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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

De volta para o futuro, uma delícia de viagem nostálgica

Marty McFly (Michael J. Fox) é apenas mais um entre tantos outros garotos da sua idade, com desejo de aventura, ansiedade pela descoberta e uma namorada que é a grande paixão da sua vida. Nada em seu cotidiano poderia ser mais comum, a não ser por um detalhe especial que revoluciona toda a sua rotina: a possibilidade de viajar no tempo e conhecer de perto o passado de seus pais, que tantas vezes ouviu ser contado pelos próprios. Baseado nessa premissa que soa sempre instigante, Robert Zemeckis entregou ao público De volta para o futuro (Back to the future, 1985), o primeiro exemplar de uma trilogia pautada pelas conexões entre o ontem e o hoje temperada com um ritmo frenético e um enorme coração.  Nos áureos tempos globais, o filme era figurinha carimbada na programação, e hoje desfruta de um merecido status de cult, justificado pela soma de vários elementos em dosagens bem pensadas. 

De início, já se nota como o tempo é um ingrediente fundamental da história: em uma espécie de laboratório improvisado, vários relógios funcionam com horários e para finalidades diferentes, enquanto os créditos de abertura vão surgindo. Dali a pouco, McFly aparece e constata um pequeno acidente em uma das experiências, que comunica de imediato ao Dr. Emmett Brown (Christopher Lloyd), sujeito de visual excêntrico que é um mentor para o rapaz. Ele está trabalhando em um empreendimento que é o sonho de boa parte da humanidade, e cuja concretização se relaciona com a velocidade do som. A viagem no tempo é feita em um carro, com o auxílio de um combustível não muito fácil de ser obtido, o que o obriga Emmett a negociar com terroristas e a contrair uma dívida perigosa. É justamente durante a perseguição dos terroristas a ele que McFly entra no carro, acelera e retrocede alguns anos. Ele mal pode acreditar, mas está na sua própria cidade à época da juventude dos seus pais, que ainda nem se conheciam.

O nó da narrativa se estabelece quando ninguém menos que sua mãe se apaixona por ele, depois que ele se intromete no lugar errado e na hora errada. Ele sempre ouviu que seus pais se apaixonaram depois que o pai dela o atropelou acidentalmente, e McFly desfaz esse início da história de amor dos dois ao ser ele o acidentado. A paixão de Lorraine (Lea Thompson) é à primeira vista, e coloca o garoto em uma situação complicada e divertida para quem vê. Agora, tudo o que ele precisa fazer é uni-la novamente a George (Crispin Glover) e, assim, garantir que ele e seus irmãos vão nascer no futuro - ou seria no presente? Enquanto McFly vai tentando salvar sua pele, o espectador vai sendo apresentado aos costumes e pensamentos da década de 50, e nota que Lorraine e George não eram bem o que diziam ser para os filhos. Os tempos eram outros, mas ela já se mostrava bem avançadinha para a época, surpreendendo o filho com uma postura libertária, quando o comum eram mulheres castas e extremamente submissas ao pai ou ao marido.


Nesse sentido, o roteiro escrito por Zemeckis em parceria com Bob Gale - também responsável pelos demais filmes da trilogia - capricha no cinismo mesclado a uma certa inocência, que ainda se mostra distante dos tempos politicamente corretos que surgiram como um dos efeitos colaterais dos anos 2000. Esqueça as mocinhas românticas e os bons rapazes, cheios de virtudes e idealizações. O que McFly encontra é uma juventude muito semelhante à de seu tempo, boa dose de rebeldia e inconsequência, a não ser por George, que se encaixa no perfil típico no nerd que mal tem coragem de se aproximar da garota por quem está interessado. Daí a necessidade da intervenção de seu filho, que deixa Lorraine cada vez mais encantada em vez de atrai-la para George. Ao mesmo tempo, ele encontra o Emmett do passado e o convence a ajudá-lo a voltar aos anos 80, e o plano deles é refazer a viagem no carro usando um raio como combustível. Ainda sobre o roteiro, a ideia partiu de Gale, que se perguntou se ficaria amigo do pai se o tivesse conhecido na época do colégio, uma curiosidade que se desdobrou em uma adorável aventura.

Para além de uma trama bem escrita, De volta para o futuro encontrou em Michael J. Fox o rosto ideal para interpretar McFly. O ator baixinho e super carismático serviu muito bem ao papel de adolescente comum, sem qualquer pinta de galã, ao menos em um primeiro momento. É praticamente impossível não torcer para que ele consiga recolocar tudo em suas posições certas e sobreviver no final, tamanha a empatia que o personagem desperta. E pensar que o filme quase não saiu do papel e muito menos teria o seu nome no elenco, tudo porque vários estúdios disseram "não" para o roteiro. A situação só mudou depois do sucesso de bilheteria de Tudo por uma esmeralda (Romancing the stone, 1984), filmado por Zemeckis apenas um ano antes (nada como a promessa de um bom faturamente para mudar a opinião dos grandes estúdios) e à desistência inicial de Eric Stoltz em viver o personagem, o qual foi parar nas mãos de J. Fox, que deu un jeito de conciliar as gravações da série Family ties com as filmagens do longa. Hoje em dia, os fãs e os novos espectadores agradecem.

A dobradinha de McFly e Emmett é outra qualidade do filme, que administra muito bem seus clichês e faz valer cada minuto. Embora tenham bem pouco em comum, os dois se entendem perfeitamente, sobretudo porque o jovem embarca em todas as ideias mirabolantes do cientista, como um bom discípulo que faz reverência ao mestre. O mérito, sem dúvida, também é de Lloyd, que fez desse o seu papel mais emblemático, pelo qual segue lembrado após algumas décadas e simboliza a ciência em seu componente mais artesanal, por assim dizer. Como não acreditar em uma amizade como a deles, tão divertida e que soa sempre sincera? Um detalhe curioso sobre o veículo que serviu à viagem no tempo é que, no projeto original, seria uma geladeira, e não o lendário DeLorean. A ideia acabou descartada porque os produtores temeram que as crianças pudessem tentar escalar o eletrodoméstico em casa ou entrassem nele com a mesma intenção de Emmett. E, cá entre nós, a mudança tornou a viagem muito mais charmosa e coroou um filme que traz um delicioso gosto de nostalgia até mesmo em quem não o teve como parte da sua infância e adolescência. 

9/10

Um comentário:

  1. Ótima critica, o filme tem tudo isso que o Patrick falou e muito mais ainda, pra quem ainda não viu é mais do que uma indicação, é uma obrigação!

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