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segunda-feira, 18 de abril de 2016

14 personagens em 14 anos de estrada cinéfila

Mais um abril chegou, e minha cinefilia segue firme e forte por mais um ano. Convencionei que este é o mês em que comemoro a "oficialização" do meu grande carinho pelo Cinema e, a exemplo dos dos últimos anos, me propus a publicar um artigo que pudesse reunir itens de um determinado tema na mesma quantidade dos anos de paixão fílmica. 

A indecisão ao longo das últimas semanas foi grande, e até pedi sugestões a amigos e colegas igualmente apaixonados por essa arte para chegar à melhor escolha. Curiosamente, minha decisão final foi por um tema em que eu já tinha pensado inicialmente: personagens que me marcaram nesses 14 anos. Assim como tantos outros, é um tema que abre espaço para milhares de escolhas, o que torna a lista a seguir sempre suscetível a revisões e atualizações. Portanto, fica o registro de um momento: os 14 homens e mulheres encarnados nas telas são os que mais têm estado na minha cabeça ultimamente ou há algum tempo e ainda permanecem durante a escrita desse texto.

Gostaria de esclarecer três pontos importantes. O primeiro: meus escolhidos não são todos exatamente modelos de conduta ou caráter, o que significa que não estou de pleno acordo com suas maneiras de ser ou suas atitudes. Do ponto de vista cinematográfico, entretanto, oferecem múltiplas possibilidades e, em última instância, são retratos da natureza humana, sujeita e erros, equívocos, arrependimentos e recomeços. Os personagens marcam sobretudo pelo que têm de humanos e de capacidade de gerar algum tipo de identificação ou catarse. 

O segundo: como sempre afirmo, não me preocupo em montar listas em ordem de preferência; geralmente, opto pela ordem cronológica ou alfabética. Para essa aqui, fiquei com a segunda opção, e sinto que não saberia organizar esses nomes de acordo com o meu grau de interesse, apego, surpresa ou outro sentimento.  

Finalmente, o terceiro ponto: na tentativa de ser um pouco mais igualitário nas escolhas, decidi que não haveria repetição de diretores na lista. A decisão foi pesada, porque vários personagens que amo estão em filmes de um mesmo realizador, Woody Allen que o diga. Mas, um dia, vou criar uma lista só com meus preferidos na vasta filmografia dele. Por ora, ficou apenas um, que também não deixa de ser síntese dos temas e abordagens que ele persegue e com que se sente à vontade há tantos anos. Agora sim, vamos aos nomes!

1. Brandon (Michael Fassbender em Shame, 2011)


Certos personagens são espelhos do tempo em que foram concebidos, funcionando como metonímia de uma época para o bem ou para o mal. A presença de Brandon nessa lista é uma parte da cota de incômodo que certos indivíduos podem trazer; não é fonte de inspiração. Viciado em sexo e, por isso mesmo, inábil na construção e no cultivo de vínculos sentimentais, ele mostra, com sua conduta reprochável, uma sociedade cujas bases estão fincadas no egoísmo e na busca pelo deleite pessoal como o mais importante. E tal priorização não dá paz, como o roteiro do próprio diretor Steve McQueen atesta, sem a menor vergonha que lhe dá título. Fassbender está de corpo e alma no executivo sem controle da própria vida, que degringola de vez com a chegada da irmã para viver um tempo com ele. A cena em que seus olhos vertem discretas lágrimas enquanto ela entoa New York, New York está entre as mais devastadoras já filmadas.

2. Daniele Dominici (Alain Delon em A primeira noite de tranquilidade, 1972)


Um professor de Ensino Médio de métodos heterodoxos e um homem em crise no casamento são duas descrições simplistas do protagonista do melancólico filme assinado por Valerio Zurlini. Mais do que isso, ele é um homem apegado à beleza, que encontra na estonteante figura de Vanina Abati (Sonia Petrovna) um oásis capaz de inundar seu coração desértico. Mas até quando? Em se tratando de humanos, sentimentos podem ser evanescentes e Daniele externa seu desconforto com o mundo em frases duras e pesadas. Aos olhos dos outros, é um casal lindíssimo, mas a aparência esconde as dificuldades de cada um consigo mesmo. Zurlini oblitera alguns conflitos de Daniele e torna elíptica a narrativa de sua trajetória. Em havendo mais a conhecer, mais dúvidas surgem. Não é um personagem fácil. É bastante humano, afinal. E seu olhar desalentado para Vanina dançando na boate sintetiza boa parte do oceano encoberto em que habita.

3. Gelsomina (Giuletta Masina em A estrada da vida, 1954)


Os olhos de Gelsomina são o que ela tem de mais lindo e expressivo não apenas em seu rosto, mas em todo o corpo. A sonhadora mulher que tão bem tipificou o universo felliniano é, antes de tudo, uma forte, cujas ilusões são a quintessência da ingenuidade, até mesmo para a época em que vive. Dá vontade acolhê-la nos braços e livrá-la dos rompantes de Zampanò (Anthony Quinn), que acredita piamente estar fazendo bem a ela quando a tira do convívio familiar para ganhar a vida na estrada, sem paradeiro definido. Através de Gelsomina, Fellini faz poesia doce e otimista, aquela que surge contra a esperança, que se apoia nas fagulhas e dela faz uma fogueira que aquece o coração.

