuar o quanto existe de patológico em sua conduta. O relacionamento entre eles se delineia paulatinamente graças ao roteiro do próprio Haneke, que se baseia no romance escrito por Elfriede Jelinek e produz reflexões sobre o lado sombrio de cada um.

Antes de mais nada, Erika é uma mulher solitária, fato que propiciou o desenvolvimento de sua tendência à autodestruição. Em momento algum, ela é capaz de esboçar um sorriso, e o termo felicidade parece não constar de seu vocabulário. Levantar todos os dias e cumprir uma rotina de ministrações de aulas a jovens nos quais ela não enxerga talento é o seu fardo de anos. Quando se vê como alvo do interesse crescente de Walter, procura arrastá-lo para o seu mundo de perversão, mas quem pode se dispor a viver no estranho ambiente emocional que ela engendrou para si? Daí surge o incômodo de A professora de piano: o espectador é impotente diante do drama de Erika, e se vê obrigado a testemunhar sua derrocada no campo dos sentimentos. Haneke embriaga a tela com a sofreguidão que habita a personagem, e consegue chocar sem recorrer a explicitações, mostrando-se mais contido que em Violência gratuita (Funny games, 1997), incômodo até a medula.


Sem dúvida, o grande trunfo de A professora de piano está na interpretação devastadora de Isabelle Huppert. Atualmente quase uma sexagenária, a atriz é daquelas que sabe dosar beleza e talento sem que a primeira característica ofusque a segunda e consegue expor a humanidade de Erika, antes de tudo uma mulher inábil no que tange à expressão dos sentimentos. Não por acaso, Huppert foi premiada em vários dos festivais em que o longa foi exibido, incluindo o de Cannes, que também rendeu o prêmio de melhor ator a Magimel. A simbiose dramática entre ambos é notável, e faz crer que a escolha de elenco do diretor foi acertada. E, embora desconhecido do grande público, o ator acumula bons trabalhos em seu currículo, do qual constam A dama de honra (La demoiselle d’honneur, 2005) e Uma garota dividida em dois (La fille coupée em deux, 2007), duas colaborações consecutivas com o lendário Claude Chabrol.

A urgência e a relevância de A professora de piano estão no fato de que Erika representa uma boa parcela dos indivíduos da contemporaneidade, ainda que em uma escala, por vezes, exponencial. Com o passar do tempo, estamos perdendo a capacidade de expressar sentimentos como afeto e carinho e nos enclausurando em redomas emocionais que travam nossas relações interpessoais. O estranhamento diante das atitudes da personagem é, ao menos, um bom sinal em que o sentir, pois, ao menos, indica que o processo de desertificação sentimental ainda é reversível: constatá-lo é um primeiro grande passo. Jelinek, por sua vez, concebeu o romance original como forma de questionar os limites impostos à sexualidade feminina e atacar ferozmente o orgulho dos austríacos por sua tradição musical. Transposto para o cinema, o texto não soa como birra infantil ou rebelião adolescente, e Instaura uma atmosfera perturbadora com seus planos semiestáticos e a força descomunal de Huppert em cena. "Tem gente que machuca os outros, tem gente que não sabe amar", tem gente que machuca a si mesma.

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