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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Imagens da metalinguagem e do amor ferido em O desprezo



O panteão dos grandes filmes da história do cinema, um idoso jovial de 116 anos, ganhou entre seus componentes O desprezo (Le mépris, 1963), que veio a ser o quinto longa-metragem de carreira de Jean-Luc Godard, diretor que se tornou uma espécie de instituição para a sétima arte. O filme em questão exalta a figura feminina como poucos, relega o homem a segundo plano e o iguala a fartas porções de ganância. Como personagens centrais, temos Paul Javal (Michel Piccoli) e sua esposa Camille (Brigitte Bardot), cujo relacionamento dá claros sinais de estabilidade e paixão. Em uma das primeiras sequências, ela pergunta ao marido se ele ama partes do seu corpo. Ao final, conclui que, se ele ama cada pedaço seu, então a ama por inteiro. Durante essa sequência, a personagem, completamente desnuda, atiça o olhar da plateia.

Entretanto, aquela talvez seja a única cena de amor genuíno e recíproco entre os protagonistas, que entrarão em profunda dissintonia depois de embarcarem para Roma, onde Paul trabalhará com ninguém menos que Fritz Lang (vivido pelo próprio diretor) em uma adaptação da Odisseia, clássico homérico. À medida que Paul vai se envolvendo com a feitura do filme, bem como com as discussões para que ele seja concebido, ele vai se afastando progressivamente de Camille, que recebe o tal desprezo dos títulos original e em português do filme. Sem se dar conta, ele entrega a esposa a companhias alheias, entristecendo-a e fazendo reavaliar o sentimento que nutre por ele, que logo se transformará também em genuíno descaso. A diferença, entretanto, é que o desprezo de Paul é um tanto impensado, ao passo que Camille manifesta o seu diante da indiferença crescente e contumaz do marido.

Godard oferece, com seu filme, um estudo atento das colisões e desencontros presentes em um casamento, bem como lança luz sobre o discurso metalinguístico, ao contrapor a estilização e a arte de um cineasta tarimbado e os interesses mercenários de um produtor cuja cartilha reza de acordo com o certames do alto retorno financeiro. Essa gangorra permanece ao longo do filme, e a tal adaptação sequer chega a avançar. Tudo são muito mais especulações e elocubrações que propriamente o desenvolvimento do trabalho. O desprezo funciona, assim, como uma balança de dois pratos: de um lado, os sonhos desfeitos de Camille diante da negligência de Paul; do outro, a tentativa dele e de Frtiz Lang de injetar dignidade e qualidade às filmagens da Odisseia. Nesse jogo duplo, quem sai ganhando é o espectador. Em todos os sentidos, diga-se de passagem: desde o carnal, com a beleza inebriante de Bardot, até o artístico, com a presença de um cineasta tão lendário e importante em seu elenco.



O desprezo é baseado na novela homônima de Alberto Moravia, e carrega consigo a aura de inesquecível com todo o mérito. Godard faz da mulher uma espécie de déa, a quem glorifica com lindos close-ups que sublinham a linda cútis de Camille, de quem o espectador se torna cúmplice diante da atitude imperdoável de Paul. Através do filme, o cineasta franco-suíço, então com 43 anos, também critica o cinema comercial, traduzido na figura do produtor “desalmado” que foca seu interesse em divisas, e procura fazer um filme o mais palatável possível, a fim de que o grande público o digira facilmente. Interessante é observar que esse é um dos filmes mais simples de Godard, se comparado a monumentos difusos como Elogio ao amor (Éloge de l’amour, 2001) e o recente Film socialisme (idem, 2010). O diretor dá o seu recado de modo quase direto, cabendo ao espectador acolher ou refutar a sua proposta, que, cá entre nós, é bastante legítima, e continua atual. O cinema contemporâneo ainda vive essa dualidade entre produções caça-níqueis e trabalhos mais artesanais, cujo espaço dedicado é ínfimo. Não há problema em preferir os blockbusters, mas o descaso deliberado com outros tipos de filme pode ser extremamente empobrecedor.

Logo no início de O desprezo, há um detalhe a ser destacado. Os créditos são apresentados de modo diverso do tradicional. Em vez de aparecerem escritos na tela, eles são falados pela voz do próprio Godard, que faz questão de assinalar que se está diante de uma obra de pura ficção, de um recorte temporal e artístico. O expediente voltaria a ser usado, também por um diretor francês, em Fahrenheit 451(idem, 1966), apenas três anos depois, mas com um intuito diferente. François Truffaut, diretor do longa, recorreu a ele por conta da trama do filme, que mostrava uma sociedade em que a palavra impressa era proibida. Essas pequenas coincidências e intertextualidades apresentadas pelo cinema são um dos elementos que lhe conferem um tempero do especial. As discussões entre Paul e e Camille, por sua vez, são uma grande oportunidade para que o diretor exiba também seu talento como roteirista, trazendo um paralelo entre a relação do casal e a de Ulisses e Penélope, personagens da Odisseia. Como a protagonista da obra de Homero, Camille fica à espera de Paul, o seu Ulisses, que se perde em mil aventuras e dissabores em meio ao seu entusiasmo pelo projeto do filme. Até que ela se cansa e revida com o mesmo desprezo àquilo que recebeu do marido. Entre tantas passagens marcantes, o filme chega ao seu epílogo deixando a nítida certeza de que obras de arte não envelhecem, e perduram pela capacidade que têm se mostrarem universais, tratando, em primeira instância, da difícil condição humana.

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