4. Gil Pender (Owen Wilson em Meia-noite em Paris, 2011)



Saudosista de marca maior, Gil Pender é a encarnação daquele pensamento de que as melhores coisas ficaram no passado. Talvez todos nós já tenhamos dito a mesma coisa, mas o desejo do roteirista de pouco prestígio de andar na contramão do tempo é tão intenso que, um belo dia, o tempo vem buscá-lo para um passeio em priscas eras. Então, sua maneira de encarar os lugares e as pessoas muda. Pudera. Quem pode dizer que esteve na companhia de Francis Scott Fitzgerald, bateu um papo com Salvador Dalí ou teve dois dedos de prosa com Ernest Hemingway? Sem falar no caminho cruzado com uns certos Pablo Picasso ou Luis Buñuel. Gil precisa ir ao passado para reconfigurar sua noção de presente que, convenhamos, estava bem tediosa ao lado da noiva fresca (Rachel McAdams). Porque, às vezes, um passo atrás pode significar dois passos à frente.

5. Grace (Nicole Kidman em Dogville, 2003)




Ela chega a Dogville fugindo da perseguição de gângsteres e logo encontra guarida entre os moradores da cidade de cenários sugeridos. Em pouco tempo, os favores pedidos em troca de proteção se tornam cada vez mais pesados e injustos e apenas um habitante parece realmente se compadecer de sua situação. Mais que isso: está envolvido amorosamente com ela. Típica personagens de camadas, Grace ainda é um dos melhores papéis já entregues a Nicole Kidman, rivalizando de perto somente com sua encarnação de Virginia Woolf em As horas. De aparência frágil e uma solicitude desconcertante apresentadas num primeiro momento, ela sacode as estruturas de um local que sintetiza a mesquinhez humana, resultado do roteiro de Lars Von Trier que não se furta de jogar na cara do espectador que somos todos malvados em potencial.

6. Kiki (voz de Minami Takayama em O serviço de entregas da Kiki, 1989)



"Crescer e mudar, não dá pra evitar"... Enquanto há vida, há mudanças, e a pré-adolescente Kiki está tendo cada vez mais certeza dessa máxima que dizem para nós de uma forma ou de outra. Recém-chegada em uma nova cidade com seu inseparável gatinho Jiji, ela quer experimentar o sentimento de pertencer a algum lugar e, quem sabe (figuradamente, é claro), a alguém. As coisas não estão em ordem na sua cabeça fervilhante, e daí vem boa parte da identificação que a garota desperta. Nossos pensamentos frequentemente são uma bagunça, e tantas vezes não se coordenam com as falas e atitudes como deveriam. Depois que passamos da fase em que ela está, conseguimos decifrar em parte o que está acontecendo com ela e cumprimentá-la: bem-vinda ao mundo das incongruências. É aqui que os adultos costumam viver.


7. Leonard Kraditor (Joaquin Phoenix em Amantes, 2008)



Um homem, dois sentimentos. Leonard ainda não superou muito bem uma depressão, e precisa encontrar motivos para seguir em frente na caminhada pela vida. A tarefa parece se tornar mais fácil com a aparição de Michelle (Gwyneth Paltrow), a vizinha de cima que, embora também carregue sua cota de problemas, ou muito provavelmente por isso mesmo, desperta nele um sentimento de querer estar junto e conhecer mais e mais - amor, afinal. Escrito com cuidado e maturidade por James Gray, o protagonista de Amantes é um homem cindido pelas escolhas que faz, e nem sempre as consequências são as que ele espera. Seu cotidiano, mesmo após o encontro com Michelle, está tingido de tonalidades acinzentadas, e sua maior busca é por matizes que destoem dessa paleta.

8. Marianne (Liv Ullmann em Cenas de um casamento, 1973, e Saraband, 2003)



No que se refere às atuações, Liv Ullmann nos deixou várias marcantes. Entretanto, o que estou considerando nessa lista são os personagens, e a que mais me fascinou foi Marianne (embora a Elizabeth de Persona esteja praticamente empatada com ela). O passar dos anos ao lado do marido mais velho formaram seu relicário de vivências e memórias, e uma descoberta nada agradável faz que ela repense todo o tempo ao lado de um homem que, afinal, talvez não conhecesse tão bem quanto supunha. Como tantas outras mulheres de Bergman, é transbordante, passional, mergulha no que sente e experimenta as dores derivadas desse jeito de ser. O coração a engana, mas os laços sentimentais não são uma mentira. É daquelas personagens tão palpáveis e amáveis em suas imperfeições que dá até para dizer que Ullmann estava doando muito de si mesma a Marianne. No reencontro com Johan (Erland Josephson) após algumas décadas, trazendo o peso da velhice, alguns sentimentos se redimensionam.

