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sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Bondade e gentileza vislumbrados em O homem sem passado


Representante da Finlândia entre os cinco indicados ao Oscar de melhor filme estrangeiro de 2003, O homem sem passado (Mies vailla menneisyyttä, 2002) é mais um afago no peito à maneira de Aki Kaurismäki. O cineasta escandinavo se utiliza novamente de seu humor discreto e de seu olhar de esguelha para retratar a história do protagonista (Markku Peltola) que, depois de sofrer um espancamento covarde e sem razão aparente, perde a consciência e a memória. Ao despertar, encontra-se em um hospital, ao qual foi levado por algum desconhecido que se compadeceu de seu estado – eis o primeiro indício da crença do diretor na bondade humana. Com o rosto enfaixado, torna-se ainda mais difícil para o homem se reconhecer e, num impulso de fuga, ele quer se libertar daqueles curativos para voltar à sua vida, ainda que não saiba mais os rumos que deve tomar. Dependente da gentileza alheia, ele acaba sendo acolhido por um casal de padrão de vida modesto, que não se importa em lhe dar guarida mesmo sem ter qualquer informação em que possam se fiar a respeito do homem.

Essa trama simples oferece a possibilidade de trazer novamente à tona algumas constantes do cinema de Aki Kaurismäki, como a direção de atores em tom algo teatral, que pode causar a impressão de certo distanciamento e artificialismo nas interpretações, e também o emprego de cores frias e extravagantes nos ambientes por que passam os personagens, compondo quadros estilizados. Sem falar no humor de sorrisos de canto de boca, por vezes tão discreto que pode passar despercebido para espectadores em busca de ensejos para risadas mais efusivas e a aposta em uma abordagem humanista, que se encontra subscrita a contextos de certo pessimismo e, a partir de certo momento, ergue-se triunfante sobre uma ampla gama de mazelas e misérias de caráter. Com todos esses aspectos espargidos também ao longo da narrativa de O homem sem passado, o diretor prova novamente o quanto é um artista do minimalismo, que abre espaço para os eventos banais do cotidiano e produz pequenas revoluções interiores com sua trama de reconstrução por vias inusitadas.

Em seu caminho, o protagonista de nome esquecido ainda encontra Irma (Kati Outinen, premiada em Cannes por seu desempenho), membro do Exército da Salvação: uma mulher bondosa e resignada que representa o sopro de amor lúbrico em seu coração, que reaprende a conjugar o verbo “apaixonar-se” com muita facilidade. Das mãos de Irma, vêm gestos simples e significativos, que pavimentam um caminho carinhoso e gentil, fértil para o florescimento de um bem querer para além da amizade. Outinen é a atriz mais recorrente da obra de Aki Kaurismäki. A parceria entre eles vem de longa data, e conta com títulos como A garota da fábrica de caixas de fósforos (Tulitikkutehtaan tyttö, 1990) e Nuvens passageiras (Kauas pilvet Karkaavat, 1996), passando pelo recente O porto (Le havre, 2011). Tantos anos de colaboração fazem de Outinen uma escolha sempre acertada e, aqui, ela equilibra lascas de doçura com um certo charme melancólico que tornam sua Irma uma personagem cativante. Seu relacionamento com o homem não chega a se desenvolver por completo, restringindo-se a um ensaio de paixão. Antes de tudo, porém, veio a amizade, um vínculo que permanece mesmo depois que ele começa a redescobrir o próprio passado.


Esse reencontro do protagonista com a sua vida anterior à amnésia lhe ocasiona um estranhamento, uma sensação de que não pertence mais ao mundo que habitava antes. Sua antiga realidade ficou esvaziada de significado e, assim como ele, o público acaba por simpatizar mais com os novos amigos e o novo amor do personagem. Ele simplesmente não está interessado em reaver o seu passado, mas em passar a viver como é hoje, desapegado de qualquer amarra. Mas como viver dessa maneira em uma sociedade que cobra nomes, documentos e toda a sorte de dados para identificação pessoal? Todas essas questões levantadas pelo filme são revestidas de um tom fabular, corroborando a tese de que Aki Kaurismäki gosta de optar por um recorte de ecos surreais para dar saudar o humanismo na senda tortuosa da vida de tipos deslocados. Para muitos, pensar no cinema do diretor, de um modo geral, pode soar exótico, o que não deixa de fazer sentido. Afinal, quantos filmes finlandeses chegam ao circuito brasileiro anualmente? Os dedos de uma única mão bastam para chegar à resposta dessa pergunta. Os longas do cineasta são dos poucos privilegiados que encontram brechas nas salas de exibição, e fazem dele um dos poucos nomes relativamente conhecidos daquele país em território nacional.

O homem sem passado, porém, é um daqueles pequenos tesouros escondidos, que convidam a serem descobertos. É como uma fina iguaria que se oferece à degustação paciente, o que nada tem a ver com ritmo lento ou arrastado. Mesmo porque, Aki Kaurismäki acredita que as histórias não devam passar de 90 minutos, mantendo-se fiel a essa linha em boa parte de suas produções. O filme também oferece um passeio por gêneros distintos. Nas primeiras sequências, mostra-se com um suspense. Mais adiante, caminha pelo terreno do drama, para em seguida, revelar uma faceta cômica discreta. E tudo isso de maneira sempre orgânica, sem transformar a história em uma baderna, com uma trama que atira para todos os lados e não acerta em nenhum. Estamos falando de um diretor que domina a narrativa cinematográfica a tal ponto que se permite subverter certas convenções do meio e oferecer a sua própria leitura para seus temas favoritos. Não faltam situações bizarras no filme, como o fato de o protagonista ir morar em um contêiner ou sua busca pelo seguro desemprego mesmo sem se lembrar do próprio nome, todas plenamente incorporadas ao seu cotidiano de perambulação. Acima de tudo, O homem sem passado contraria os tempos gélidos em que vivemos e reclama os pequenos gestos de bondade e dedicação, que podem ser o bastante para começar a aplacar nossa sede de afeto e querer bem.

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