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sábado, 23 de abril de 2016

QUINTETO DE OURO - Eric Rohmer

A palavra sempre teve peso e corpo para Eric Rohmer. Ao longo de sua filmografia, o realizador francês se especializou em flagrar aspectos prosaicos da condição humana a partir de longos diálogos, e sua habilidade na condução de tantas conversas impediu que elas se tornassem chatas ou repetitivas. Inicialmente um crítico da lendária revista Cahiers do Cinéma (que existe até hoje), ele integrou o também lendário movimento Nouvelle Vague, mas sempre foi uma espécie de "patinho feio" entre seus membros. Não estava interessado na velocidade dos acontecimentos e em buscar uma linguagem audiovisual rebuscada. 

Todavia, embora tenha preferido seguir um rumo algo classicista na concepção de suas narrativas, ele não se acomodou ao anacronismo, revelando afinidade com questões que perpassam as épocas e chegam aos nossos dias. De O signo de leão (Le signe du lion, 1959) até Os amores de Astrée e Céladon (Les amours d'Astrée et Céladon, 2007), foram seis décadas de produção de qualidade, envolvendo sempre os mesmos temas: a instabilidade dos sentimentos, a busca por um lugar no mundo e as ironias da vida. Dividiu sua obra em blocos: Contos morais, Comédias e provérbios, Contos das quatro estações, compostos de longas e médias.

Rohmer não costumava repetir atores, nem trabalhar com nomes conhecidos do grande público. As exceções foram Béatrice Roman, com quem filmou O joelho de Claire (Le genou de Claire, 1970), Um casamento perfeito (Le bon mariage, 1982) e Conto de outono (Conte d'automne, 1998); Amanda Langlet, que dirigiu em Pauline na praia (Pauline à la plage, 1983) e Conto de verão (Conte d'été, 1996); e Arielle Dombasle, que atuou nos mesmos Um casamento perfeito e Pauline na praia e tambem em A árvore,  o prefeiro e a mediateca (L'arbre, le maire et la médiatèque, 1993). 

Como fã ardoroso da prosa rohmeriana, acho bastante difícil selecionar apenas cinco filmes e apontá-los como meus favoritos entre os vinte a que já assisti. Mas é bem verdade que existem os mais amados entre os amados, e são os que mais me envolveram que listo nesta terceira edição do Quinteto de Ouro. Vamos a eles!

1. Minha noite com ela (1969)


Um homem religioso passa uma noite com a namorada de um amigo, e começa a repensar o sentimento que tinha começado a desenvolver por uma jovem a quem tinha encontrado em uma missa. Calcado nessa sinopse singela, Rohmer traz o típico sujeito cindido que caracteriza sua filmografia. Jean-Louis (Jean-Louis Trintignant) parece respirar certeza até ser confrontado pela inteligência e argúcia de Maud, o tipo de mulher que sacode corações. Ela é perspicaz, uma interlocutora perfeita para alguém tão ávido de respostas quanto ele. Durante toda a noite que passam juntos, Jean-Louis passa por momentos de desconcerto provenientes da capacidade que ela tem de atiçar, desafiando o seu senso de amizade e esmiuçando suas centelhas de fragilidade.

2. O joelho de Claire (1970)


Talvez o único aspecto datado na premissa de O joelho de Claire seja a ânsia do protagonista por ver ao menos a tal parte do corpo presente no título em uma jovem. Em tempos nos quais o envio de nudes já virou parte do cotidiano da maioria, parece difícil de entender seu drama, porém Rohmer usa essa vontade como mero pretexto para alcançar outros degraus na escala do fetiche masculino, então um joelho é apenas um símbolo. A trama se passa às margens do lago Annecy, refúgio campestre belíssimo - aliás, ambientar histórias em cenários rurais era uma recorrência do diretor. Ali, Jerôme (Jean-Claude Brialy) cai no jogo de Claire, uma mocinha cheia de charme que não dá ponto sem nó.

3. Pauline na praia (1983)


Nem só de protagonistas masculinos vivem os filmes de Rohmer. A jovem Pauline (Amanda Langlet, na primeira de suas duas parcerias com o cineasta) é a figura central e a grande interlocutora dos personagens. Em alguns dias à beira-mar, ela testemunha parte das aventuras amorosas da prima mais velha, que parece ter muito a ensinar, mas cujos conselhos são de uma moral questionável. Ao mesmo tempo,  a garota vivencia as primeiras pulsações do seu coração em um ritmo paralelo ao do bombeamento de sangue para o resto do corpo - paixão, afinal. Como em outras produções assinadas por Rohmer, há uma espécie de "momento divã", em que os personagens se desnudam (ou se forjam) em um longo diálogo em volta de uma mesa ou sentados sobre um sofá.

4. O raio verde (1986)


Sabe quando suas expectativas não são plenamente atendidas e você fica com aquela sensação de ausência, mas ao mesmo tempo não sabe explicar exatamente do que sente falta? Quem já teve essa sensação consegue entender Delphine (Marie Rivière) em sua busca pelo contentamento. Vagando por cidades e pessoas, ela dialoga com amigos e não encontra palavras com as quais possa decodificar seu desejo, até que a visão de um pôr do sol em sua reta final parece acalentar seu coração desassossegado. Citado por Julio Verne, o Raio Verde do título aparece em dias de céu limpo: é o último facho de luz do Sol antes do ocaso, fenômeno observável mais facilmente na costa francesa. No cinema de Rohmer, em geral, é assim que os corações alcançam algum tipo de contentamento, aquele de que fala Arthur Rimbaud em um de seus textos, que Rohmer utiliza como epígrafe aqui.

5. Conto de verão (1996)


De volta aos protagonistas masculinos, Rohmer elegeu Melvil Poupaud para interpretar um rapaz de férias em Dinard, balneário que propicia adoráveis idílios. Ele foi ali também por causa da namorada, a quem vai encontrar em breve; nesse ínterim, contudo, acaba conhecendo outra jovem, bela e despachada, que produz algum tipo de movimento em suas estruturas sentimentais. O discurso apresentado pelos personagens, sempre muito prolixos, continuam presentes aqui. Mas não pense que as palavras são excessivamente rebuscadas. Mesmo aos 76 anos - sua idade quando dirigiu o filme - Rohmer exibia capacidade de falar ao coração de forma bem mais jovial e certeira do que o autor desses parágrafos, 50 anos mais novo. De todos os Contos das Quatro Estações, é o mais delicadamente belo.

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