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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

O lobo de Wall Street, uma ópera do desbunde

Estripulia é o que não falta em O lobo de Wall Street (The wolf of Wall Street, 2013), alegórico retorno de Martin Scorsese ao cinema de arroubos violentos depois de um breve intervalo dado com A invenção de Hugo Cabret (Hugo, 2011). Realizador veterano e um dos inventores da chamada Nova Hollywood, no limiar entre as décadas de 60 e 70, ele demonstra um fôlego invejável para conduzir três horas de uma intensa ópera do desbunde, capiteneada por um Leonardo DiCaprio no auge da boa forma como intérprete. É ele que dá vida a Jordan Belfort, e seu codinome lupino se mostra bastante apropriado à medida que vamos acompanhando o desenvolvimento de sua trajetória de ares meteóricos, em vários sentidos – exceto o literal, vale dizer. 

Em uma época de ostentação financeira, Jordan tinha como objetivo acumular e torrar fortunas quase à mesma velocidade, o que o torna quase um primo distante do personagem-título de O grande Gatsby (The great Gatsby, 2013). Com apenas 24 anos, já contava com alguns milhões na conta bancária, mas estava bem longe de ser o bilhardário que sonhava em se tornar. Foi quando tomou conhecimento de um programa sugestivamente chamado “Mestres do Universo”, título dado aos que alcançavam a meta estipulada: arrecadar 250 mil dólares em dois anos. Com audácia desproporcional ao seu 1,60m de altura, segundo o próprio, ele rapidamente bateu a meta, enquanto ia sendo apresentado àquele mundo de excessos e loucuras que é Wall Street. Como telespectadores, fazemos uma leve ideia do que seja o cotidiano daqueles corretores sempre envolvidos na compra e na venda de ações, mas o longa mostra que o buraco é bem mais embaixo.

Quem trata de fazer as honras da casa para Jordan é Mark Hanna (Matthew McConaughey, em uma espécie de participação afetiva), responsável pela primeiras de algumas cenas antológicas do filme. Sem a menor cerimônia, ele revela o código de conduta de um corretor que deseja sobreviver naquela selva insana, o que inclui um alto consumo de drogas e uma rotina de masturbação quase diária. A essa altura, os tímpanos do público já deverão estar minimamente acostumados aos sons dos gritos dos corretores e aos vários palavrões que eles soltam pelos mais variados motivos, desde o convencimento de mais um investidor à constatação do encerramento de mais um expediente. De saída, Jordan demonstra um misto de surpresa e encanto discreto enquanto Mark desfia seu manual de péssimas maneiras, porém, basta pouco tempo para que ele deixe de lado qualquer resquício de pudor e adote cada medida.

Essa mesma divisa se tornou o rendimento mensal de Jordan apenas dois anos depois, quando ele já tinha a Stratton Oakmont, sua própria corretora, na qual reuniu obstinados como ele, mas sem metade do seu poder de persuasão. Nada que um bom treinamento não resolvesse e pudesse demonstrar que ele não estava para brincadeira. Até um braço direito surge para ajudá-lo a impulsionar ainda mais os seus negócios: o impagável Donnie Azoff (Jonah Hill), que responde por boa parte dos momentos hilários de O lobo de Wall Street, quase sempre provenientes de algum tipo de excesso ou tirada de humor negro. Juntos, eles formam uma dupla implacável para quem o céu é o limite – os trocadilhos apresentados nessa crítica são totalmente propositais, pois se encaixam muito bem nos personagens. Donnie foi capaz de largar o emprego depois de ouvir sobre o faturamento anual de Jordan e também não demorou a acumular seu tesouro.


