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sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Atentados contra o otimismo em A garota da fábrica de caixas de fósforos


Em sua última entrevista concedida à televisão, Clarice Lispector foi perguntada sobre qual seria o enredo e o tema de sua última novela, que viria a ser conhecida como A hora da estrela. A resposta da escritora foi evasiva, e ela se limitou a dizer que se tratava de uma história de uma inocência pisada e de uma miséria anônima, cuja protagonista era paupérrima, a ponto de comer apenas cachorro-quente. Ao se pensar que ali ela estava falando de Macabéa, entende-se que existe um paralelo possível entre a personagem do livro e Iris, a protagonista de A garota da fábrica de caixas de fósforos (Tulitikkutehtaan tyttö, 1990), um dos filmes mais inesquecíveis da sua década. Assim como Macabéa, Iris é uma mulher pobre, com um horizonte de expectativas restrito, mas que ainda vê graça na vida, pois é importante conservar uma porção de otimismo.

Entretanto, uma pergunta se subscreve a toda a narrativa do filme, que, por pouco, não seria um média-metragem: a inocência e o otimismo suportam todo tipo de adversidade e crueldade? Como tentasse responder a esse profundo e inquietante questionamento, Aki Kaurismäki entrega uma história forte, de diálogos esparsos, alicerçada em um minimalismo que se reflete em todos os aspectos. O interesse maior do cineasta é pela observação, meio que ele elege para tentar dar conta de explicar a complexidade da temática que decidiu abordar. O filme se inicia justamente com a tal fábrica onde Iris trabalha, e somos colocados diante de uma série de máquinas que, com suas repetições mecânicas, delimitam que aquele espaço é reservado unicamente a um trabalho cego. Apenas depois de alguns minutos veremos Iris pela primeira vez, e o primeiro diálogo surge apenas com 13 minutos de narrativa.

Enquanto a realidade cruel vivida por essa mulher nos é apresentada, percebemos detalhes que chamam a atenção no filme, e que são características recorrentes na obra de Kaurismäki. Ele investe em uma fotografia que abusa das cores frias e um tanto berrantes, que contrastam com os estado de introspecção de seus personagens. Iris é uma pessoa de pouquíssimas palavras, que se reserva ao direito de observar muito mais do que comentar os fatos e as pessoas à sua volta. Esse traço de sua personalidade pode incomodar o espectador, que pode enxergá-lo como uma profunda apatia e desapego pela vida. Mas tudo ali soa plenamente justificável. Iris espera pouco do mundo, e se encontra encaixada em uma conjuntura que lhe oferece pouco alento. Até mesmo em seu relacionamento com os pais a dificuldade de comunicação é grande, e nunca fica muito claro se existe ainda algum amor recíproco entre os três moradores daquela pequena e pobre casa. Com isso, o realizador finlandês também reflete sobre a questão da importância dos vínculos familiares, bem como da situação econômica de seu país natal. Costumeiramente associada à riqueza e à beleza, a Finlândia desse filme é o mais sombria e classe média baixa possível.



Somada à fotografia, há uma trilha sonora estonteante em A garota da fábrica de caixas de fósforos. O filme é permeado por canções que evocam a dor e o abandono, e levam à percepção de que aquela mulher está fazendo o possível para se manter de pé. Ela vai a festas, frequenta bares, sempre à espera de que alguém possa vê-la e desejá-la. Até que um homem, em uma dessas noites de espera, vai ao seu encontro, mas sua motivação é torpe. Ele acredita que ela seja uma prostituta, e os dois se relacionam por apenas uma noite, o suficiente para que Iris engravide e se veja totalmente sem rumo e dependente da colaboração daquele homem que, por um momento, quis tê-la. É então, que, um após outro, ela começará a lidar com uma série de desapontamentos, que levam a meditar: Até que ponto vale a pena estar de pé? Ainda é possível dar uma chance à vida ou chegou a hora de se retirar de vez deste mundo? As perguntas reverberam e exalam toda a sua capacidade de perturbar, aliadas a músicas que impactam e servem como tapas na cara.

Uma das músicas mais atordoantes de todo o filme é executada perto de seu final. Entre outras palavras pungentes que ela contém, estão as que afirmam que “quando alguém busca agradar a outro e sofre apenas decepções, o baú de lembranças se torna muito difícil de carregar”. É exatamente o que vai acontecendo com Iris. Mais uma vez propondo o paralelo com Macabéa, ela também não sabe gritar, e seu sofrimento internalizado será transformado em duas atitudes extremas, uma espécie de acerto de contas com a vida e com seus algozes. Sua decisão pode gerar reações de estupefaciência, e despertar o questionamento da validade ou não de tudo aquilo que ela decide fazer. A garota da fábrica de caixas de fósforos não é um filme a que se pode assistir e depois ir fazer compras. Sua condução quase asséptica permanece por muito tempo na memória, sem que Kaurismäki tenha precisado recorrer a estratagemas grandiloquentes. Na simplicidade extrema de sua narrativa, ele nos arrasta para um filme que debate questões urgentes, e se encerra com a sensação de se estar diante da pergunta mencionada anteriormente por aqui: Até que ponto a inocência admite ser pisoteada? Em meio ao caos frio, lento e silencioso, encontra-se uma resposta aterradora.

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