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segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Nós que nos amávamos tanto e os sentimentos através dos anos


Os ideais se esfacelam, as paixões se dissolvem, os sonhos fenecem, as convicções se abrandam, as distâncias machucam, as lembranças reescrevem as histórias... O tempo traz a oxidação. Que restem, então, os amigos. Essas constatações podem vir à cabeça do espectador que entra em contato com Nós que nos amávamos tanto (C’eravamo tanto amati, 1974), exemplar de sensibilidade acurada dirigido por Ettore Scola. Seu foco são os anos de amizade entre Gianni (Vittorio Gassman), Nicola (Stefano Satta Flores) e Antonio (Nino Manfredi), tendo algumas das principais transformações na cena italiana como pano de fundo. No início, somos apresentados brevemente ao trio quando dois deles, acompanhado de uma amiga em comum, decide visitar o outro depois de muito tempo sem vê-lo. A câmera congela e um deles assume a posição de narrador participante a fim de transportar a plateia para o passado, que levará à compreensão de como cada um deles chegou até ali. Esse começo de história é apresentado em preto e branco, o que contribui para demarcar as duas grandes fases dessa longa amizade.

Devidamente inseridos no passado, passamos a acompanhar o encontro do trio em 1945, ano em que se encerrou a Segunda Guerra Mundial. Gianni e Antonio acabam conhecendo e se interessando pela mesma mulher, a graciosa Luciana (Stefania Sandrelli), que coloca à prova a estabilidade do relacionamento entre os dois amigos, cindindo-os profundamente. Ao longo dos anos, porém, eles vão experimentar muitas mudanças em seus sentimentos e perspectivas, e Antonio vai se dar conta de que talvez seja melhor para Luciana ficar ao lado de Gianni, uma demonstração de generosidade e altruísmo que normalmente só se é capaz de exercer quando se trata de grandes amigos. São eles que permanecem quando os amores se vão. É para eles que se pode correr quando um namoro ou um casamento chega ao seu fim e é preciso ouvir um conselho ou simplesmente desfrutar da companhia – há quem se esqueça dos amigos quando se envolve em um relacionamento amoroso. A amizade entre Gianni, Antonio e Nicola passa por vários testes de resistência, e se sai bem na maioria deles.

Entretanto, a vida quase nunca propõe os mesmos rumos para muitos e, ao construírem suas estradas e trilharem seus caminhos, eles acabam se separando. De vez em quando, contudo, acabam se reencontrando e se dando conta do peso dos anos para cada um. Essa premissa tão simples e sincera faz de Nós que nos amávamos tanto um filme pródigo em emoções, que exalta os sentimentos puros e desinteressados e faz pensar na urgência constante de se manter estreitos os laços de amizade. É claro que, como em qualquer relação humana, existe a dificuldade em lidar com os defeitos do outro e em admitir que há certos traços de comportamento que derivam diretamente da personalidade de alguém e que, dificilmente, serão modificados, a não ser que essa pessoa assim deseje. O filme se encontra inscrito no período áureo da cinematografia italiana, e o próprio Scola ostenta um currículo de obras admiráveis produzidas entre as décadas de 70 e 80, como Um dia muito especial (Uma giornata particolare) e O baile (Le bal, 1983). Trata-se de uma produção em que o sentimento nunca se confunde com o sentimentalismo barato, o que também é resultado da verossimilhança impressa em cada fotograma.


O contexto social tem grande importância em Nós que nos amávamos tanto. Mais que uma simples ambientação de época, o período do pós-guerra serve como elemento transformador dos destinos e dos pensamentos dos amigos. Depois que se implodem os domínios nazista e fascista do país, Antonio, Gianni e Nicola retornam às sua regiões de origem e dão continuidade a suas vidas se aproveitando das circunstâncias que se lhe apresentam. Nem sempre eles têm a chance de obter o que desejam: há um claro confronto entre intenção e realização. Mesmo assim, nenhum deles perde a esperança ou a confiança em dias mais positivos e em um cotidiano menos penoso. Sendo assim, Scola lança um olhar afetuoso e otimista sobre seus personagens, demonstrando que, apesar dos pesares, é possível sonhar, batalhar e contar com o carinho e a compreensão, por vezes silenciosa, de amigos queridos. Em corações abertos e plenos de sensibilidade, Nós que nos amávamos tanto pode ecoar como uma linda canção à amizade e ao bem querer dedicado àqueles que escolhemos ter por perto.

Em meio a todos os anos de encontros e desencontros entre o trio e Luciana, o realizador ainda abre espaço para inserções de ordem metalinguística, sobretudo por conta da participação de Nicola no famoso programa de auditório Lascia o radoppia (Deixa/desiste ou dobra), no qual tem a chance de demonstrar todo o seu conhecimento de cinema. O programa existiu de fato e ele se sai bem ao responder a várias perguntas que lhe garantem muitos pontos, chegando a protestar quando o apresentador afirma que ele se equivocou em uma das respostas, a qual só depois de anos será confirmada. As sequências do programa são uma maneira simples e inteligente de Scola homenagear alguns nomes e títulos importantes da história do cinema, sobretudo o de seus conterrâneos e, assim, até Federico Fellini e Marcello Mastroianni entram em cena como eles mesmos. A dupla, que manteve uma relação duradoura de parceria em filmes, aparece aqui durante as filmagens de A doce vida (La dolce vita, 1960), rodado mais de uma década antes e que é devidamente relembrado por Scola, representando um lindo diálogo entre a obra de ambos os diretores. Por todos esses aspectos, é difícil não amar o filme e pensar: nada como uma boa e sincera amizade. Ainda há tempo de dizer ao seu amigo que você o ama? Então... faça isso.

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