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quarta-feira, 2 de maio de 2012

Habemus papam, a fechadura aberta para o impenetrável


Existe uma mescla entre humor e consciência crítica muito apropriada na composição de Habemus papam (idem, 2011), trabalho recente de Nanni Moretti. O realizador italiano é muito feliz em propor aqui um olhar atento para um dos locais mais inacessíveis do mundo: os bastidores do Vaticano. Conforme indica o título, um novo papa foi escolhido para substituir o antigo, mas o eleito não demonstra estar muito à vontade em sua nova condição. Vivido por Michel Piccoli, ele é o retrato da insegurança, por se sentir totalmente incapaz de assumir seu posto, por assim dizer. E, no exato momento em que seria apresentado à multidão, entra em colapso e corre desesperadamente. A partir daí, começam as tentativas de dobrá-lo, para que ele possa cumprir com a função que lhe veio às mãos. Até mesmo um psicanalista (vivido pelo próprio Moretti) entra em cena, chamado às pressas pelos cardeais para tentar dar conta da agonia do papa.

Ao longo de sua duração, Habemus papam trafega na linha tênue entre o drama e a comédia, e essa oscilação lhe é benéfica. Sutilmente, ele atira para muitos lados, mantendo-se, todavia, dentro dos limites da polidez, o que pode causar a impressão de que seja apenas um filme leve e despretensioso, quando, na verdade, há todo um discurso ideológico que lhe serve de base, e que pode passar despercebido para os mais desatentos. Para além de qualquer defesa de ponto de vista, entretanto, o diretor está muito mais interessado em examinar os homens sob os mantos, especialmente o protagonista, consumido pela aflição de não se sentir à altura do cargo para o qual foi designado. Nesse quesito, o filme também se sai muito bem, já que nos oferece a chance de olhar como se estivéssemos por trás de uma fechadura espaçosa, que dá acesso aos vários cômodos frequentados pelos líderes religiosos e expõe sua vulnerabilidade. E, colocados nessa condição de voyeur, podemos aprender um pouco mais acerca do cotidiano de homens tão importantes, ainda que não haja um compromisso formal de Moretti com a realidade, o que não chega a tornar sua abordagem enviesada.

Em suas entrelinhas, o filme trata do peso de uma responsabilidade, e do quanto pode ser difícil para alguém corresponder às expectativas formadas a seu respeito, especialmente quando se é o novo pontífice, o líder religioso máximo da civilização ocidental. Habemus papam se debruça sobre essa temática e não cabe no rótulo de “filme religioso”, apresentando um escopo muito mais amplo e convidando à reflexão sobre a carência de líderes vivida pela sociedade contemporânea, bem como a eterna necessidade do homem de crer em instâncias espirituais superiores, sendo este último uma consequência do primeiro, e que acaba sendo tocado apenas levemente pelo diretor, também autor do roteiro em parceria com Francesco Piccolo. É a segunda colaboração do roteirista com Moretti em um filme seu. A anterior havia sido em O crocodilo (Il caimano, 2006), um exercício crítico e sarcástico sobre a política pensado pelo diretor. Em Habemus papam, a dupla aposta na simplicidade e na sensibilidade, e consegue cativar o espectador com essa junção. Sem falar no grande desempenho de Piccoli, um veterano que, novamente, abdica de sua língua materna para atuar em italiano, algo que ele já havia feito em A comilança (La grande abbuffata, 1973). Não parece, mas estamos diante do mesmo intérprete do Paul Javal de O desprezo (Le mépris, 1963), que foi capaz de esnobar ninguém menos que a Camille de Brigitte Bardot.


O ator consegue encarnar a suscetibilidade que seu personagem exige, colocando-se ora como um senhor temeroso do que vem à sua frente ora como um fugitivo dado a molecagens, que deixa todos os seus colegas em maus lençóis, inventando artifícios para justificar a demora na apresentação do novo papa ao mundo. Decorrem desse incidente as inserções mais cômicas do roteiro, que consistem, entre outras coisas, em usar um empregado do Vaticano para fingir ser a sombra do papa em seus aposentos. Trata-se de um sujeito gorducho, que mais parece um bufão, tendo seus dias me majestade como jamais poderia ter suposto antes. Com essa figura, Moretti e Piccolo conseguem arrancar frouxos de riso do público, e aponta a fragilidade dos expedientes adotados por aqueles homens tão desorientados diante de uma situação que foge totalmente aos seus ditames. Nesse sentido, o novo papa acaba sendo um homem muito corajoso, por assumir sua insegurança e se tornar mais humano e acessível aos nossos olhos. Enquanto isso, seguem-se as artimanhas de seu porta-voz para contornar a situação, interpretado pelo polonês Jerzy Stuhr, outrora presença recorrente nos filmes de Krzysztof Kieslowski, que se sai muito bem como um homem determinado a encaixar as coisas nos seus devidos lugares, como ele mesmo acredita que devam ser, ou que o fizeram acreditar que devessem ser.

Antes de mais nada, portanto, Habemus papamé uma grande brincadeira com a religião e a psicanálise, evidenciando os seus vácuos e os seus limites. A incompletude de ambas, sob a sua concepção, é apontada logo no início do longa, quando o psicanalista tenta travar um diálogo esclarecedor com seu novo paciente, e quase todos os assuntos que ele poderia tentar abordar são vetados por serem considerados tabus no ambiente católico: nada de complexos edipianos ou devaneios eróticos, por exemplo, interdições que cerceiam gravemente o seu trabalho e culminam com a sua impotência diante do caso. Como tudo o que ocorre atrás das portas do Vaticano é segredo para ser guardado a sete chaves, o psicanalista acaba confinado àquele lugar até que a situação se resolva. E o personagem também é humanizado, já que há tempo suficiente para que ele se revele aos seus novos companheiros, o que enfatiza as suas limitações como homem e o coloca em pé de igualdade com qualquer um de nós. Ainda sobra espaço para uma inteligente metáfora geopolítica que surge com a ideia de um torneio de vôlei envolvendo os cardeais, que são dividos segundo seu continente de origem, deixando clara a preponderância europeia e estadunidense sobre terras e povos latino-americanos. Com todos esses elementos mesclados, Moretti alcança um interessante patamar de reflexão e nos deixa, à sua maneira, um tanto mais esclarecidos.

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