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sábado, 8 de março de 2014

Ghost Dog - Matador implacável e um diretor revendo suas idiossincrasias

Em maior ou menor grau, todo cineasta é idiossincrático. Jim Jarmusch não foge a essa máxima, e oferece constantes revisões de seu olhar meticuloso e insólito a cada exemplar de sua filmografia. É um daqueles casos em que uma parte explica e/ou se refere a um todo, conforme uma genuína e encantadora metonímia. Veja-se o caso de Ghost Dog - Matador implacável (Ghost Dog - The way of the samurai, 1999): o foco do realizador está sobre o código do samurai, mas sua proposta é repaginar essa figura legendária da cultura chinesa para além de um cinema de gênero, e cumpre com louvor a tarefa a que se impôs. É essa a maior constante do seu trabalho. Para começo de conversa, a trama é ambientada em fins do século XX, exatamente a época em que foi rodada, e seu protagonista não exibe qualquer traço oriental. Interpretado por Forest Whitaker em um de seus melhores papéis, Ghost Dog - assim autodenominado - é um negro de poucas palavras que procura viver como um samurai. 

A estranheza pode ser inevitável para alguns, mas não é difícil embarcar na história do personagem, que executa serviços sujos para uma espécie de preceptor que o salvou da morte ao vê-lo encurralado por dois bandidos. Desde então, Ghost Dog se sente devedor desse homem que, em tese, não tinha qualquer motivo para interferir em sua situação, e o relacionamento entre eles chega a apresentar ecos paternais. Ambos se comunicam esporadicamente através de um pombo-correio, que envia em um de seus pés a mensagem sobre quem será a próxima vítima a ser eliminada, e eis mais um elemento anacrônico inserido no enredo. Ao longo de toda a história, o matador vai compartilhando com o público vários pensamentos encontrados no livro do samurai, que ora servem de epígrafes para um novo ato da narrativa, ora pontuam as suas meditações sobre o mundo ao seu redor. Apesar de terem sido escritas sob uma especificidade, tais máximas acabam se mostrando atemporais, e podem ser acolhidas facilmente.

Jarmusch não se preocupa em mostrar muito sobre o passado de Ghost Dog. Tudo o que sabemos de sua história pregressa é o tal episódio que o fez conhecer seu protetor. À parte esse detalhe, o personagem é uma incógnita, e seus atos podem ir da violência sádica ao carinho por uma criança. É uma comprovação do quanto a natureza humana é dual, abrigo de sentimentos díspares, que se alternam a depender do momento e do nível de disposição do indivíduo. Portanto, a personalidade de Ghost Dog é complexa, o que impede rotulá-lo como mocinho ou vilão, maniqueísmo caro a boa parte das narrativas cinematográficas. Com isso, o cinema de Jarmusch pode confundir o grande público, habituado a dicotomias estritas, mas abraçar sua proposta de Cinema pode ser delicioso. Vale muito a pena conhecer de perto uma obra como essa, que repensa o que tanta gente já viu e devolve com uma nova concepção. De todas as suas ditas idiossincrasias, essa é a maior e a mais notável. 


Não é um filme hermético, daqueles que só podem ser entre os círculos dos críticos restritivos, mas também não é produção para um público maciço. A bem da verdade, é uma bela alquimia entre esses dois polos desnecessariamente antagônicos, que hoje segue como um pequeno tesouro a ser (re)descoberto, bem como o restante da filmografia jarmuschiana. Cria do chamado Cinema  indie, ele vem, desde seu Permanent vacation (idem, 1980), repassando seu modus operandi, que inclui, além dos tópicos já mencionados, um olhar carinhoso para figuras marginais, sobretudo no sentido primeiro do termo, que é o dos que vivem à margem da sociedade, desgarrados dos chamados sonho americano e American way of life. Trata-se de uma metáfora para todos os seus filmes, que correm em paralelo a nomes badalados e alcançam poucos entusiastas. No caso de Ghost Dog, é possível simpatizar com sua figura de gestos e expressões discretos, que curte um som enquanto dirige o seu possante e discute sobre literatura com uma garota que deve ter seus 9, 10 anos.

Outro detalhe curioso dessa história singular é a amizade entre ele e Raymond (Isaach de Bankolé, ator recorrente dos filmes de Jarmusch), um adorável vendedor de cachorros-quentes que só fala francês, enquanto Ghost Dog só sabe se comunicar em inglês. Apesar da barreira linguística, os dois chegam a se entender um pouco, e suas conversas se tornam divertidas porque um diz o que o outro acabou de dizer, mas na outra língua. É um afeto completamente desinteressado que responde pela maior parte dos sopros de bom humor do filme. A outra fonte de sorrisos discretos é o grupo de mafiosos do qual o protetor do matador faz parte. São todos tão atrapalhados que não convencem ninguém de alguma periculosidade, e muitos morrem de formas estúpidas, até mesmo caminhando na direção do próprio fim. São mais pontos a favor de Jarmusch, que entende que fazer Cinema de alta relevância não se confunde com produções sisudas, mas pode passar por pequenas e saborosas subversões ao mesmo tempo em que presta tributo a várias das insígnias que essa arte centenária vem criando e esculpindo. 

8.5/10

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