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quarta-feira, 30 de maio de 2012

A vida propondo novos rumos em Não por acaso


Histórias simples e honestas merecem lugar cativo no cinema e, felizmente, surgem exemplos desse naipe com certa regularidade nas telas, constituindo-se como obras de revoluções interiores. Não por acaso (idem, 2007) é um desses felizes exemplos: a estreia de Philippe Barcinski na direção de longas é alvissareira, e traz consigo a proposta de análise do cotidiano semimonótono de dois homens cujas estradas retas se intercruzam em apenas um átimo. Ênio (Leonardo Medeiros) é um engenheiro de tráfego rodoviário que vivencia a rotina extenuante de controlar as aberturas e fechamentos de semáforos e primar por um trânsito ordeiro. Pedro (Rodrigo Santoro) é um jogador de sinuca inveterado, que vê nas possibilidades que o jogo oferece as nuances de controle de seus próprios rumos. O realizador opta por contar as duas histórias sempre em paralelo e, sob a forma de cotejo, engendra as semelhanças e as dissensões entre os dois homens.

O grande ponto de virada dessa narrativa em bifurcação é o confronto que ambos terão com o próprio destino, quando a vida lhes propõe novos rumos. Essas propostas vêm sob a forma de reveses, e os impele a reconfigurar algumas de suas certezas, vontades e atitudes, gerando esforços nímios para que eles deem conta de tais empresas. Barcinski olha para homens comuns, sem qualquer poder extraordinário ou manancial de virtudes. Não tem receio de lhes expor os defeitos e limitações, bem como as decorrências de sua falta de habilidade em lidar com emoções complexas, como o amor paternal, que deveria ser manifesto por Ênio, ou o desejo de vencer, tal qual caberia a Pedro. E isso atrapalha muito os relacionamentos que eles deveriam manter com as respectivas mulheres de sua vida: Bia (Rita Batata), a filha de Ênio, e Teresa (Branca Messina), a namorada de Pedro.

Não por acaso oferece uma mescla benvinda entre simplicidade narrativa e certo arrojo visual, o que colocou Barcinski entre as promessas do cinema brasileiro. Sua carreira pregressa é formada por curtas como A grade (idem, 1997) e O postal branco (1999), que passaram por festivais importantes mundo afora. Seu maior sucesso, de crítica, entretanto, foi o curta Palíndromo (idem, 2001), que abocanhou oito prêmios e semeou os primeiros comentários de que ele poderia se incluído entre os “diretores jovens de técnica ousada”, nas palavras de Fabio Farias, que o entrevistou para a revista Catorze alguns anos depois do lançamento do longa que é objeto de análise desta crítica. Também depõem a seu favor as passagens pelos Festivais de Berlim e Cannes, dois dos mais badalados e importantes mostruários de filmes de toda a Europa, de fascínio autenticado ao longo dos anos. Tudo isso serve para demonstrar que Barcinski vem pavimentando seu caminho como uma estrela ascendente, e que vale conferir os exemplares de sua ainda curta filmografia.


Cabe destacar, em Não por acaso, as interpretações precisas (na falta de um adjetivo mais adequado a algo tão subjetivo) de Medeiros e Santoro, que, decerto, estão entre os melhores atores de suas respectivas gerações. O primeiro matiza com contenção as sombras dramáticas que envolvem seu personagem, um homem que travou no amor depois de um divórcio seguido de uma perda repentina da pessoa amada. O segundo, por sua vez, une a desolação a um certo componente de malandragem, que lhe obriga a escolher um novo alguém para dividir a vida lá pelas tantas, uma decisão da qual não se podem dissociar as complicações. Pode-se dizer, portanto, que a direção de atores aqui é uma notável qualidade do filme, e agradará em cheio aos fãs de interpretações memoráveis. No cruzamento entre simplicidade e profundidade, Não por acaso chega de mansinho e se instala no pensamento, podendo despertar reflexões sobre a ordem da vida e levantar a possibilidade de revisão de discurso e atitudes.

Segundo Barcinski, ainda na entrevista supracitada, a película foi gestada ao longo de cinco anos, considerando-se apenas o período de sua escrita. Somem-se a eles dois anos de filmagem, finalização e lançamento e teremos sete anos de dedicação do diretor a uma única produção. Felizmente, o resultado final de tanto tempo investido foi positivo e salutar, e colocou o filme em rota de colisão com obras privilegiadoras de roteiros capengas e artefatos dramáticos rasos. Não por acaso pulsa e dialoga com a plateia pelo que traz de universal, sem incorrer em estripulias de qualquer instância para atrai-la. A história, despojada de elementos que a alegorizem – no sentido mais concreto do termo – flui com facilidade, e torna seus já curtos 90 minutos em menos tempo ainda, salientando que é possível alçar lindos voos através da concisão e impregnar o discurso fílmico na memória. Singelo e autoral, o filme perscruta chagas sentimentais de homens como quaisquer tantos outros e celebra o impacto benévolo da serendipidade.

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