9. Marty McFly (Michael J. Fox em De volta para o futuro, 1985, De volta para o futuro 2, 1989 e De volta para o futuro 3, 1990)




Quem nunca quis ser Marty McFly pelo menos uma vez na vida? Michael J. Fox realizou esse sonho três vezes, todas devidamente registradas pelas câmeras de Robert Zemeckis, e o jovem que precisa ir e voltar no tempo se tornou um dos ícones da geração 80 que cresceu diante das telas do cinema e da TV. Seja nos anos 50, para impedir que seus pais se desencontrem e seu nascimento permaneça assegurado, seja indo à frente de seu tempo para desfazer os planos de um desafeto, seja no Velho Oeste em uma bela homenagem a um gênero inesquecível, os passeios de McFly têm sabor misto de nostalgia e imaginação. Afinal, passamos de 2015 e nem tudo que o roteiro previa para essa época se concluiu, como os desejados skates voadores. 

10. Mason (Ellar Coltrane em Boyhood, 2014)


Difícil alguém que não foi Mason pelo menos algumas vezes na vida: as incertezas sobre os próximos passos, bem como sobre de que se gosta, permeiam a caminhada de qualquer indivíduo. E o trajeto do garoto é acompanhado da infância ao final da adolescência, tempo suficiente para uma coleção de erros e acertos, construções de pensamentos e revisões de pontos de vista, o que o tornam extremamente próximo de nós e tão nós ao mesmo tempo. Sobretudo aqueles de poucas palavras conseguem se identificar melhor com o menino cujas experiências lhe vão moldando, e o tempo só lhe mostra o quanto não se deixa apreender: passa de segundo em segundo, de minuto em minuto, de ano em ano. E logo 12 anos já se passaram, sem que todas as questões tenham sido resolvidas. E, por vezes, ainda há muitas outras a serem colocadas.

11. Nikolai Luzhin (Viggo Mortensen, em Senhores do crime, 2007)



As várias tatuagens ajudam a contar boa parte da história do motorista de um chefão da máfia russa, com cujo filho desenvolve uma relação ambígua, regida ora pelo ciúme, ora pelo fascínio. Mortensen reprisou sua parceria com David Cronenberg, realizando dois filmes seguidos com o cineasta - eles voltariam a se encontrar dali a quatro anos. Nikolai é um homem de poucas palavras e praticamente nenhuma demonstração de sentimentos, embora se possa sentir sua gana de viver. Caminha da frieza ao cuidado em um piscar de olhos, e luta com as armas que tiver ao seu alcance. A sequência da sauna, em que está completamente despido e, a princípio, vulnerável, é emblemática nesse sentido.

12. Oscar (Denis Lavant, em Holy motors, 2012)


Homem enigmático. Operário da arte. Senhor da esquizofrenia. Difícil demais encapar o protagonista de Holy motors em um único sintagma. De minutos em minutos, ele se transmuta, revelando sua natureza movediça, seja lá porque motivos forem. O manifesto assinado por Leos Carax que instiga e fustiga a capital cinematográfica estadunidense deve boa parte do seu vigor a esse multifacetado. Ele não tem tempo de ser ele mesmo, e seus interlocutores pouco elucidam sobre o que pode haver em seu passado. Independente de quem realmente seja, ele coloca sempre muita verdade no que faz e, de tão crédulos que nos tornamos daquilo que nos mostra, acabamos puxados pelo pé: é mais uma dose cavalar de ficção que acabou de nos ser injetada na veia e nas retinas.

13. Vincent Vega (John Travolta em Pulp fiction, 1994)


Ele entende de cultura pop, e é em seus lábios que o roteirista Quentin Tarantino coloca algumas das melhores tiradas de Pulp fiction. Com sua história embaralhada em meio a outras narrativas, ele vai e vem ao lado de Jules (Samuel L. Jackson), com quem forma uma dupla que esbanja química (e pólvora). Também não falta química em suas horas na companhia de Mia Wallace (Uma Thurman), e a sensacional cena da dancinha toda estilosa coroa o entrosamento desses parceiros de ocasião. Ainda que estejamos falando de um assassino de aluguel, não há como negar que Vincent esbanja carisma e chega a ser desastrado em um momento que poderia não ter acontecido. Culpa do acaso ou de uma mente criativa movendo as peças do jogo? Sem falar que sua reação de perdido quanto à origem da voz de Mia na sala virou um meme multiuso...

14. Violeta (Alessandra Negrini em O abismo prateado, 2011)



Desiludida, Violeta caminha pelas ruas. O homem de sua vida colocou fim ao que ela pensava não ter prazo de validade. Foi uma baita sacanagem, e se recuperar dessa pancada não é nada simples. Atriz de presença forte em tela, Negrini doa seu olhar para a personagem, e as íris marejadas de Violeta sentenciam seu estado de desorientação. A noite é longa, as luzes da cidade ora avermelham, ora branqueiam seu corpo, e a estroboscopia de uma boate produz lusco-fusco sobre ela, numa das sequências mais belas da filmografia do realizador Karim Aïnouz, quiçá nacional. A canção de Chico Buarque foi uma inspiração clara e assumida: o desejo de ser encontrada refeita move os passos de Violeta, mas em se tratando de sentimentos, há sempre a noção de processo imbricada.

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