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terça-feira, 19 de março de 2013

O desconforto com o mundo visto em Zabriskie Point

Desconforto é uma palavra-chave para a compreensão de Zabriskie Point (idem, 1970), segunda experiência consecutiva de Michelangelo Antonioni em um filme de língua inglesa. O sentimento de não estar bem colocado em algum lugar atravessa os protagonistas da história, Mark e Daria, interpretados, respectivamente, pelos não atores Mark Frechette e Daria Halprin. São dois jovens à volta com a ideologia de seu tempo e um anseio por mudança. O cenário são os Estados Unidos dos anos 60, com todo o fervor de uma juventude em busca de seu lugar no mundo e de sua identidade, bem como de profundas transformações sociais, depois dos hipócritas anos 50. Através de ambos, o realizador italiano reflete sobre o peso desses rearranjos na vida dos jovens de modo metonímico, a saber: tomando o todo pela parte. Ela é uma estudante de antropologia que está ajudando um rico empresário a construir uma cidade em pleno deserto de Los Angeles. Ele é um universitário que, devido a um engano difícil de esclarecer, passou a ser procurado pela Polícia como culpado de um assassinato durante uma manifestação estudantil. Os caminhos de ambos não tardam a convergir.

Pautado por essa premissa, o longa é mais um exemplar da habilidade de Antonioni para lidar com o incômodo de estar no mundo, sensação inerente à condição humana. Todos, em maior ou menor grau, mais dia ou menos dia, somos confrontados com um sentimento de profundo vazio anímico, e cada um busca preenchê-lo à sua maneira ou ignorá-lo. Com Mark e Daria não é diferente. Por vários momentos, eles se flagram questionando o mundo e as pessoas, seja por vias rebeldes, seja pelo ensimesmamento que consome boa parte do seu tempo. E, ao olhar acuradamente para o estado das coisas, experimentam uma imensa desilusão. Portanto, Zabriskie Point é uma experiência desnorteadora, à qual é bastante difícil permanecer indiferente. Seus protagonistas caminham a esmo, e o filme, em muitas passagens, parece sem rumo e demasiado lento, mas ambas as impressões são, na verdade, reforçativas de seu caráter desafiador e, quiçá, denunciativo. Existe algo de errado com Mark e Daria assim como existe algo de errado com a humanidade. E a maior de todas as questões talvez seja: Que rumo tomar?

De certa forma, o longa trava um diálogo com Blow up – Depois daquele beijo (Blow up, 1966), trabalho anterior do cineasta. Em ambos os filmes, encontra-se um retrato do movimento de contracultura, que buscava o direito de réplica a todo um sistema regido por conservadorismo e proibições e não mais representava o desejo e o interesse de boa parte da juventude, com o detalhe de que o primeiro se passava na Inglaterra. Então, é possível falar em uma espécie de continuação indireta quando se se refere a Zabriskie Point, embora cada uma das produções mantenha sua individualidade, por assim dizer. Pensando em maior escala, nota-se também um diálogo entre esse filme e outros títulos antecedentes de Antonioni, sobretudo a clássica Trilogia da Incomunicabilidade. O que o diretor faz aqui é seguir discorrendo sobre os abismos entre os homens, perscrutando o silencio e oferecendo, antes de mais nada, uma inquirição imagética. As palavras, ainda que carregadas de eloquência, desvanecem ante a força do olhar, que contempla o descontentamento em ambientes paradoxalmente amplos e sufocantes. O deserto frequentado pelos protagonistas faz lembrar o desajuste emocional metaforizado da Giuliana (Monica Vitti) de O deserto vermelho (Il deserto rosso, 1964), pleno de matizes esmaecidos que podiam ser lidos como o assombro diante da indefinição de si mesmo.



A propósito do deserto, uma das cenas mais impactantes e hipnóticas do longa se passa justamente nesse cenário assinalado pela aridez. Tendo apenas um ao outro, Mark e Daria se amam sobre as areias, concretizando uma das máximas do movimento hippie, que ganhava força naqueles anos e cuja liberdade que proclamava chegou ao seu ápice em um certo Festival de Woodstock, encerrando a década de modo icônico. Ali, isentos de códigos sociais, seus corpos se confundem com a poeira e o vento, e tantos outros casais experimentam o mesmo sentimento de completude efêmera que tipifica o ato sexual. Clicados por Alfio Contini, eles são o mesmo por alguns instantes, seduzidos pela ideia de romperem com os ditames nos quais não mais se encaixam. Em última instância, a sequência é mais um exemplo do quanto os filmes de Antonioni primam pela beleza da fotografia, embora, por vezes, o conceito de beleza venha atrelado a uma certa dose de agressividade, gerando incômodo e promovendo uma pequena devastação interior no público que, desde A aventura (L’avventura, 1960), tinha nele um realizador difícil, de reflexões herméticas e acesso penoso.

É bem verdade que Zabriskie Point não é considerado um de seus melhores filmes, uma tremenda injustiça quando se coloca os olhos sobre ele e se depreende sua profundidade e sua grandeza. O título, aliás, faz referência a uma localidade situada no oeste estadunidense e conhecida como Vale da Morte, um nome indigestamente sugestivo para se correlacionar com jovens, cuja vida, geralmente, pulsa intensa e que não têm a menor pretensão de morrer. No que tange à trilha sonora, o longa também exala força: canções de bandas como Pink Floyd – então com apenas 5 anos de existência -, The Youngbloods e The Kaleidoscope embalam a jornada pungente desses dois jovens desorientados. E, se em Blow up – Depois daquele beijo, a explosão era interior e silenciosa, aqui ela é totalmente audível, ainda que não passe de uma projeção de Daria, cujo desconcerto entre as próprias convicções e as de seu antigo chefe atinge um ponto de saturação. O que explode, simbolicamente, é o capitalismo, com todas as suas traquitanas que estão longe de representar os verdadeiros desejos humanos. Porém, junto com ele se vão pilares que, por muito tempo, nortearam o pensamento intelectual e, nesse sentido, o longa apresenta sua face mais acachapante: quando lançamos pelos ares o supérfluo, existe a chance de se perder também o que, um dia, consideramos nobre.

AVALIAÇÃO: *****

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