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segunda-feira, 2 de julho de 2012

A apologia ao cinema trash em Cecil bem demente


A predileção de Jon Waters pelo cinema trash é novamente declarada em Cecil bem demente (Cecil B. DeMented, 2000), produção divertida sobre um diretor lunático que faz questão de ter uma grande estrela no elenco de seu filme. Cecil (Stephen Dorff) defende as películas de ares mambembes com todas as suas forças, e é por isso que ele sequestra a diva Honey Whitlock (Melanie Griffith) e a obriga a ser a atriz principal de seu desvario cinematográfico. Ela é um poço de esnobismo, habituada aos flashes e a todas as frivolidades que compõem o cotidiano de quem é da área de cinema. Está sempre com uma tirada ácida na ponta da língua e oferece o seu mau humor a todos que se aproximam dela, sendo, por isso, um tipo bastante risível. O tal sequestro de Honey se dá na ocasião do lançamento de seu filme na cidade de Baltimore, cujos traços provincianos – na sua visão – irritam-na profundamente. Cecil tem ao seu lado um séquito de corroboradores de suas teses revolucionárias de morte ao cinema comercial e perfeitinho, e são eles que cooperam para que o aspirante a realizador coloque em prática o seu plano sem falhar.

A tal trupe de inovadores conta com jovens de aparências extravagantes, entre os quais se encontra Raven (Maggie Gylenhaal), uma entusiasta de práticas grotescas envolvendo forças malignas. Assim como ela, cada membro do grupo ostenta nos dedos das mãos o nome de seu diretor favorito, e procura emular as características básicas de seus objetos de culto. Trata-se de uma das referências divertidíssimas lançadas por Waters, que brinca com a fama em torno de cada um desses diretores citados, entre eles David Lynch e Samuel Fuller, ícones para amantes de filmes assertivos, enigmáticos e heterodoxos. É com figuras desse naipe que Honey passa a conviver, perdendo o seu brilho de estrela comercial, o que acontece inclusive literalmente, já que ela deixa de ser uma ruiva luminosa e passa a exibir cabelos louros sem viço que lhe conferem um aspecto bagaceiro, atendendo aos caprichos rocambolescos de Cecil. O tal candidato a cult deseja impor Honey como estandarte de sua proposta de cinema ancorada na inversão de expectativas.

Como bem afirmou a crítica à época de seu lançamento, Cecil bem demente é o meio pelo qual Waters faz guerrilha contra Hollywood, transformando uma bela Griffith em uma combatente durona pronta para atacar o sistema – leia-se a máquina de produções megalomaníacas que visam os bolsos dos espectadores. O bando de cinéfilos esquerdistas espalha seus tentáculos pela cidade à procura de locações para o filme, e demonstram o talento totalmente discutível de Cecil, com suas cenas bizarras e seus diálogos pífios e constrangedores. Porém, quando se pensa no histórico de filmes de Waters, percebe-se que o manifesto em favor do lixo contido em Cecil bem demente é, antes de mais nada, a comprovação de que o diretor mantém hasteada a bandeira do cinema bandido, marginal, pelo qual seu apreço parece seguir inabalável desde o começo de sua carreira, pontuada por títulos como Pink flamingos (idem, 1972) e Cry baby (idem, 1990), todos com um ou dois pés na estética trash. Aliás, esse termo é passível de discussão: o conceito de trash pode oscilar segundo a ótica do público e da crítica e, muitas vezes, um filme é considerado tão trash que acaba se tornando cult. Ambos os termos, portanto, andam lado a lado certas vezes.


Em geral, um filme é chamado de trash quando é mal feito, seja ou não propositalmente, bem como quando seu orçamento é bem distante dos padrões estratosféricos reinantes no ambientte das grandes produções. Cecil bem demente se parece muito com um trash por essas peculiaridades, e se baseia em um roteiro inteligente para questionar com sagacidade o modus operandi cinematográfico tradicional. Não chega a exibir méritos para se transformar daqui a alguns anos em um cult, mas tem elementos suficientemente atraentes para produzir um boa reflexão atrelada a um entretenimento ligeiro. O filme, portanto, está calcado nesse hibridismo de sequências com potencial para o debate e cenas puramente bizarras para arrancar algumas gargalhadas de quem aprecia doses de humor negro e traços de nonsense. Não é sequer preciso concordar com a proposta algo revolucionária de Waters em termos de conteúdo para tirar algum proveito de uma sessão de Cecil bem demente. Se você não está disposto a abrir mão do modelo tradicional de Hollywood, não tem razão de se sentir ofendido com o filme: basta encará-lo como um grande e eficiente piada.

Há um detalhe, no mínimo, curioso a respeito do filme: a presença de Stephen Dorff no elenco. Esse dado se torna curioso quando se pensa que, exatos dez anos após o longa ele foi recrutado por Sofia Coppola para um novo papel principal e deu vida ao Johnny Marco de Um lugar qualquer (Somewhere, 2010), trocando de lugar com Honey e sendo um astro do cinema comercial. Isso prova que a ambiente cinematográfico está em constante movimento giratório, e nesse fluxo, pequenas e grandes surpresas podem surgir. É como se o panfletário Cecil, com o avançar dos anos, tivesse se aquietado e dado lugar a um ator a serviço do status quo contra o qual discursava tão veementemente. Não se pode deixar de pensar em brincar com essa possibilidade, por mais que se saiba que se trate de dois personagens distintos em dois filmes que, a princípio, carregam como traço identitário comum somente a metalinguagem. Existe como curiosidade também o trocadilho presente no título original da obra, que invoca o nome de uma das maiores lendas do cinema grandiloquente para relê-lo cheio de irreverência. Tem-se, então, um deboche fenomenal que não poupa (quase) ninguém no meio cinematográfico. É o manifesto de Waters em apologia ao cinema destrambelhado, que se orgulha do sangue trash que corre em suas veias e artérias.

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