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domingo, 18 de dezembro de 2011

Brown bunny, a caminhada sem eira nem beira pela estrada afora



Quando foi exibido no Festival de Cannes em 2003, Brown bunny (The brown bunny, 2003) causou reações de intensa repulsão em boa parte da plateia presente na sessão. Houve quem considerasse que o filme tenha sido o pior de toda a história da badalada mostra francesa. De fato, o trabalho na direção de Vincent Gallo apresenta um teor e uma condução incomuns para figurar numa seleção oficial do Festival, e as debandadas ocorridas na Croisette não continuam sendo tão absurdas quando se põem os olhos diante desse road movie coalhado de tempos mortos, que caminha tão a esmo quanto seu protagonista e seus pouquíssimos outros personagens. O subgênero já rendeu pérolas de valor inestimável, como Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine, 2006), o que assegura que é possível contar uma boa história caindo na estrada.

Basicamente, o filme narra a vida de Bud Clay (Gallo), um piloto de corrida que não consegue se libertar das lembranças que envolvem a sua ex- namorada Daisy (Chlöe Sevigny), a qual o deixou sem dar esperanças de reconciliação. Tentando esquecer tudo o que se refere a ela, Bud empreende uma longa viagem com a sua motocicleta, indo de New Hampshire até a Califórnia, o que leva o espectador a ficar diante de uma interminável viagem, em que os pensamentos do protagonista são seu leme e sua bússola. Bud compartilha sua dor particular conosco, seus interlocutores apopléticos diante de tamanha falta de rumo. Praticamente nada acontece. E, quando acontece, é algo que pode levar ao choque. O espanto e a desistência do público de Cannes diante do filme se deu por conta de uma escandalosa cena de sexo oral envolvendo os personagens de Gallo e Sevigny. Ela surge em um dos vários contextos de recordações de Bud, que mantém acesas na mente cada uma delas. Não por acaso, o filme recebeu classificação indicativa máxima nos cinemas. E a atriz, por sua vez, ficou tão marcada pela cena que chegou a causar da desistência de sue então agência em representá-la.

Esse é o resumo, o sumo e tudo aquilo que constitui Brown bunny. Trata-se de um filme que parte do nada e chega a lugar algum, pontuado por longas sequências de silêncio e contemplação. Todavia, é bom que se diga: o grande defeito do filme não é sua lentidão nem seus instantes silenciosos. Filmes mais recentes se utilizaram do mesmo recurso e se configuram como pequenas obras-primas, como é o caso de Polícia, adjetivo (Politist, adjectiv, 2010), do romeno Corneliu Porumbouiu, em que o recurso da observação paciente é largamente empregado e surte um efeito importante. O que afeta Brown bunny é sua mornidão a maior parte do tempo. Gallo não conseguiu criar empatia suficiente através de Bud. Para piorar, tudo o que acontece na história é filtrado unicamente pelo seu olhar desalentado, que o vitima e vilaniza Daisy, deixando toda a narrativa com o ângulo totalmente enviesado do personagem, que só dá voz à ex-namorada em poucos instantes, que são tentativas de corroborar a sua crise emocional e afetiva. Com isso, o filme é ferido de morte em sua boas intenções (?) bem em seu início, tornando seus pouco mais de 90 minutos seguintes quase insuportavelmente arrastados.



Um detalhe que se sobressai no filme é a repetição constante do nome de Vincent Gallo nos créditos. Além de dirigir e protagonizar o longa, ele responde pela fotografia, pelo roteiro, pela trilha sonora e pela produção, o que leva à concepção de que estejamos diante de um exercício de egocentrismo dos brabos, comparável ao recente Amores imaginários (Les amours imaginaires, 2010), capitaneado pela pretensão humana chamada Xavier Dolan. Talvez esse seja um outro dos grandes problemas de Brown bunny. Deixasse algumas funções nas mãos de outros nomes, e talvez a heterogeneidade resultasse em algo mais interessante e digno. Outro aspecto digno de nota é o que envolve a correlação entre ficção e realidade que atravessa o filme: Chlöe Sevigny substituiu Kirsten Dunst no papel de Daisy, já que a intérprete de Mary Jane desistiu em cima da hora do filme. Com isso, Gallo contracenou com sua ex-namorada da vida real, uma situação, no mínimo, constrangedora, especificamente por conta da tal cena de sexo.

Entre a plateia, a outra reação observada foi a de vaiar o filme. De fato, toda a frágil arquitetura cênica e dramática erigida por Gallo caracterizam seu trabalho como quase indefensável, já que tudo ali soa pretensioso e pseudoexistencialista. As lembranças são fundamentais para qualquer pessoa, e é válido tentar se debruçar sobre as reverberações de uma perda ou de um fim na memória. Só que, em meio a tanta jactância, as chances de uma boa obra se esvaíram drasticamente. Poucas coisas se salvam aqui. Uma delas são as belas paisagens que serviram de locação à bocejante viagem de Bud, que só pensa em sua “coita amorosa”. E, convenhamos: quando um filme vale muito mais pelas paisagens que pelos atores, enredo ou direção, estamos diante de uma pequena bomba. Gallo ainda chegou a cortar 20 minutos da versão final após o desastre em Cannes, que surtiu efeito para a maior parte da crítica. Veja-se a ironia: aqueles que haviam vaiado o filme passaram a gostar dele. E, poucos meses depois, o filme recebia o prêmio da crítica no Festival de Veneza. Com isso, resta a certeza de que, ao menos em um quesito Brown bunny se destacou: o de fomentador de controvérsias.

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