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segunda-feira, 11 de março de 2013

Por uns dólares a mais e a busca frenética pela vitória

Segunda parte da Trilogia do Homem sem Nome (ou Trilogia dos Dólares), Por uns dólares a mais (Per qualche dollaro in più, 1965) é mais um legítimo exemplar da vasta seara do western spaghetti, cujo ápice criativo foi nas décadas de 60 e 70, tempos em que o cabresto da correção política não tinha força o bastante para mutilar o senso de humor corrosivo ou engessar a violência e certa crueldade nas produções cinematográficas. Dirigido por Sergio Leone, para muitos o grande nome do gênero, o filme traz novamente a figura de Manco (Clint Eastwood, na flor da idade), também conhecido como Pistoleiro Sem Nome, obstinado caçador de recompensas que sabe como pouquíssimos manejar uma arma e disparar tiros certeiros em direção a qualquer inimigo que atravesse o seu caminho por terras desérticas. Essa habilidade do personagem já havia sido conhecida no filme anterior da trilogia, o que faz o público ter uma certa noção do que esperar quanto às suas atitudes. Antes de mais nada, ele é um sujeito de pouca conversa e muita ação, e não trai esse aspecto de sua personalidade sob hipótese alguma.

Em sua busca por um novo alvo que lhe possa render mais dividendos, ele depara com um daqueles típicos cartazes de procurado Velho Oeste, que desenhos animados como Pica-Pau ajudaram a tornar legendários. Dessa vez, a Polícia está à cata de Indio (Gian Maria Volonté), malfeitor perigoso que, capturado e entregue às autoridades, traz como recompensa uma boa quantia em dinheiro, exatamente o que o pistoleiro deseja. Mas ele não é o único interessado em colocar as mãos no facínora vivo ou morto. O coronel Douglas Mortimer (Lee Van Cleef) é outro que tem grande interesse em receber os dólares dessa missão. Com isso, dois lados opostos passam a disputar a tal recompensa, e não haverá reservas de nenhum deles para atingir o objetivo. Se em Por um punhado de dólares (Per un pugno di dollari, 1964) o pistoleiro demonstrava seu traquejo para sustentar um jogo duplo, nesse segundo filme ele é testado em sua rapidez, tendo de estar sempre um passo à frente de seu adversário, tão obstinado quanto ele.

A sanha de vitória dos personagens é a deixa para mais um festival de balas e correrias sobre selas de cavalos oeste afora, musicadas por uma esplêndida trilha sonora cuja assinatura cabe ao não menos talentoso Enio Morricone, homenageado em 2007 com um Oscar honorário, prêmio de consolação pelos vários anos de grandes trabalhos. Junto a Leone, ele é responsável pelas pitadas de italianidade da obra, que funciona principalmente como um entretenimento estiloso, ao qual não faltam ação e aventura. Por outro lado, o longa também permite refletir sobre o quanto o amor ao dinheiro pode desencadear a ambição desenfreada, sobretudo quando não se tem nada a perder, como é o caso dos oponentes da história. Suas pistolas e revólveres, companheiros leais de caminhada, são usados à exaustão, ao menor sinal de ameaça, venha de onde vier. Nesse sentido, é possível afirmar que, tanto quanto o pistoleiro e Douglas, elas também são protagonistas, ganhando atenção máxima em várias passagens, nas quais o que resta a fazer é mirar no inimigo e fazê-lo cair por terra com tantos tiros quantos forem necessários.



A certa altura da história, todavia, a competição entre os dois personagens cede lugar a uma aliança. O pistoleiro se dá conta, depois de muitas tentativas, de que não é capaz nem de capturar Indio nem de eliminar seu rival. Com isso, ambos decidem unir forças e se infiltrar no bando do criminoso, entendendo e colocando em prática a máxima de que, se não é possível vencer o inimigo, o melhor a fazer é unir forças com ele. Essa fase da narrativa, não menos eletrizante que a anterior, de franca disputa, mostra o conhecimento estratégico de ambos, que sabem usar de frieza e serem ardilosos quando necessário. Por sua vez, Indio é um bandido calejado, e ludibriá-lo requer bastante perícia e jogo de cintura, sob pena de ser alvejado de improviso. Nesse atraente jogo de gatos e rato, quem sai ganhando é o público, que permanece inquieto diante da tela, ansioso pelos desdobramentos de uma trama ainda mais bem elaborada que a de seu predecessor. Por uns dólares a mais é a depuração do estilo de Leone, bem como o seu atestado de fidelidade à gramática do western spaghetti, e esse cruzamento feliz torna o filme, por assim dizer, uma iguaria no cardápio cinéfilo.

Para os padrões hollywoodianos, mesmo os daquele tempo, o orçamento do longa foi irrisório: apenas 600 mil dólares foram suficientes para custear toda a produção, que hoje reina entre os adoradores de um bom faroeste. Mesmo porque, o fato de o pistoleiro e os demais personagens estarem constantemente em luta e atirando para todos os lados não anula a sua humanidade. Não estamos, portanto, diante de meros autômatos que abrem fogo sem qualquer critério. Antes, Leone retrata homens de coração árido que matam um leão por dia, e cuja sobrevivência está diretamente relacionada à sua capacidade de reagir ao perigo com intrepidez e destreza. A trilha sonora (novamente ela), é bastante eficiente na demonstração desse espírito, e possibilita entender o filme como uma obra cativante, ainda que por vias um tanto sinuosas. O filme ainda conta com a presença de Klaus Kinski em seu elenco, intérprete famoso pelos destemperos nos sets de filmagens que, aqui, empresta sua estampa de mal encarado para um dos comparsas de Indio. No mais, é embarcar na proposta estranhamente divertida de Leone e aproveitar uma sessão de combates de alto calibre que revela uma busca frenética pela vitória.

AVALIAÇÃO: *****

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