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domingo, 2 de março de 2014

O desejo de voar celebrado em Vidas ao vento

"O vento se ergue, devemos tentar viver.” (Paul Valéry)

Anunciado como o último filme dirigido por Hayao Miyazaki, Vidas ao vento (Kaze tachinu, 2013) exibe um grau de complexidade e sofisticação muito maior que o de seus trabalhos imediatamente anteriores. É o que se pode chamar de um belíssimo canto de cisne, acompanhado de uma certa tristeza que, se não é ingrediente intrínseco do fim, ao menos é facilmente evocável quando se pensa em um ciclo que se fecha. A começar pela epígrafe, tudo no filme alude ao vento, tomado em varias acepções, incluindo a literal, e também essa o cineasta converte em poesia. Se todos os dias o homem tem à sua disposição essa força invisível que produz movimento notório no que é flexível o bastante para tal, pode-se dizer que não é por falta de impulso que alguém não avança. Definitivamente, não é o caso de Jiro Horikoshi (voz de Hideaki Anno): apaixonado pelo vento e pela ideia de voar, ele passa noites contemplando as estrelas e se interessa profundamente pela obra de Giovanni Caproni (voz de Mansai Nomura), engenheiro aeronáutico italiano que desenhou modelos arrojados de aviões. 

Jiro nunca chega a conhecê-lo de fato, mas ele se torna figura recorrente em seus sonhos, e os diálogos entre os personagens se desdobram em instigantes meditações do próprio Miyazaki sobre a arte, o artista e a guerra. Este último é outro ingrediente fundamental da narrativa, que se mostra um pertinente libelo antibelicista ao exibir o desalento de Caproni com o uso de aviões para bombardear cidades e destruir milhares de vidas. A título de comparação, o sentimento do inventor se revela muito parecido com o de Santos Dumont, tido como o Pai da Aviação, que não suportou ver o objeto da sua criatividade transformado em instrumento de massacres. Jiro também vai experimentar esse desgosto a certa altura e entender que mesmo o que há de mais belo, com o mau uso, pode passar a um signo de vileza. Quanto à arte e ao artista, também saem dos lábios do italiano reflexões como a que dá conta de dizer que a vida criativa de um artista dura 10 anos, portanto, é necessário aproveitar muito bem esse período.

A julgar pela carreira de Miyazaki, a seara fértil se mostrou muito mais duradoura. De O castelo de Cagliostro (Rupan sansei: kariosutoro no shiro, 1979), esse diretor e roteirista de mão cheia entregou pérolas de valor inenarrável, em um arco de tempo que compreende 34 anos. É difícil não amar pelo menos um dos seus filmes, que habitam um tempo e um lugar que parecem se restringir hoje somente à memória, em que as pequenas gentilezas e o sonhos mais simples e doces encontram espaço e são facilmente praticáveis, por assim dizer. Para o olhar de quem se habituou ao imediatismo e à hipervelocidade dos quadros nos filmes, Vidas ao Vento é um repouso acolhedor, que dá tempo ao tempo sem incorrer na fadiga, a exemplo dos demais títulos assinados por Miyazaki. Não há como lamentar o fato de ele ter anunciado a sua aposentadoria juntamente às vésperas do lançamento deste aqui, porque é uma inevitável lacuna que está por se abrir. A alternativa será revisitar sua obra constantemente, e sorte de quem ainda tem outros filmes dele para ver. Melhor será degustá-los calmamente, como cada um sugere através de sua condução.


Entretanto, por mais que os personagens do longa cultivem hábitos e características que os singularizam à ótica ocidental, isso não anula a possibilidade de se identificar por eles. A começar por Jiro, todos carregam uma humanidade quase palpável e experimentam as alegrias e tristezas de que é feita a vida. Uma vida de muitas dificuldades também, já que a história se passa no Japão dos anos 30, quando ainda era uma nação muito pobre e de baixo desenvolvimento industrial, que dirá tecnológico. Também é o caso da Itália de então, conforme diz Caproni em um dos sonhos do rapaz. Esse atraso é comentado por Jiro com seu melhor amigo Honjo (voz de Hidetoshi Nishijima): ambos lamentam o fato de a aviação japonesa ainda estar engatinhando àquele momento e o país ainda lidar com a reincidência de terremotos que obrigam a constantes reconstruções. É numa das manifestações desse movimento da natureza, aliás, que Jiro conhece aquela que será o amor de sua vida anos depois. A garota que segura o seu chapéu que voa durante uma ventania é a mesma que ele vai encontrar pintando um quadro ao ar livre e de quem vai pegar o guarda-sol quando este voa para longe, também devido ao vento. Nessa coincidência tão prosaica, brota o sentimento de bem querer mútuo que vai dissipar a solidão de Jiro.

Fiel ao seu estilo tradicional de conceber animações, Miyazaki não descuida um só minuto de imprimir beleza a cada sequência, seja pela arquitetura visual esplêndida da história, que recria um cenário entre guerras milimetricamente pensado, seja por deixar fluir a emoção sem apelar para qualquer traço de pieguice. Mais uma vez, há que se lembrar que se trata de uma produção oriental, que reflete a cultura de quem a elaborou e traduz um outro modo de lidar com o amor e a morte, outra temática presente no filme a partir de certa altura, quando o relacionamento entre Jiro e Naoko (voz de Miori Takimoto), então sua esposa, já está consolidado. O jovem designer está sempre indo e vindo quando não se põe a desenhar e calcular sobre a mesa ou não acende um cigarro enquanto contempla o mundo ao redor, e esse seu constante movimento de afastamento e aproximação faz que Naoko deseje aproveitar intensamente a sua presença, cada vez mais fortuita. Assim, o simples gesto de darem as mãos enquanto ela permanece deitada sob a colcha e ele trabalha com afinco, ganha uma dimensão muito maior e embevece o olhar. A história dos dois, aliás, é inspirada na realidade. Jiro Horikoshi existiu mesmo e foi um grande inventor de aviões do modelo Mitsubishi usados na Segunda Guerra Mundial.

Ao ambientar Vidas ao vento nessa época, Miyazaki alude à própria infância. Nascido quando o conflito estava em curso, ele se apaixonou por aviação bem cedo, já que o pai dirigia uma empresa que fabricava lemes de aviões. Esse encanto pelos “pássaros artificiais” e pela ideia de liberdade que trazem consigo se espargiu em sua filmografia. É comum encontrar seus personagens indo pelos ares, seja dentro de aviões, seja graças a poderes que os conduzem às alturas e os permitem experimentar a sensação do vento batendo no rosto. Vidas ao Vento, portanto, é a súmula da paixão de toda uma vida, uma carta de despedida em que não faltam emoção, sinceridade, beleza e também lamento, ocasionado pela presença da guerra, com a qual ele sempre teve um relacionamento de amor e ódio. Isso sem falar na tuberculose que acometeu a sua mãe e também é lembrada aqui por meio de Naoko, que trava uma árdua batalha contra a doença. A obra de um autor não depende da sua vida para ser entendida e apreciada, mas é interessante notar o quanto Miyazaki se expõe através dos seus filmes e, aqui acena o seu interesse em aproveitar o tempo que lhe resta olhando para outras direções. Seus fãs lamentam, como os futuros espectadores hão de lamentar, mas sua contribuição para o Cinema vai muito além de sua própria, e permanecerá impregnada em nossas mentes e corações.

8.5/10

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