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quinta-feira, 24 de maio de 2012

No limiar da vida: uma longa noite de revisões de conceitos


No limiar da vida (Nära livet, 1958) reúne, sob seu belo título, três belas mulheres à volta com a maternidade. Cecilia (Ingrid Thulin) começou a sofrer uma hemorragia que colocou sua gravidez em risco, e a fez ir para o Quarto E. Ali também se encontram Stina (Eva Dahlbeck) e Hjördis (Bibi Andersson), cada qual em uma situação distinta no que se refere à espera de um filho: enquanto Stina é saudável, ainda que com o nascimento do bebê atrasado, Hjördis não deseja o filho e já chegou a tentar um aborto. Reunidas sob o mesmo teto, elas têm uma noite inteira para pensar e repensar suas decisões e caminhos futuros. E Ingmar Bergman consegue, assim, prender o interesse do espectador pelas histórias individuais dessas mulheres, bem como por aquilo que elas passam a compartilhar nas longas horas de uma madrugada de eventos marcantes.

É notável a sensibilidade com que o realizador sueco guia a trama. Não há muitos artifícios cênicos que pudessem tornar a direção ou o roteiro empolados. Essa aposta na simplicidade resulta em uma história tocante, em que o sentimento de ser mãe é abordado sob diferentes vieses e sem qualquer verniz ocultador de verdades. O cenário também é restrito: toda a ação de No limiar da vida transcorre no hospital onde o trio se encontra internado. O confinamento faz sobressair o grande talento das intérpretes, todas presenças habituais na filmografia do diretor. Dahlbeck foi mais frequente nas duas primeiras décadas de sua obra, atuando em títulos como Uma lição de amor (En lektion i kärlek, 1954). Sua Stina é a mais doce e afável das futuras mães, exibindo um vero entusiasmo pela chegada iminente do primeiro rebento. Seu marido Harry (Max Von Sydow, em aparição relâmpago) compartilha dessa alegria, e se percebe no contato entre ambos quando ele a visita que existe uma linda harmonia entre o casal, aproximando-os do modelo ideal de relacionamento.

Cecilia, por sua vez, é a menos afortunada das pacientes. A tal hemorragia que acomete a personagem culmina com a perda de seu bebê, e ela passa a se sentir culpada pelo fato, já que a criança parecia ser o único elo entre o amante e ela. O desempenho maravilhoso de Thulin consegue nos despertar piedade, e entendemos que ser mãe era uma questão muito mais ampla para aquela mulher. Cabe a ela o entrecho mais dramático do filme, o mais típico de Bergman, por assim dizer. Cecilia está totalmente vulnerável, e vê em Stina a mãe que gostaria de ser e agora não pode mais. A princípio, ela parece ter mais importância na trama, já que as primeiras cenas giram ao seu redor. Entretanto, ela vai perdendo destaque à medida que a câmera se volta um pouco mais para Stina e, posteriormente, para Hjördis. Assim, cada uma delas assume o protagonismo em determinado momento, numa gentil demonstração do carinho de Bergman pelas suas atrizes. A estrutura de ares teatrais impressa ao filme, cujo roteiro é uma parceria do próprio Bergman (ainda que não creditada) com Ulla Izaksson também não nos deixa mentir a esse respeito.


A mais jovem das três, Hjördis, é a única a ter um destino bem-sucedido no que tange ao bebê que espera, e é justamente a que menos deseja ser mãe. A vida tem dessas ironias, contra as quais, muitas vezes, não se pode fazer algo. De qualquer modo, é sempre possível extrair uma lição desses fatos. A personagem chega a essa conclusão praticamente à sua revelia, num esforço de conscientização que, em princípio, exige que ela ultrapasse a própria juventude. Enquanto Cecilia e Stina lidam com seus reveses, Hjördis tenta entender como agir diante do benefício da vida que lhe foi concedido. E essa maturidade crescente é belamente apresentada por meio do talento de Andersson, tão jovial quanto linda no papel. É impressionante perceber o quanto ela se sente à vontade em cena, o que justifica plenamente a franca recorrência de sua presença na obra de Bergman, bem como o romance que os envolveria na vida pessoal alguns anos mais tarde. Depois de algumas conversas com Stina e com a enfermeira responsável pela ala da maternidade, ela se convence de que pode encarar o novo rumo à sua vida trazido pela gravidez.

Apesar de versar sobre uma temática densa e, por vezes, delicada, No limiar da vida traz alguns instantes de agradável alívio cômico. A cena que mostra a entrega dos bebês recém-nascidos para suas respectivas mães é um tanto divertida, por revelar qual era a prática comum nos hospitais de época quanto a esse assunto: os bebês eram colocados em uma espécie de gaveta e transportados em um carrinho. Cada vez que um deles chegava à mãe, a enfermeira abria a gaveta e o entregava a ela. Os outros momentos de sorriso advêm da personalidade luminosa de Stina, que procura se embelezar (mais, pois já é linda) para receber a visita do marido e ajuda a manter um certo clima de leveza àquele ambiente tão sisudo. Dona de um semblante no melhor estilo otimista incorrigível, mesmo quando sofre um baque ela consegue buscar forças para se reerguer. No limiar da vida, portanto, é um dos filmes mais sutis e alegres de Bergman, e o fim de sua projeção, somado a tudo que apresentou até ali, proporciona ao público um olhar ainda mais terno sobre a maternidade.

2 comentários:

  1. Olá, Parick Corrêa. Acabei de ler teu texto. Não vi, ainda, este filme de Bergman. Pelo teu texto deu para perceber que há, de fato, uma leveza neste filme. Bergman tem feito filmes não tão densos, a saber: Juventude, Monika e o Desejo e etc. Esse se enquadraria perfeitamente, também. O assunto da maternidade é sempre algo muito delicado e vê-lo sendo tratado por Bergman se torna uma tarefa obrigatória para conferir. No mais um abraço... Espero sua visita.

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    Respostas
    1. Sim, Maxwell. O filme é mais leve do que outros de Bergman, e tem cenas comoventes. Vale muito a pena ser conferido.
      Mais uma vez, obrigado pela visita, já vou retribuir a sua.

      Volte sempre!

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