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sábado, 7 de janeiro de 2012

Mamma mia! e o charme da descontração em forma de musical



Charme e descontração são duas palavras-chave para se comentar a respeito de Mamma mia! (idem, 2008), um dos musicais mais divertidos e envolventes dos últimos dez anos. O filme é a estreia na direção de Phyllida Lloyd e demonstra uma alta capacidade de sacudir o esqueleto da plateia com seus números musicais quase sempre divertidos, quando não são comoventes. Como ponto de partida para muita cantoria, está a história de Sophie (a fraca Amanda Seyfried), uma jovem que está prestes a se casar, mas não sabe quem é seu pai. A fim de descobrir a sua identidade de uma vez por todas, ela convida para a sua festa de casamento três homens que podem ser quem ela tanto procura. Assim, entram em cena Sam (Pierce Brosnan), Harry (Colin Firth) e Bill (Stellan Skarsgard).

Os candidatos a pai de Sophie são convidados surpresa da garota, que não avisa sobre a sua decisão a Donna (Meryl Streep), sua mãe. Assim, um mundo de incertezas paira sobre a festa, e Donna precisa acertar os ponteiros com três antigos amores. Como se trata de um musical, naturalmente esses ajustes se dão por meio de canções, que vêm a ser parte do repertório do Abba, o mais famoso grupo sueco, se não o único famoso. É exatamente na presença desse ingrediente que reside o tal charme de Mamma mia!, uma comédia passada na exuberante ilha grega de Kalokairi. A trama e as situações não são exatamente originais, mas o filme ganha o espectador com seu despojamento e com as músicas que tanto fizeram sucesso em décadas anteriores. Sem falar que não é toda hora que Meryl Streep se coloca em projetos cômicos, e aqui ela está especialmente bonita e jovial.

Como de hábito, aliás, sua atuação é preciosa, e sua personagem é diferente daquilo que estamos habituados a ver quando se trata dela. Não há como não se encantar por sua Donna, uma mulher de espírito libertário que colecionou casos amorosos na juventude, e que agora, na maturidade, precisa lidar com a vontade incessante de sua filha de saber quem a ajudou a colocá-la no mundo. Na época do lançamento do filme, Meryl concedeu uma entrevista a uma importante revista de cinema, hoje muito mal das pernas afirmando que era gostosa nos anos 70, época em que o Abba estourou no mundo. É difícil duvidar da atriz, que demonstra estar envelhecendo muito bem, assim como exibe uma capacidade de reinvenção na pele de Donna, e ainda se arrisca nos vocais, fazendo bonito em várias cenas, especialmente na que canta The winner takes it all para Sam, um de seus ex-namorados que mais a magoou. A sequência é de derreter o coração.



O roteiro é esperto ao fazer de Donna o centro da história, já que, de fato, ela é a personagem mais interessante do filme. Pressionada pela circunstância de ter três homens com viveu romances presentes na festa de casamento de sua filha, ela começa a inventar desculpas para não revelar quem é o pai da jovem, e alimenta tanto a curiosidade de Sophie quanto a do público, que espera pela tal verdade no decorrer da narrativa. Percebe, com base nessa característica, que Donna é uma mulher comum e errante, como qualquer outra mulher real, sem a idealização e a bondade pouco verossímil de personagens musicais. Ela transgrediu e continua transgredindo, podendo ser comparada, nesse aspecto a uma outra personagem de musical, a Satine (Nicole Kidman) de Moulin rouge! – Amor em vermelho (Moulin rouge!, 2001). Por outro lado, ela exibe tanto frescor e naturalidade que não importam tanto os seus erros, e ela consegue até mesmo despertar uma nova fagulha de desejo em Harry, que, como se verifica adiante, não está mais tão interessado assim no sexo oposto.

A história de Mamma mia! se passa em 1999, mesmo ano em que estreou a peça teatral na qual se baseia. Não deixa de ser uma homenagem e uma citação direta à matéria-prima original, embora pouco se perceba dessa época na caracterização dos personagens e nos cenários, todos paradisíacos e com potencial para embevecer o espectador. O investimento é todo em ambientes ensolarados que casam perfeitamente com a descontração que o filme pede. Talvez o seu maior senão seja Amanda Seyfried. A jovem atriz ainda é bastante crua, não se mostrando uma escolha acertada para o papel. Sua Sophie é, no máximo, engraçadinha, mas pouco chama a atenção com sua personalidade voluntariosa e seu excesso de chamego com o futuro marido. Ela viria a se tornar uma das requisições mais recorrentes dos filmes água com açúcar pouco tempo depois, estando presente nos créditos de títulos como Cartas para Julieta (Letters to Juliet, 2010) e Querido John (Dear John, 2010), dispensáveis em qualquer currículo cinéfilo. E pensar que outras atrizes, como sua xará Amanda Bynes, estiveram cotadas para o papel...

Com relação aos numerários, Mamma mia! também se saiu muito bem. O filme teve a maior abertura de um musical na história do cinema, arrecadando mais de 20 milhões de dólares em seu primeiro final de semana de exibição nos EUA. Na certa, o filme foi ao encontro de uma plateia de órfãos do grupo oriundo da Suécia, que ofertou ao mundo outras bons produtos, por assim dizer, além de Ingmar Bergman. São as várias canções da trilha sonora, como a balançante Dancing queen, que pontuam os momentos divertidos, hilariantes ou tristonhos do enredo, feito sob medida para entreter e animar. No final das contas, estamos diante de uma comédia inofensiva e deliciosa, que faz bem aos olhos e à cabeça, e corrobora a tese de que um passatempo um tanto escapista também pode valer a pena, ampliando com eficácia o paladar cinéfilo privilegiador de dramas pungentes, a exemplo do autor deste texto.

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