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terça-feira, 3 de julho de 2012

Saraband, o último baile dos amantes de longa data


Muitos anos transcorreram desde que Marianne (Liv Ullmann) e Johan (Erland Josephson) se viram pela última vez. O tempo é implacável: não espera por nada nem por ninguém. Por outro lado, é curioso o fato de que, muitas vezes, constatamos que longo período de distância de alguém parece se reduzir a uma escala ínfima quando se reencontra essa pessoa. Essa impressão, de certa forma, sobrevém a Marianne quando ela volta a fazer contato com Johan, exatos trinta anos após um dia que talvez tivesse sido uma despedida. E assim temos a introdução de Saraband (idem, 2003), que carrega consigo a “responsabilidade” de ser o último filme de Ingmar Bergman. Depois de uma carreira que cobriu um arco temporal de décadas, ele entregou mais um exemplar filmico de sua capacidade impressionante de escavar sentimentos de seus personagens como quem fustiga um rochedo e vê brotar dali uma nascente. Não há máscaras que perdurem entre os homens e mulheres que ele retrata e, aqui, não é nem um pouco diferente. Marianne, por exemplo, começa a sua exposição sentimental encarando a câmera, dispondo-se a comentar a respeito de sua última visita ao ex-marido.

Esse diálogo com a câmera nos traz Ullmann em franca maturidade física, do alto de seus então 64 anos, imersa na personagem que interpretara em Cenas de um casamento (Scener ur ett Äktenskap, 1973), de que Saraband é continuação direta não assumida por Bergman. Sentada diante de uma mesa sobre a qual estão muitas fotos, ela rememora alguma passagens importantes de sua trajetória de vida, sempre fazendo menção ao fato de ter sido casada com Johan e citando as filhas que ambos tiveram juntos, bem como de alguns leves arrependimentos que compõem o seu quadro de memórias. Esse recurso de quebra da quarta parede cinematográfica é muito eficaz, e dimensiona o público para o percurso altamente afetivo que Marianne enfrentará nas cenas posteriores, sendo o reencontro entre ela e Johann a cena imediatamente seguinte. Ela chega à casa dele depois de muitas horas de carro na estrada, e ainda hesita: deve ou não abrir a porta da varanda e chamar pelo seu nome? Sua indecisão é dividida com a plateia, que torce para que ela escolha a segunda alternativa e se permita, ao menos uma vez mais, ter com o homem que, há muito, faz parte de sua vida.


Bergman faz de Saraband mais uma de suas belas e pulsantes pinturas íntimas, reforçando a tese de que seu cinema dialoga diretamente com o espectador pelas fagulhas de identificação que desperta com seus personagens tão plausíveis. Marianne escolhe chamar por Johan, e ali começa um reencontro emocionado e emocionante entre duas pessoas que conhecem tão bem os vícios e virtudes um do outro. Não há como não ficar tocado com a sinceridade, muitas vezes bastante objetiva, que transpira das falas e atitudes dos protagonistas, bem como dos outros dois personagens com quem, revezadamente, eles dividem a cena. Existe espaço para conflitos de frentes variadas: ex-marido e ex-mulher, pai e filho, avô e neta, entre outros. Tudo porque, além de Marianne e Johan, estão presentes no reencontro Henrik (Börje Ahlstedt) e Karin (Julia Dufvenius), com quem eles travam diálogos memoráveis e, por vezes contundentes. O acerto de contas agressivo entre Johan e Henrik é de arrepiar. Verdades são jogadas na cara sem cerimônia: não há lugar para meios-termos nos retratos humanos do diretor. Pai e filho expressam todo o sentimento de ojeriza que nutrem um pelo outro como quem reage convulsivamente à invasão de um corpo estranho.


Em meio às suas discussões de natureza familiar e interpessoal, Saraband oferece planos belíssimos, que demonstram o cuidado de Bergman com a composição de uma atmosfera de inverno da alma, seja pelos anos que já se passaram para Marianne e Johan, seja pela séria dificuldade enfrentada por Henrik e Karin para superar a morte de Anna, respectivamente, esposa e mãe dos dois. A propósito, a relação entre pai e filha é um tanto estranha, dado o comportamento extremamente possessivo de Henrik, que não suporta a ideia de se afastar da jovem, a qual foi convidada para uma temporada no exterior, período em que poderá aperfeiçoar o seu grande talento musical. Ele se utiliza de armas um tanto sórdidas a fim de manter Karin por perto, mas a convivência entre eles vem passando por um profundo desgaste. Na verdade, Henrik cai na terrível armadilha de projetar Anna na filha, e desenvolve uma fixação algo patológica pela jovem, da qual Johan se dispõe a salvá-la a tempo. Marianne também tenta auxiliá-la com seus conselhos, mas a decisão final sobre ficar ou partir pertence apenas a Karin. Enquanto ela pensa, caminha a esmo pela floresta próxima à casa do avô, naquele que é o único plano externo do filme. A câmera vislumbra a jovem de cima, e a vemos sair do quadro por baixo, ao que se seguem alguns segundos de silêncio e vazio e, então, um grito de horror. Quando retorna, é como se já não fosse a mesma. Suas vestes também já não o são mais. Uma revolução interior se fez.

O clima de acerto de contas atravessa toda a duração de Saraband. De modo um tanto poético, o filme traz uma análise importante de alguns dos principais compassos que regem as vidas humanas, tomando Marianne, Johann, Karin e Henrik como tipos. Esse viés de análise é reforçado, inclusive, pelo título da obra, que remete a uma dança nascida na Espanha que, de popular passou a refinada com a sua incorporação à corte francesa, no século XVII. Aplicada aos nossos protagonistas, a composição musical pode ser lida como o último baile de dois amantes de longa data, cujo apego sentimental é fruto de um compartilhamento de suas vidas, para o bem e para o mal. Juntos novamente pela última vez, eles têm a chance de um balanço ora tenso, ora divertido sobre o que resta do tempo e o que foi feito com o tempo que passou, essa grandeza inventada sob cujo signo todos nascemos e vivemos inexoravelmente. Ele também é personagem de Saraband, tal qual as notas musicais executadas brilhantemente na trilha sonora discreta e nos ensaios de Karin, sempre sob a égide paterna. Na cadência ritmada do roteiro concebido pelo próprio diretor, as palavras, os gestos e os olhares têm peso semelhante, e contribuem decisivamente, cada qual a seu modo, para as investigações densas que sempre lhe foram tão caras. E, em suma, Saraband carrega consigo uma forte aura de despedida, de luzes que se apagam, de cortinas que se fecham. É um epílogo tocante para coroar com lindos louros a carreira do cineasta de obra mais anímica que já se viu; o último tomo de um profundo inventário sentimental.

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