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terça-feira, 5 de março de 2013

O mestre e a eterna busca por valores e direções

Mesmo que hoje esteja distante dos filmes-coral que o fizeram conhecido em seu início de carreira a exemplo de Boogie nights – Prazer sem limites (Boogie nights, 1997), Paul Thomas Anderson continua investindo em painéis sobre a condição humana, incorporando todas as contradições que a abordagem da temática implica. Dessa vez, seu olhar se volta para os primeiros anos da década de 50 e um cenário de pós-guerra que deixou a muitos homens sem norte, incluindo Freddie Quell (Joaquin Phoenix), cuja falta de perspectiva o leva a saltar de emprego em emprego, ao mesmo tempo em que cultiva um vício em bebidas preparadas com as mais diversas e tóxicas substâncias, como solvente e tintas. O plano de abertura de O mestre (The máster, 2012) é justamente com Freddie: estirado sobre a areia, ele contempla o nada, com um olhar perdido na imensidão do horizonte que denota uma existência vazia de sentido. Entre os companheiros da Marinha, dá-se a brincadeiras e perde o senso do ridículo ao insistir em uma simulação de sexo com uma escultura de areia feita por um deles. Parece ter perdido de vista o tênue fio de separação entre real e fictício.

Desde o início, percebe-se o quanto Freddie é instável e cheio de conflitos internos. Uma vez que não consegue resolvê-los, explode em reações raivosas e, nessa incontinência, perde o respeito das pessoas ao redor, que o veem como um pobre coitado sem rumo. Ele tenta, entre outras coisas, ser fotógrafo, mas não é capaz de lidar com um cliente que tenta impor suas preferências no momento de ser clicado, colocando a perder mais uma oportunidade de viver de seu próprio salário. É assim, perdido dentro de si mesmo, habitante de um corpo ao qual nunca parece se adequar, que ele vaga pelas ruas e invade um barco no qual está acontecendo a cerimônia de casamento da filha de Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman), um homem de simpatia e calor notáveis. Os caminhos daqueles homens se cruzam no instante em que Freddie se vê como penetra daquela festa e o olhar de Lancaster encontra o seu. Não demora para que os dois travem o primeiro diálogo e o homem carismático veja no desorientado uma chance de colocar em prática alguns dos métodos pouco ortodoxos relacionados à crença que vem começando a divulgar.

A estranha e oscilante afinidade entre Freddie e Lancaster não é debalde. Existe muito de um no outro, a despeito do fato de suas personalidades soarem antagônicas a maior parte do tempo. Com um um pouco mais de atenção, nota-se que o que transborda no primeiro é intensamente represado no segundo. Freddie parece o que Lancaster já foi e/ou tem medo de voltar a ser e, ainda que não haja uma explicitação verbal desse raciocínio, sutis indícios possibilitam acolher esse ponto de vista. Aliás, Anderson gosta de cultivar as filigranas em seus filmes, e O mestre não foge a essa sua predileção: as entrelinhas são mais eloquentes do que diálogos extensos ou planos didáticos e demasiado expositivos. Por outro lado, o realizador vem investindo nessa peculiaridade em um grau crescente, e não é temerário afirmar que esse seja o seu filme mais complexo até aqui. Muito mais que apresentar a formação de uma seita ou religião, que, sabe-se dos bastidores, tem inspiração na polêmica Cientologia, O mestre é um estudo de personagem dos mais densos e profícuos, que faz da milenar procura do homem pela tutoria uma plataforma para a reflexão de nossa condição de passantes pelo mundo. Enquanto estamos aqui, precisamos de um farol e, para alguns, ser seu próprio guia é mais que o bastante. Para outros, é necessário alguém em quem se espelhar. Tal qual Freddie.


A certa altura da narrativa, Lancaster é categórico em seu questionamento à tentativa de Freddie de viver por si mesmo, instando-o a apresentá-lo a alguém que foi capaz de caminhar sem o apoio de um senhor. O discurso desse homem está impregnado de um forte caráter persuasivo, que funciona com muitos principalmente porque ele mesmo demonstra forte convicção daquilo que expõe. Quando se vê em ocasiões de debate, lança mão de toda sua retórica e enreda o adversário em suas próprias armadilhas. Entretanto, Lancaster não é de todo independente e senhor de si. A esposa Peggy (Amy Adams, extraordinária) é capaz de dominá-lo e, sob seu cabresto, impedir que ele se desvie de sua visão inicial. A maior defensora daquele conjunto de crenças, na verdade, é ela. Para manter o marido sob controle, chega a recorrer à manipulação de seu prazer, masturbando-o e fazendo-o lembrar o tempo todo acerca de como chegaram até ali. É também nas entrelinhas que parece haver uma atração homoerótica de Lancaster por Freddie, uma suposição levantada justamente pelo relacionamento frio e protocolar que ele mantém com Peggy. De variadas formas, Freddie é para Lancaster a projeção de desejos jamais verbalizados.

Para além de seu elenco afinadíssimo e de tônus dramático em dia, O mestre é conduzido por um roteiro esplêndido, que privilegia a oscilação e, por vezes, a tontura, assim como fazem a muitos as embarcações, tão presentes no próprio filme. Anderson não está interessado em fazer concessões ou tomar uma via explicativa. Antes, elege um percurso de muitas ramificações e mantém sua obra aberta a inferências que dependerão do juízo particular de cada espectador, o qual jamais é subestimado em sua inteligência. Se em Sangue negro (There will be blood, 2007) o cineasta já demonstrava sua preocupação em deixar seus personagens respirarem e serem exatamente o que são, aqui ele segue dedicado a essa escolha, por mais que muito do que os protagonistas sejam venha daquilo que não dizem ou não fazem. Porém, dessa vez, Anderson obtém êxito maior, o que só corrobora a tese de que, a cada filme, sua estética e sua direção se refinam, cooperando diretamente para o andamento da narrativa, sem se sobrepujar a ela. O mestre é desafio constante, é perda de chão e digestão lenta. Com sua organização difusa, requer tempo para se decantar na memória e sedimentar as discussões que coloca em pauta.

Assinada por Jonny Greenwood, a trilha sonora é outro detalhe estonteante. Em canções incidentais que pontuam o abismo existencial de Freddie e a constante batalha interna de Lancaster, somos conduzidos sem pressa, fazendo necessários cada um dos 144 minutos de projeção, que são capazes de gerar um misto de enfado e fascínio que, em primeira instância, é semelhante ao mosaico emocional que atravessa a relação dos protagonistas, de afeto exótico e arroubos dialogais, sintetizados na ocasião em que, lado a lado, eles reagem de forma oposta a uma cela. Greenwood sela sua segunda parceria com Anderson, iniciada em Sangue negro, mostrando-se um colaborador eficiente e pródigo em captar, sob o prisma sonoro, a cadência tortuosa que acomete os dois homens de jornadas entrelaçadas. Ele também assina a trilha de Filhos da esperança (Children of men, 2006), produção esnobada em que também fez um grande trabalho. O som encontra amparo na imagem, fotografada do Mihai Malaimare Jr., com seus espaços fechados, mares revoltos (a água é presença recorrente no filme, não somente como símbolo de purificação) e desertos amplos, todos locais frequentados pelos personagens e, cada qual a seu modo, representações de suas naturezas interiores. Com toda essa conjunção de acertos, O mestre é obra lapidar, mosaico de nuances erráticas, que oferece turbidez e intermitência desnorteantes. Em cacos, reflete a poliedria humana e a busca por palavras que apascentem o coração, mar revolto e constantemente cortejado pelas trevas.

AVALIAÇÃO: *****

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