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terça-feira, 6 de dezembro de 2011

O eclipse: um epílogo de uma meticulosa e profunda meditação



A inscrição de Michelangelo Antonioni na galeria dos grandes realizadores não é gratuita. Sua obra é monumental e se reafirma com o passar dos anos de modo doloridamente verdadeiro. Sua Trilogia da Incomunicabilidade talvez seja o exemplo magno de uma capacidade extraordinária de apresentar gradações da falência humana por meio da captura dos silêncios e dos vazios. Depois de A aventura (L’avventura, 1960) e A noite (La notte, 1961), a tríade de filmes se encerrou com O eclipse (L’eclisse, 1962), mais um ensaio poético da dificuldade de comunicação que assola a existência humana e seu contato interpessoal. A base para esse encerramento está nas figuras de Vittoria (Monica Vitti) e Piero (Alain Delon), um casal forjado em meio ao tédio.

O sentimento que assola o homem contemporâneo, por sinal, é um dos vértices em que o filme, a exemplo de seus predecessores, apoia-se. Os outros são a já mencionada incomunicabilidade e a melancolia. Logo em sua primeira sequência, O eclipse demonstra sua potência analítica dos vácuos que ecoam nos instantes finais do relacionamento de Vittoria com seu antigo namorado. Não há mais nada a dizer. Os olhares dos amantes de outrora se desencontram, e a ansiedade por romper aquela união que já não mais a satisfaz se traduz em uma expressão de fastio. Ele clama pela segunda (ou terceira, quarta) chance, a qual não vem. Fica claro desde então que, em meio aos tempos mortos, Antonioni descortina as almas aflitas dos personagens, cujas angústias internas os arremessam para atos de desespero, ou para a pura imobilidade. Ainda que seja assertiva em sua recusa, Vittoria não sabe o rumo que deseja para a sua vida. Assim, caminha a esmo pelas ruas, dissidente, dissoluta.

A exemplo de A aventura e A noite, O eclipse oferece longos planos pontuados pela ausência de diálogos, em que as imagens sobrepujam a qualquer ação efetiva dos personagens. Embora contem história independentes, os três filmes revelam sua interdependência por versarem sobre a luta inglória que pode ser a existência humana. Antonioni foi o cineasta que, junto a Ingmar Bergman, melhor soube capturar as dificuldades de autoexposição de que todos nós, em maior ou menor grau, sofremos. Vittoria e Piero não parecem ter nada em comum. No entanto, aproximam-se. Apaixonam-se? Isso nunca parece muito claro. Ela se encontra algo desarvorada. Ele, um operador da bolsa de valores habituado à comunicação aos urros, apresenta um comportamento volúvel, que dificulta a aquisição de consistência no romance que inicia com ela. Sedutor, ele encontra uma certa resistência de Vittoria inicialmente, mas ela cede, e vai se apaixonando lentamente. Assim nos faz pensar a condução do diretor, sem que, necessariamente, seja essa a única conclusão a que se possa chegar. O cinema de Antonioni não é pródigo em respostas, mas aberto a inferências.



Verdade seja dita, a lente de aumento que o cineasta lança sobre temas tão difíceis não acolhe grandes plateias. O eclipse exige calma e um espírito contemplativo que a contemporaneidade parece ter roubado de grande parte das pessoas. Trata-se de um filme que caminha pé ante pé, como se pedisse licença e, uma vez instalado, demonstra sua força aterradora. A trama não precisa de grandiloquência para atingir o público, mas dos silêncios, das vozes veladas. A dor que atravessa as existências vazias de Vittoria e Piero é aguda, e se traduz em gestos contidos e em tentativas de atitudes que são vencidas pela apatia. Para além de seu tratamento da incomunicabilidade, O eclipse fecha a trilogia como um estudo meditativo sobre o amor no mundo atual, a exemplo de seus antecessores. Por mais que tenha sido feito há quase cinqüenta anos, o filme não ficou datado, e essa constatação é, ao mesmo tempo indicadora de qualidade e de defeito da obra. Antonioni nos leva a entender que o abismo entre os homens que as palavras não cobrem continua em voga, e cria seres e relações recalcitrantes.

A fotografia, uma atribuição de Gianni di Venanzo, é um deslumbre à parte. Cada cena é dotada de um eficiente jogo cromático que evidencia os contrastes entre verdade e vontade. Por mais vizinhos um ao outro que estejam, os dois amantes parecem não conseguir escapar a um certo componente de volatilidade a que a relação estaria fadada. E as lentes “poderosas” de Venanzo amplificam a sensação de incompletude e agonia em um preto e branco algo faiscante. Antes de clicar O eclipse, ele já vinha de uma colaboração de longa data com o diretor, que inclui As amigas (Le amiche, 1955) e A noite, antecessor da trilogia. Vale citar também a sua colaboração com Federico Fellini em 8 ½ (idem, 1963), mais uma das obras legendárias que seu currículo ostenta. Some-se a isso a música pungente que incide sobre algumas cenas, quebrando certos instantes de silêncio e gerando uma atmosfera de ensimesmamento nos protagonistas. Eles se dobram sobre si mesmos e sintetizam toda uma crise da contemporaneidade.

O interessante é que, como verdadeira obra de arte, o filme pode ser dissecado em diversas camadas. Não só tematiza relacionamentos e lança luz sobre essa questão de modo incômodo, mas também critica a ambição capitalista na construção de cenas que mostram homens vociferantes em suas negociações envolvendo altas divisas. Em um mundo onde o pecuniário se coloca acima do humano, os contatos interpessoais perdem força quando pensados para além dessa esfera. Sai o afetivo, entra o numerário. E, com isso, Antonioni promove o desfecho de sua trilogia assinalando o vazio de toda uma classe. Os ricos e endinheirados sofrem e caminham sofregamente, como quem não encontra a satisfação plena para suas rotinas atormentantes. O diretor envolve seu público e seus personagens em uma pungente aura de mal-estar, que aponta para um lado do ser humano que estetização profunda – nos termos de Wolfgang Iser, teórico alemão – vigente na sociedade consumista, faz questão de varrer para debaixo do tapete. Tomando emprestadas palavras alheias sob a forma de paráfrase, O eclipse nos concede a entrada em uma jornada fatigante que se dilata para um clímax que, em última instância, é o grito preso na garganta.

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