A um possível questionamento sobre a legitimidade de toda aquela fortuna, Jordan tinha uma resposta sarcástica na ponta da língua. Dizia saber gastar muito melhor o dinheiro que seus clientes acreditavam estar multiplicando, segundo uma lógica até bastante simples: no papel, eles estavam cada vez mais ricos e iam sendo convidados a comprar cada vez mais ações, mas a grana de verdade sempre acabava no bolsos dos corretores. Jordan nada mais é do que o representante-mor dessa alcateia, e sua jornada megalômana é apresentada por meio de sua direção cheia de vigor, que remete a alguns de seus clássicos, como Taxi driver (idem, 1976) e Touro indomável (Raging bull, 1980). Parte da força desses filmes obrigatórios também vinha das atuações gigantes de Robert De Niro, seu parceiro de outrora. Do início dos anos 2000 para cá, DiCaprio assumiu esse posto com cada vez mais competência, e Jordan é o atestado de seu franco amadurecimento, que lhe valeu sua quarta indicação ao Oscar, o que é pouco diante de tantos bons papéis vividos até aqui.

Em cena, podemos testemunhar sua ótima parceria com Hill, completamente à vontade em um papel cômico, a sua especialidade, mas com diferenciais em relação a trabalhos anteriores. Jordan e Donnie compram as insanidades um do outro sem pestanejar, quase sempre estão chapados e não conseguem imaginar um padrão de vida de menos de seis dígitos. Em determinado momento, um dos raros de sobriedade da dupla, Jordan se vê obrigado a beber apenas cerveja sem álcool, e Donnie simplesmente não consegue entender como é tomar vários copos dela e não se embriagar. O outro extremo é visto na sequência em que Jordan simplesmente perde o domínio sobre sua coordenação motora após uma alta dose de um medicamento proibido. Ele e Donnie tomam vários comprimidos da droga, que estava guardada há anos, e já não acreditam que ela vá fazer efeito. Quando, finalmente, seus organismos reagem à substância, temos um novo show de atuação dos parceiros e mais uma fonte de gargalhadas genuínas.

A montagem elétrica e vertiginosa de O lobo de Wall Street, que jamais permite que a narrativa caia no marasmo apesar de tanto tempo de projeção, é assinada por Thelma Schoonmaker, fiel colaboradora de Scorsese. Por seis vezes, seu trabalho foi reconhecido com indicações ao Oscar, das quais três se traduziram em vitórias, e todas elas em filmes do diretor. Cena após cena, vemos o protagonista viver mil peripécias, e seu caráter absolutamente amoral não impede que, ao menos simpatizemos com sua figura, mesmo porque o carisma de Jordan se sobrepõe às suas canalhices a maior parte do tempo. Talvez aí more o grande perigo do roteiro, a cargo de Terrence Winter: há uma condescendência exagerada com o “Lobo”, essencialmente um homem de moral deformada e métodos escusos. Por outro lado, tal escolha – voluntária ou não – soa até comum para os dias de hoje, em que o público se mostra muito mais inclinado a torcer pelos explicitamente vilões. Não é exatamente esse o caso de Jordan, mas é, no mínimo, curioso notar que os valores de uma grande maioria andam invertidos há algum tempo.

Por falar em modelos e ídolos, o verdadeiro Jordan confessa no livro em que o filme se baseia que os seus eram o Gordon Gekko (Michael Douglas) de Wall Street – Poder e cobiça (Wall Street, 1987) e o Edward Lewis (Richard Gere) de Uma linda mulher (Pretty woman, 1990), nos quais parece ter se inspirado para fomentar suas obsessões, respectivamente, o dinheiro e o sexo. São esses os motores de uma narrativa de extravagâncias e insurgências, que pode pegar o espectador mais conservador com seu deboche fenomenal. Várias vezes, O lobo de Wall Street beira o inacreditável e faz constatar que a vida pode ser muito mais criativa do que a arte, sobretudo se ela existem pessoas como Jordan Belfort, capazes de rasgar dinheiro, presentear a esposa com um imenso iate, navegar em mar encapelado sob o efeito de psicotrópicos e outras façanhas, todas devidamente registradas no melhor filme de Scorsese desde Gangues de Nova York (Gangs of New York, 2002).

9/10

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