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quarta-feira, 9 de maio de 2012

O mundo-propaganda de Logorama


O Oscar de melhor curta animado foi parar em ótimas mãos em 2010. Logorama (idem, 2009) é um engenhoso jogo de referências ao mundo contemporâneo, especialmente no tocante à coqueluche das propagandas, se é o esse é o termo mais cabível para uma prática já tão antiga. A produção é extremamente sagaz ao combinar um punhado de citações a marcas do mundo inteiro, exigindo que o espectador esteja muito atento a cada uma delas. Para qualquer direção que se lance o olhar, encontra-se um logotipo, escancarado ou disfarçado. E, em apenas 16 minutos, somos convidados a refletir sobre o quanto as grandes empresas estão presentes em nosso cotidiano, mesmo nos momentos e espaços mais improváveis. Animais aparecem para aludir a marcas que os utilizam como símbolos. Personagens são nomeados de modo a remeter a produtos conhecidos. São apenas dois exemplos de como as sutilezas do roteiro dão conta do recado.

Aliás, o filmete foi dirigido e roteirizado a três mãos: François Alaux, Hervé de Crécy e Ludovic Houplain se reuniram para pensar a maneira como nos relacionamos com o mundo sob a mediação de grandes marcas. Voluntariamente ou não, necessidades nos são ditadas sem que as tenhamos originalmente, evidenciando o poder de fogo da propaganda, com suas estratégias, por vezes, maleficentes. O grande desafio proposto pelos diretores e roteiristas é identificar todas as marcas que surgem no decorrer do filme, que se vale de uma estrutura narrativa canônica. E elas pipocam umas atrás das outras e, muitas vezes, simultaneamente. Entretanto, Logorama não se reduz a uma brincadeira de “onde está a marca X?” O trio imprimiu consciência crítica ao curta e levanta a bandeira de um planeta em exaustão, que precisa com urgência de uma reciclagem. E essa constatação surge oscilante, ora sob a forma de ironia, ora sob a roupagem da metáfora.


Para contextualizar o desfile de signos empresariais, Alaux, Crécy e Houplain lançam mão de perseguições alucinadas de carros, animais selvagens que caminham naturalmente pelas ruas e uma dose de suspense envolvendo alguns reféns. Há que se destacar, ainda, a inserção do bonequinho símbolo da Michelin como um personagem um tanto aparvalhado e divertido em seus descaminhos. E vale prestar atenção, ainda, à presença de um Ronald McDonald nem um pouco agradável, bem distante da imagem que a rede à qual pertence nos transmite há tantos anos. E o que dizer da charmosíssima Garota Esso, que se insinua como sereia para a dupla de policiais Bibendums. Em meio à trama central básica, tramas paralelas transcorrem e a enxurrada de citações invade os olhos do público. Diz-se que há um total de 2500 marcas apresentadas nos poucos minutos de duração de Logorama. Haja fôlego para encarar tantas em um espaço de tempo tão curto!

Nada escapa à torrente de alusões do trio de diretores. As pessoas são símbolos ou mascotes, os edifícios são logotipos e mesmo os animais que surgem pelo caminho remetem a marcas conhecidas, que olhos minimamente atentos saberão reconhecer. Trata-se da publicidade ganhando vida, e da transformação do mundo em uma grande propaganda. É o triunfo do homem-anúncio, da marca como tradução de uma visão de mundo, de um ícone como propagador de interesses. Por trás da historieta nem tão original de Logorama, existe consciência crítica e um excesso que nos chama a atenção para o que já nos parece tão trivial e orgânico, quando, na verdade, é uma construção, uma configuração de mundo forjada. Por onde passou, o filme conquistou a crítica. Em Cannes, faturou o Prêmio Kodak, e foi bastante comentado depois de sua exibição em Sundance, o reduto das produções independentes. É sempre bom constatar o reconhecimento a obras de qualidade, como é o caso desse curta, que reúne lascas de deboche, reflexão e crítica ferrenha, com um final que, para além de um Deus ex machina insano, é uma espécie de vaticínio do ápice de um desgaste mundial.

3 comentários:

  1. Excelente texto, Patrick Corrêa. Já tomei nota. Irei vê-lo assim que puder. Lembrou-me bem a poesia de Carlos Drummond "Eu, Etiqueta". Uma bela sacada do diretor. Um abraço... Seguindo.

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  2. Obrigado pela leitura, Maxwell!
    Também pensei quase imediatamente nesse poema. E o filme é ótimo mesmo.

    Abraço

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  3. ALIÁS, TRATA-SE DE FILOSOFIA: "NÃO COMPRAMOS PRODUTOS, COMPRAMOS MARCAS."
    ÓTIMO TEXTO!

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