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quinta-feira, 6 de março de 2014

Nuvens passageiras e a crise europeia vista com humor discreto

Uma das características mais marcantes do cinem praticado por Aki Kaurismäki é a discrição, sobretudo no que tange ao humor. O aparente paradoxo (discrição marcante) é compreendido a cada vez que se coloca os olhos diante de um dos seus filmes, lindas celebrações de humanismo em tempos cada vez mais áridos de afeto. Parte integrante de uma trilogia sobre os chamados "perdedores", Nuvens passageiras (Kauas pilvet karkaavat, 1996) oferece a possibilidade de entender um pouco da crise europeia quando ela ainda estava em seus primeiros sintomas, longe do que se iria verificar através da mídia no início dos anos 2010. O foco está sobre Ilona (Kati Outinen) e Lauri (Kari Väänänen), casal sem filhos que se dedica inteiramente aos seus respectivos trabalhos. Um belo dia, são demitidos, e se veem completamente desconfortáveis com a desocupação. 

Para além de perderem as atividades que os entretinham, eles precisam encontrar rapidamente um novo meio de ganhar a vida, e o orgulho os impede de ficar à mercê do seguro desemprego. A partir daí, pulam de galho em galho, não conseguindo se restabelecer no mercado de trabalho, e eis o maior sinal de que o sol não é, de fato, para todos - no caso da gélida Finlândia, terra dos personagens, isso é verdade inclusive literalmente. Mas não há espaço para lamentações aqui. O roteiro, também escrito por Kaurismäki, prefere manter o otimismo e mostrar o quanto Ilona e Lauri são incansáveis, e não se importam em trabalhar em áreas diferentes daquelas nas quais se encontravam antes. Ela bate à porta de agências e constata o quanto as vagas estão disputadas - é necessário pagar por uma simples indicação de empresa onde estão precisando de funcionários e, sem escolha, Ilona raspa suas últimas economias no banco para obter a informação. Quando chega ao local, não é bem recebida pelo futuro patrão: ela diz estar ali para preencher a vaga de lavadora de pratos, mas ele diz que já tem uma máquina para a função.

É assim, tateando o seu caminho, que o casal vai encontrando meios de driblar aquela crise em estado embrionário e jusitificando o título do filme, uma certeza de que sempre se pode esperar por dias melhores. Para dar conta de expressar essa visão de mundo, o realizador não apresenta estereótipos de sonhadores ou otimistas ingênuos. Antes, prefere mostrar seres humanos verossímeis, que se agarram às oportunidades que surgem e colocam em prática o ditado "Se a vida te der um limão, faça uma limonada". Está claro que os percalços surgem para todos nós. Por que não poderiam atingir pessoas como Ilona e Lauri também? Demonstrando ciência dessa verdade, eles se empenham e têm ideias simples e criativas que acabam dando certo. Em seu novo emprego, Ilona faz as vezes de garçonete e cozinheira: finge pedir o prato do cliente pela janela da cozinha para, em seguida, ir ela mesma prepará-lo. Um truque eficiente que causa a impressão de uma boa infra-estrutura do local.


Com relação ao tal humor discreto que permeia a narrativa de Nuvens passageiras, essa é uma de suas manifestações, mas ele também é perceptível nos constantes desmaios de Lauri, que acontecem a cada vez que um novo retrocesso invade a rotina do casal. Cabe a Ilona manter a proatividade, tomando iniciativas importantes que vão promover mudanças positivas em suas vidas financeiras. O máximo que ele consegue é um emprego como maquinista, mas o que era um sopro de esperança logo se mostra uma fonte de frustração, pois uma razão adversa o afasta da vaga. Os dois, então, concentram-se em um empreendimento próprio, que pode ou não ser a salvação daquela lavoura acometida pela saraiva, e Kaurismäki segue demonstrando o seu carinho por aqueles personagens tão empenhados. Ilona é vivida por sua atriz mais recorrente, com quem já havia trabalhado em títulos como A garota da fábrica de caixas de fósforos (Tulitikkutehtaan tyttö, 1990), obra-prima do diretor, e se mostra sempre uma escolha acertada em seus filmes. Aqui, utiliza seu arcabouço dramático de forma minuciosa, atuando no limite da contenção.

Esse detalhe é outra das constantes do seu cinema. Ao investir em retratar pessoas que alternam expressões muito sérias com esboços de sorrisos, Kaurismäki constrói uma interessante dicotomia e pode deixar seus espectadores de primeira viagem como uma impressão ruim, mas prosseguir em sua filmografia é altamete compensador. Segundo ele próprio, as reações do público podem ser opostas para uma mesma cena, já que, por vezes, as pessoas podem rir do que supostamente era sério e a recíproca é verdadeira. A bem da verdade, Nuvens passageiras é um filme muito simples e direto, além de enxuto em sua duração. Não há um interesse ou uma preocupação em desvendar meandros, mas em um ensaio de observação sobre o estado de um continente em que problemas típicos do Terceiro Mundo também podem acontecer e, em segundo plano, as rachaduras de um relacionamento que atravessa os anos. Sobre esse aspecto, há que se destacar a cena em que Lauri promete surpreender Ilona e, ao destapar seus olhos, mostra-lhe uma nova televisão a cores, quando ela só queria uma noite de amor. Em seu último ato, a acepção literal do título é reafirmada, e pode deixar o espectador de coração mais leve e certo de ter assistido a uma fábula urbana carregada de detalhes sutis e singelos.

9/10

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