Pesquisar este blog

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Luzes da ribalta e o elogio da generosidade

Especialista em retratar momentos de singeleza e genuína ternura, Charles Chaplin não poderia fazer diferente em um filme que muitos consideram como a sua obra-prima. Luzes da ribalta (Limelight, 1952) é o atestado da sensibilidade do realizador, que nos deixou órfãos do seu cinema há quase quarenta anos. Do início ao fim, sobram razões para amar essa história de benfeitoria incondicional, sintetizada na figura afável de Calvero (interpretado pelo próprio Chaplin). Palhaço experiente, ele reconhece o peso da idade sobre o ofício e não desfruta da mesma popularidade de outrora, fazendo seus shows esporadicamente. A decadência nos palcos lhe trouxe o hábito de beber quase todas as noites, e é num desses porres que ele se encontra com Thereza (Claire Bloom), uma bailarina que encontra no suicídio a alternativa para uma carreira que nunca decola de fato. 


Apesar de embriagado, Calvero ainda conserva alguns reflexos e consegue impedir Thereza de arrancar sua vida, e eis o início de uma belíssima amizade que tanto bem fará a jovem desiludida. Desde os primeiros minutos de um na presença do outro, o artista dá mostras de sua generosidade, encontrando meios de garantir um lugar tranquilo para a moça. Como o quarto dela está impregnado pelo cheiro de gás, ele não hesita em subir com ela nos braços para o seu quarto, e chega a sugerir a Thereza que eles se passem por marido e mulher para evitar qualquer constrangimento por parte das pessoas, que jamais poderiam admitir um casal de amigos em tamanha proximidade. Uma vez estabelecido esse acordo entre ambos, o desafio de Calvero passa a ser apresentar à bailarina o lado bom da vida (qualquer semelhança com o título nacional do longa de David O. Russell é tão somente uma coincidência das mais infelizes). E não falta empenho da sua parte nesse sentido, o que só faz crescer nossa afeição pelo personagem, brotada junto com sua entrada em cena cambaleante e sorridente.

Para além de elogiar a generosidade repetidas vezes através de seu enredo, o que Chaplin faz em Luzes da ribalta é pensar a respeito da condição do artista e de seu papel no mundo. Indiscutivelmente, ele deixou sua marca no Cinema como um ás da comédia, porém olhos mais atentos sempre puderam notar uma melancolia subscrita à figura do Vagabundo, que, por sua vez, confunde-se com a imagem de um palhaço, de quem se cobra sempre a alegria, mas que pode trazer uma tristeza recolhida sob a maquiagem pitoresca. De alguma forma, essa parecia ser a sina do próprio Chaplin e de todo artista cômico: fazer rir passa a ser uma obrigação, e o criador se torna uma espécie de refém de sua criatura, num esfumaçamento da fronteira entre si e seu alter ego. Muitos outros artistas enfrentaram ou enfrentam ou mesmo problema, como Woody Allen, muitas vezes confundido como Alvy, Isaac, Sandy, Leonard e tantos outros personagens de sua vasta carreira a quem ele mesmo deu vida, embora o cineasta já tenha declarado que jamais poderia ser como qualquer um deles, ou não teria a disciplina exigida para se fazer um filme sequer.


Há momentos engraçados em Luzes da ribalta, mas eles decorrem de alguns diálogos e números de Calvero, que relembra seus áureos tempos e compartilha essa memória com o público, que pode se reportar ou não a trabalhos anteriores do diretor, a depender de sua bagagem. Essencialmente, esse é um lindo drama que exalta a vida em suas singularidades, e um atestado da versatilidade de Chaplin, que não era extraordinário apenas atrás das câmeras, mas demonstrava um talento notável como ator e compunha muito bem para todos os seus filmes - a trilha sonora, também de sua autoria, não deixa mentir. A mais inesquecível delas talvez seja justamente a que carrega a homonímia com o título, vencedora do Oscar de melhor canção original e reinterpretada em várias versões pelo mundo. Os acordes dão conta de expressar a alquimia entre o sorridente e o melancólico, entre o revés e o recomeço, e também a substituição cruel e inevitável (?) do velho pelo novo, outro tema colocado em pauta pelo roteiro, mais uma incumbência de Chaplin. No fundo, Calvero também precisa retomar seu amor próprio, e a convivência com Thereza é decisiva nesse processo, de que somos testemunhas por pouco mais de duas horas.

Apesar de ser o antepenúltimo filme do cineasta, Luzes da ribalta está cheio de autorreferências que deixam a sensação de que se trata do seu trabalho derradeiro. A começar pelo ano em que a história se passa: 1914, ano em que dirigiu o seu primeiro filme, um entre vários curtas que se sucederiam pelas décadas seguintes. Esse também foi o ano de eclosão da Primeira Guerra Mundial, apontada por alguns historiadores como o verdadeiro marco inicial do século XX, até então surgido apenas nos calendários, já que os costumes e ideologias do século anterior ainda se mostravam muito arraigados nas sociedades europeias. Em alguns detalhes, essa questão é incorporada à narrativa, mostrando o ensaio de mudanças importantes na posição social da mulher, por exemplo, embora muitos avanços ainda estivessem por acontecer, inclusive à época de filmagem do próprio longa. Ainda sobra espaço para ninguém menos que Buster Keaton, outro mestre do humor físico e do Cinema mudo que contracena aqui pela primeira e única vez com Chaplin e afasta de vez qualquer possibilidade de comentário sobre uma rivalidade entre os dois. É mais um presente dele para nós - e que não nos ouça o Matthew (Michael Pitt) de Os sonhadores (The dreamers, 2003), que insistia em preferir Keaton.

Essa coletânea de momentos singelos e emocionantes faz deste um filme para ser constantemente lembrado e revisitado, não importando a idade ou o estado mental do espectador. Os temas explorados por Chaplin não perderam sua universalidade nem sua atualidade, e também funcionam como a transposição para a tela dos dramas pessoais do diretor, que sofreu com o abandono de seu pai, a loucura da mãe e anos de miséria. Toda essa penosa matéria-prima se convergiu para filmes de rara beleza, oásis de sensibilidade e carinho em tempos de humor tão cínico e autoindulgente. O percurso nobre de Calvero, marcado por vários sacrifícios, é a prova de que a generosidade sabe a sua hora e o seu lugar, e o amor pode se traduzir na distância, em deixar respirar se isso valer o aprendizado ao outro, exatamente como ele faz com Thereza. A parceria entre eles se revela brilhante de perto ou de longe, como grandes amigos que não perdem o carinho recíproco no tempo em que se encontram separados. É o relacionamento que fica entre eles, já que Calvero recusa a proposta de casamento dela, preferindo o amor que os gregos chamam fileo. E o que dizer do ato final, de uma poesia indescritível? Somente com os olhos postos diante da cena podemos compreender a sua preciosidade. Nada mais resta a dizer.

10/10

Nenhum comentário:

Postar um comentário