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quinta-feira, 21 de abril de 2016

A juventude, uma coleção de incertezas e reflexões sobre a existência

O que realmente sabemos da vida? Será que o passar dos anos é diretamente proporcional ao aumento da sabedoria ou as dúvidas só se mantêm à medida que vivemos? O senso comum diz que os mais velhos sabem mais e é bom ficar perto deles. Mas até que ponto o saber e a experiência não se confundem? Tais questionamentos brotam da narrativa de A juventude (Youth, 2015), segundo trabalho de Paolo Sorrentino como realizador em língua inglesa. Depois de um breve retorno à sua Itália natal com o estupendo A grande beleza (La grande bellezza, 2013), em que tratou de um protagonista sem papas na língua depois de anos de vida e carreira, ele volta a refletir sobre o peso dos anos na visão de mundo de um indivíduo. 

Dessa vez, porém, as atenções se dividem entre dois homens. Quase octogenários, Mike Boyle (Harvey Keitel) e Fred Ballinger (Michael Caine) são amigos de longa data e, por isso mesmo, conhecem muito um do outro. O passado de ambos mostra um alto comprometimento com a arte: enquanto Mike se dedicou ao Cinema, Fred foi um exigente maestro cujo apego à sua arte sobrepujou o amor e o cuidado com a família. Essa é a grande queixa de Lena (Rachel Weisz), a filha que ainda o visita de vez em quando no exuberante hotel em que ele está passando uma temporada de férias, simplesmente nos Alpes Suíços. 

Em meio à paisagem de cair o queixo, capturada pelas lentes de Luca Bigazzi, mesmo fotógrafo de Cópia fiel (Copie conforme, 2010), o roteiro do próprio Sorrentino discute a finitude e alguns mecanismos de estetização que a sociedade contemporânea impinge aos seus membros, e dá conta dessa empreitada sem cair na armadilha da pretensão. É um feliz casamento entre o visual e o narrativo, da imagem a serviço de uma discussão, e não simplesmente o embelezamento da tela. Esse aspecto do cinema do realizador já havia ficado claro em A grande beleza, até mesmo o título o entrega e, mais uma vez, o olhar do espectador é conduzido por belos ambientes em que a natureza humana se mostra com seus vícios e virtudes. 


Nem Mike nem Fred são homens exemplares, e as fragilidades que aos poucos revelam, como a dúvida corrosiva de um deles sobre o outro ter tido um romance com uma paixão jovial que os dois compartilhavam, confirmam a tese de que as inseguranças perpassam qualquer fase da vida. Aliás, a escolha de Keitel e Caine para dar vida aos protagonistas foi um acerto imenso. Juntar um texto afiado e atores de grande talento reduz praticamente a zero as chances de erro, e foi o que aconteceu aqui. Já fazia algum tempo que não víamos os dois em papéis à sua altura, e essa primeira vez deles contracenando mostra que já poderia ter acontecido antes e mais vezes. Em alguns pontos, Mike e Fred contrastam: o primeiro tem gana e insiste em seu novo filme mesmo sem nada oficializado para as filmagens; o segundo adotou uma postura estoica diante da vida, e as emoções represadas dão vazão a uma certa ironia cortante.

Porém, como se não bastassem os dois gigantes em cena, A juventude ainda reserva a presença luminosa (reforçada pelos cabelos louros e pelo figurino amarelo) de Jane Fonda na pele de uma atriz com quem Mike trabalhou em mais de 10 filmes. Ela entra em cena para destilar toda a ironia de Sorrentino com relação ao Cinema, lançando na cara do protagonista que seu tempo passou e os últimos filmes que fez são horríveis. Diz que é tão sincera pelos anos de amizade dos dois, e ainda vaticina o triunfo da televisão sobre a sétima arte. Tudo isso acontece em uns 10 minutos, no máximo, mas é o suficiente para deixar a sequência memorável, e os jornalistas da imprensa internacional não se esqueceram dela, haja vista sua indicação ao Globo de Ouro, que acabou sendo levado por Kate Winslet, nada fraca em Steve Jobs (idem, 2015).

O time de coadjuvantes é fechado por Paul Dano, outro representante do sarcasmo cinematográfico. Ator marcado pelo papel de um robô, ele se retira no hotel enquanto estuda seu próximo personagem, com o qual espera desconstruir a associação que o público faz com seu nome. O problema está justamente no personagem que ele foi convidado a interpretar, bem como no seu método de estudo para incorporá-lo melhor. Dano é um ator de ótimos recursos, e ainda não recebe a devida estima por parte dos críticos e da plateia. Desde que surgiu como o Dwayne de Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine, 2006), atuando a maior parte do tempo somente com a expressão facial e alguns gestos, ele já merecia ser bem observado. E num filme que exalta a beleza, ela aparece encarnada na figura de uma miss que de boba não tem nada: bobos são Mike e Fred, tão velhos, mas ainda capazes de errar e necessitados de redenção.

9/10

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