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segunda-feira, 3 de março de 2014

O delicioso sabor uma história bem contada em De volta para o futuro 2

Nada como assistir a bons filmes que deixam a certeza de que o Cinema é sempre uma grande fonte de viagens e histórias maravilhosas, que desamarram nossas âncoras da realidade e oferecem inúmeros caminhos narrativos sem o menor pudor. É justamente isso que Robert Zemeckis apresentou mais uma vez ao seu público com De volta para o futuro 2 (Back to the future part II, 1989). Após um intervalo de quatro anos, ele trouxe de volta os carismáticos Marty McFly (Michael J. Fox) e Emmett Brown (Christopher Lloyd) para dar continuidade a uma grande aventura que se desdobra através dos tempos. Se no filme anterior o rapaz retornava para casa são e salvo, nessa continuação ele se vê novamente obrigado a avançar algumas décadas para resolver um problema no qual seu filho Junior (o próprio J. Fox) se meteu e o levou para a cadeia. A correria para mudar a situação é tanta que, dessa vez, até sua namorada Jennifer (Elizabeth Shue) entra de gaiata no DeLorean e o acompanha no percurso, feito nos ares.  

Ao perguntar a Emmett sobre onde estão as estradas nas quais eles vão trafegar, Emmett diz a primeira frase clássica do filme, escrita em um de seus cartazes: "Estradas? Para onde nós vamos, não precisamos de estradas!", e pisa fundo no acelerador para conduzir o amigo e a plateia em uma genuína odisseia em que não faltam surpresas e emoções. Ao chegar ao ano de 2015, tão distante na época, Marty nota uma série de novidades, algumas das quais se tornaram reais para nós, outras que ainda devem levar um tempo para se concretizar: skates voadores, cinemas com efeitos especiais que aproximam o espectador do filme de modo incrível - à epoca, longa em cartaz é Tubarão 19, uma clara referência a um dos primeiros sucessos de Steven Spielberg - e tantas outras. Sem muito tempo a perder, Emmett esquematiza com ele o que fazer para evitar a prisão de Junior: ir no lugar do filho ao encontro de Griff  (Thomas F. Wilson) e dizer não ao seu desafio dele para fazer parte de um plano de roubo. O acordo é selado e Marty vai ao café onde Junior estaria, e lá depara com hologramas de Michael Jackson, Ronald Reagan e Ayatollah Khomeini "trabalhando" como garçons, numa das várias grandes sacadas do roteiro.

O inimigo de Junior é ninguém menos que o neto do grande rival do seu avô, uma prova de que as histórias em família podem se repetir e as gerações seguintes tendem a herdar muitas características físicas e psicológicas dos seus antepassados. No caso dos homens do clã McFly, a chave para acionar sua coragem e disposição para lutar é chamá-los de covardes, exatamente o que Griff faz ao perceber que Junior (na verdade, Marty se passando pelo filho) não vai colaborar no plano. O protagonista, portanto, não é o que se pode chamar de herói imbatível: pelo contrário, é vulnerável e também se dá mal algumas vezes, além de cometer deslizes que quase colocam tudo a perder. Entretanto, o que parecia ser o grande nó da narrativa se desata rapidamente, já que Marty consegue estar no lugar certo na hora certa e impedir que o filho faça parte do roubo. 


É aí que surge um outro elemento complicador da trama, que vai obrigá-lo a uma nova viagem no tempo com Emmett: Biff encontra um almanaque com todos os resultados de todas as partidas de todos os esportes e decide embarcar no DeLorean enquanto este não se encontra sob vigilância para entregar a publicação a si mesmo no passado e enriquecer às custas daquelas informações tão valiosas. O filme, então, começa a exigir espectadores bastante atentos e vai revelando um grau de sofisticação na tessitura de seu roteiro, indo e vindo ao passado e ao futuro para dar conta de solucionar os problemas que vai criando. Nesse sentido, De volta para o futuro 2 demonstra um avanço em relação ao filme original, cruzando passagens do primeiro filme e apresentando-as sob novos ângulos. Temos de novo aqui o baile de formatura em que os pais de Marty se apaixonaram, época à qual ele retorna porque foi quando Biff entregou o almanaque para sua versão mais jovem, e agora tem que encontrar o malandro para recuperá-lo e impedir um futuro degradante, em que tudo ficou com a cara dele e até seu pai não existe mais.

O grande mérito da produção, sem dúvida, está no carisma que a dupla principal exala. Assim como no primeiro filme, Marty e Emmett são amigos inseparáveis que embarcam nas ideias um do outro sem pestanejar e se viram muito bem para dar conta de encarar os desafios do tempo. É difícil segurar a empolgação diante das suas peripécias, muito bem pensadas e amarradas, sem jamais incorrer no truncamento. Zemeckis nos toma pelo braço e nos coloca dentro de uma aventura que deixa um delicioso sabor de nostalgia na boca, fazendo valer cada minuto investido diante da tela e, para quem foi assistir ao filme no cinema, valorizando cada centavo gasto com o ingresso. Não faltam situações e diálogos memoráveis nesta ficção científica que não abre mão de ser divertida, o que está longe de significar um entretenimento raso. E se estamos falando no talento de seus intérpretes, não podemos deixar de elogiar a versatilidade de J. Fox, que dá conta de viver quatro personagens distintos com maravilhosa desenvoltura: ele é Marty na juventude e na idade adulta, seu filho Junior e sua filha Marlene. 

Com o passar dos anos, ele se viu obrigado a se afastar do Cinema por conta do mal de Parkinson, mas ainda preserva a juventude nos olhos e no porte físico baixinho, além de manter o carisma intacto quando faz suas aparições em eventos do meio. Por sua vez, Lloyd também anda longe das telas, e não experimentou nenhum sucesso que se equiparasse ao da trilogia de Zemeckis, fazendo que Emmett permaneça como seu personagem mais icônico e seu melhor papel. É triste ver esse aspecto descendente do tempo, que eclipsa astros e os torna lembranças queridas no coração cinéfilo. Resta-nos ver e revê-los em cena nos seus melhores momentos, e esse é um dos aspectos mágicos do Cinema, imortalizar em celuloide (ou qualquer outra técnica ou material empregado na filmagem) aqueles que amamos e que nos levam a outros mundos. De volta para o futuro 2 é um caso feliz de conjunção de talentos, em que tudo está no lugar certo, compondo uma engrenagem perfeita segue funcionando e encantando através dos anos. O finalzinho deixa com vontade de mais aventura, e o gancho vem na forma de uma carta para Marty, apontando para novas confusões em outra época. Que venha mais uma viagem então!

10/10

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