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segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Buscando renovo enquanto é tempo em 50%


Brincando a com a probabilidade não muito agradável em seu título, 50% (50/50, 2011) é uma daquelas comédias com pitadas dramáticas que cativa o espectador com alguma disposição para se deixar levar ou dotado de alguma sensibilidade. Para quem atende a uma ou às duas prerrogativas mencionadas, uma sessão do longa de Jonathan Levine pode ser muito proveitosa, em vários sentidos. O argumento em que o roteiro de Will Reiser está baeado não é, nem de longe, original: Adam Lerner (Joseph Gordon-Levitt) é um rapaz com seus 27 anos que vive um cotidiano básico e, de repente, vê sua sorte mudar ao ser diagnosticado com um tipo raro de câncer na coluna vertebral. A partir daí, é confrontado com a necessidade de revisar seus passos e reavaliar prioridades. É ou não um ponto de partida semelhante ao de muitas outras produções? Entretanto, mais do que uma sinopse, um filme é construído de cenas, momentos e apropriações individuais de narrativa e, nesse sentido, 50% é muito feliz em sua proposta. O diretor estreante consegue trazer frescor a uma premissa tão batida e oferecer ao seu público uma história emotiva e cativante.

Em nenhum momento, o filme escorrega na comicidade descrebrada ou tropeça em sequências carregadas de pieguice. O equilíbrio entre os polos (nem sempre) antagônicos da comédia e do drama acaba sendo uma das maiores qualidades da produção, que se vale do carisma de Gordon-Levitt – testado e aprovado em (500) dias com ela ((500) days of Summer, 2009) - e da naturalidade de sua interpretação. Some-se a isso o bate-bola divertidíssimo proporcionado pela presença de seu amigo Kyle (Seth Rogen), que funciona como uma espécie de contraponto ao tom sempre contido de Adam. Em sua boa vontade e disposição para ajudá-lo, Kyle propõe soluções absurdas para interdições típicas do contexto, num esforço constante para levantar o astral do rapaz – que passa por momentos de baixa, como era de se esperar – e que acaba contribuindo para boas risadas da plateia. O detalhe inconveniente dessas tentativas é que o amigo representa aquele pensamento comum de que o melhor a fazer diante de uma situação de morte iminente seja cair na farra e pegar geral, simplesmente porque há outros caminhos a escolher.

Seja como for, é possível dar um desconto para o filme e aproveitar satisfatoriamente 50 %, já que se trata de um único porém em meio a tantas qualidades apresentadas. O elenco de coadjuvantes, por exemplo, é completado pela talentosa Anna Kendrick (de Amor sem escalas [Up in the air, 2009]), a terapeuta em início de carreira que oferece métodos alternativos para que Adam lide melhor com a sua doença. Aliás, ela é a melhor coisa que lhe acontece, especialmente depois de uma tremenda bola fora cometida por Rachel (Bryce Dallas Howard, ruivamente linda), que o trai sem pestanejar e ainda se sai com a desculpa esfarrapada de que a doença de Adam estava sendo muito difícil para ela. Quem precisa de uma garota assim como namorada? Melhor mandar porta afora, como o protagonista faz sabiamente. Outra que rouba a cena toda vez que aparece é a ótima Anjelica Huston, intérprete da mãe extremamente zelosa que se desdobra em mil para cobrir o filho de cuidados. Ela é a prova de que papeis pequenos são balela: pequenos e grandes são os atores, isso sim. E Huston está plenamente encaixada na segunda categoria.


A inspiração para 50 % veio de uma história real. Aliás, quem viveu essa história foi o próprio roteirista do filme, que, na vida real, teve o auxílio de Rogen. Portanto, os desdobramentos vivenciados por Adam logo após a descoberta do seu problema de saúde são plenamente possíveis. O que o deixa mais intrigado, contudo, é que ele nunca foi de beber nem fumar, práticas reconhecidas como principais favorecedoras de câncer. E esse acaba se tornando um dos seus grandes questionamentos, sobretudo na fase em que ele extravasa a sua revolta com o mundo, traduzida na indagação: Por que comigo? Em todas essas ocasiões, ele pode contar com o apoio de Kyle, um ótimo sujeito com um ou outro conselho bacana, mas sempre bem intencionado – e que implica com todas as namoradas do amigo. Em momentos como esse, é um conforto imenso saber que existe ao menos uma pessoa próxima que ofereça ajuda, sendo ela demonstrada de inúmeras maneiras. O filme pode ser lido como uma comédia dramática porque o predomínio é do primeiro gênero, proporcionado pelas “loucuras” de Kyle, mas também há lugar para a seriedade, consolidada quando Adam percebe a dureza que é a sua doença, e conhece gente em situação parecida, como o simpático Alan (Philip Baker Hall), um daqueles velhinhos boa praça cuja experiência de vida é sempre muito valiosa.

As canções que pontuam a jornada de Adam são outro grande achado do filme. Em baladas leves e de pulsações melódicas, elas sublinham as curvas oscilatórias pelas quais o rapaz passa, sem soar redundantes ou meros recursos sonoros com vistas à comoção a qualquer custo, o que seria uma bobagem sem tamanho. É louvável perceber que Reiser fez de sua via crucis particular a matéria-prima de um filme espirituoso, gentil e sempre sincero, que reserva instantes de sorrisos bobos e nó na garganta à medida que percorre as várias fases do problema de Adam, o seu alter ego, afinal – e ele mesmo faz uma ponta no filme. Em outras palavras, é como se estivéssemos assistindo a um discurso reflexivo sobre a finitude da vida, a busca pelo renovo enquanto há tempo e a necessidade de se criar e manter vínculos afetivos com quem nos quer bem disfarçado de comédia despretensiosa.

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