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domingo, 25 de dezembro de 2011

Água fria ou quando crescer também é perder


Todos sabemos que a vida é composta de ciclos: tudo começa com a formação de uma mórula e se encerra com o cadáver. Entremeando esses extremos, encontram-se tantas fases importantes e decisivas, cada qual com o seu peso particular, especialmente quando está sendo vivida. Água fria (L’eau froide, 1994) é um dos trabalhos mais importantes da carreira de Olivier Assayas, que escolheu olhar para a adolescência, uma dessas várias fases da vida humana. Para isso, focou suas lentes em Gilles (Cyprien Fouquet) e Christine (Virginie Ledoyen), um rapaz e uma moça cheios de vida e de inquietações pulsando nas veias. Como é típico em suas idades, ambos lidam com as dores do crescimento e apresentam as dificuldades de comunicação e interação com as gerações mais velhas, simbolizadas por seus responsáveis. Some-se a isso uma instabilidade indócil, que os leva a manifestar seu desejo de pertencimento e identidade um tanto intempestivamente. Estamos, portanto, diante de um poderoso retrato de uma das fases mais conturbadas da existência.

Gilles e Christine estão no mundo, mas ainda não sabem precisar qual seja seu real lugar no mundo. Como se afirmar efetivamente quando ainda não se sabe o que se é realmente? Os dois vociferam pelo desejo de ser, ainda que, naquele momento, vivam muito mais o estar. Houve quem dissesse que “crescer é uma grande sujeira que fazem com a gente”, e os protagonistas de Água fria demonstram concordar com essa frase. Sempre exalando um misto de doce ternura com inconformismo arisco, eles seguem em uma procura sôfrega por um caminho que seja o seu. Com isso, Assayas compõe um dos mais sinceros filmes sobre adolescência, captando com sensibilidade acurada as nuances existentes nesses anos durante os quais tudo ganha dimensões homéricas, para o bem e para o mal. Em termos bem claros, o crescimento se mostra uma tremenda sacanagem para os jovens, que já perderam o seu lugar seguro da infância e ainda não chegaram à dita/requerida maturidade adulta. Estão exatamente naquela posição limítrofe cuja natureza é insegura.

Observando um pouco da trajetória do diretor de Água fria, descobre-se que ele não teve uma formação acadêmica na área que escolheu seguir. Não no sentido ortodoxo do termo, é bom que se diga. Em sua passagem pela lendária Cahiers du cinéma, pôde vivenciar, de certo modo, sua faculdade de cinema. A carreira de realizador sempre foi sua ambição, e ele foi pavimentando sua caminhada pelo celuloide com um repertório suficientemente heterogêneo. Entretanto, seu filmes mormente abordam a formação de um ou mais indivíduos, e Água fria é o exemplar mais lembrado e louvado de sua filmografia. Aqui, ele exibe sua capacidade de exímio contador de histórias baseado em um roteiro sua própria autoria que valoriza o poder do silêncio, maximizador das imagens que resultam em dolorida poesia. Em várias cenas, saem os diálogos, entra a contemplação, com uma trilha sonora de entontecer os ouvidos, no melhor sentido que o verbo pode carregar consigo. Por tudo isso, Água fria pulsa, reverbera, inunda os olhos, o ouvido e o coração com uma forma de ser toda sua. Trata-se de uma daquelas obras ante a qual um primeiro olhar pode não ser capaz de enxergar toda a sua força, e que depende, por isso, de uma digestão paciente até que se decante a sua importância e a sua vivacidade. Tal como quem vos escreve.



À sua maneira, Gilles e Christine são outsiders, mesma condição em que se encontram Bruno e Sonia em A criança (L’enfant, 2005) e Alice e Mattia em A solidão dos números primos (La solitudine dei numeri primi, 2010), outros dois filmes memoráveis sobre jovens em estado de constante deambulação e incerteza, lidando com o mundo que se lhes apresenta complexo por toda a sua vastidão. Assayas enxerga longes horizontes para seus protagonistas, e os atores que dão vida aos personagens oferecem desempenhos pungentes e enternecedores, sendo dignos de figurarem ao lado de outros nomes inscritos galeria de tipos inesquecíveis do cinema inventariada pelos fãs, como Antoine Doinel em Os incompreendidos (Les 400 coups, 1959), um dos vários filmes com o personagem. Há muito de humanidade e verossimilhança em Gilles e Christine, o que nos permite nos sentir atraídos e interessados pela sua história, bem como também nos sentimos condoídos pelas dificuldades que ambos enfrentam.

A constatação subjacente à trajetória dos protagonistas parece ser a seguinte: é necessário entrar na vida adulta. A adolescência um dia passará, e eles precisam estar prontos para esse ingresso em uma outra fase. Da infância, restam as lembranças edulcoradas, presentes em um baú que eles carregam para toda parte. O que eles (pouco) sabem, compartilham um com o outro, buscam contar um para o outro. E, entre eles, existem um bem querer que se manifesta inclusive nos instantes de silêncio que atravessam sua convivência. As palavras têm força e peso, mas Assayas nos faz entender que a sua ausência também é poderosa, e torna as cenas nas quais ele é empregado concêntricas no que tange à intensidade dramática que transpiram, sendo a que mostra os dois em uma festa a mais antológica de todas elas. Com isso, é notório que Água fria cruza as linhas do zênite cinematográfico para se encaixar em uma nobre categoria de filmes: aqueles com alma e coração. No cotidiano de Gilles e Christine, paira a inquietude e a busca por um preenchimento de sua vidas, que se traduz em uma fuga desesperada e terrível daquele mundo diante do qual eles tentam se manter de pé. Indomáveis, eles também são como Annabel e Enoch, de Inquietos (Restless, 2011).

Eles enfrentam seus próprios limites o tempo todo. Eles precisam de um interlocutor que lhes ouça e lhes traga algum tipo de segurança. No fundo, eles não têm apenas um ao outro. Não no sentido prático. Emocionalmente, entretanto, Gilles tem a Christine e Christine tem a Gilles. Seus corpos e suas mentes reclamam um a presença do outro. A presença que se manifesta pela profunda sintonia que lhes serve de alimento espiritual e os faz respirar. Tudo é tão urgente nessa fase da vida... tudo ganha uma dimensão tão absurda... As dores, os amores, os desejos. Sem meios termos, sem ações reservadas, sem palavras calculadas. Eles sentem amor, sentem paixão, sentem tesão. Tudo é tão impreciso nessa vida. Há pensamentos e mistérios que não alcançamos, e isso não tem a ver com idade. A vida, tão longa e tão curta, tão paradoxal, não é um poço inesgotável de respostas. Essas constatações derivam da enorme potência de Água fria, que foi feito para sentir e para guardar em um peito cheio de sentimento.

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