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quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

O homem que não estava lá e os contrastes entre o óbvio e o bizarro


O humor negro é totalmente caro aos irmãos Ethan e Joel Coen. Em sua carreira, eles priorizam o exame de aspectos inusitados da vida, apresentando leituras muito peculiares de fatos bizarros e de personagens cujas características produzem no espectador a oscilação entre a compreensão e a surpresa. Tem sido assim a cada nova comédia dramática lançada por eles. Imagine agora essas particularidades correlacionadas aos signos mais básicos do cinema noir. O resultado atende pelo interessante nome de O homem que não estava lá (The man who wasn’t there, 2001), e pode, facilmente, ser apontado como um dos maiores acertos cinematográficos do ano em que foi concebido. A mescla de dois gêneros que parecem discrepantes é uma das garantias desse tal acerto.

Ed Crane (Billy Bob Thornton) é o protagonista da história. Ele é um sujeito quieto a maior parte do tempo e trabalha em uma barbearia com três cadeiras, embora só haja dois barbeiros por ali. Seu companheiro de trabalho, em contrapartida, é um grande falastrão, que não se cala até que o expediente termine. Essas informações nos são dadas pela voz em off do próprio Ed, que narra suas vivências para o espectador durante do todo o filme, pontuando com algumas observações comedidas o desenrolar dos fatos que o levaram à sua atual condição, revelada somente nos minutos finais da história. Até lá, uma série de desdobramentos com um quê de improváveis vai recheando o filme. Sabiamente, os Coen abriram mão das cores em O homem que não estava lá, transformando tudo em um curios recorte artístico, em que as ações e as conduta dos personagens chamam muito mais a atenção que os espaços em que eles se encontram.

As pequenas surpresas do filme começam quando Ed descobre que investir em lavagem a seco pode lhe trazer muitos lucros, algo de que é convencido por um cliente da barbearia, um tipo bastante risível. Para o tal negócio, ele precisa desembolsar uma alta quantia. Como não dispõe dela, propõe-se a chantagear seu amigo, de quem suspeita estar tendo um caso com Doris (Frances McDormand, formidável), sua esposa. Em meio a um certo mal-entendido que gera um certo desencontro, ele obtém a tal quantia e entrega ao negociante, esperançoso de começar uma nova vida. Entretanto, esse mesmo dinheiro seria investido em uma grande empreitada pelo seu amigo, que também havia prometido um cargo de contadora a Doris, o qual não vem e a frustra. Trata-se apenas do primeiro de uma série de incidentes que permeia a trajetórias de personagens tão curiosos, ao mesmo tempo distantes e próximos de cada um de nós. É possível se reconhecer neles mesmo que seja pelo caminho da inversão. São pessoas enredadas pelas circunstâncias, mas que agem proativamente diante delas. Contraditório? Não em um filme dos Coen.



O diálogo do longa com a tradição de cinema noir acontece por meio da utilização do já comentado preto e branco, assim como pela presença de personagens de caráter um tanto dúbio, belas mulheres e segredos desvendados ao longo da evolução da narrativa. Mas os Coen se apropriam desses aspectos à sua maneira, levando à reflexão sobre o quanto a vida, muitas vezes, mostra-se vazia de sentido, tal como já tinham feito em seus trabalhos anteriores e voltariam a fazer mais recentemente em Um homem sério (A serious man, 2009). Com toda a diligência de experts no que fazem, eles traçam contrastes entre o óbvio e o bizarro, e brindam o público com sequências e diálogos muito inspirados, fazendo do filme um dos melhores de sua carreira. A dupla sabe muito bem nos maravilhar com maneiras peculiares de abordar seus temas prediletos e, aqui, contam com um talento especial: Billy Bob Thornton.

O ator cinquentão, nascido no Arkansas, é exemplar na composição de Ed Crane. Com um repertório mínimo de expressões faciais, tanto quanto de palavras, ele é a alam de O homem que não estava lá. Suas contatações se dão muito mais por meio de seus pensamentos, resultado de um longo tempo de acúmulos de impressões mordazes sobre sua própria estrada da vida. Nos olhos fugidios, sérios e penetrantes de Thornton, encontra-se a perfeita verossimilhança de um homem resignado diante dos fatos, mas apenas até certa medida. Dois anos depois, ele retomaria a parceria com os Coen no razoável O amor custa caro (Intolerable cruelty, 2003), que poderia não fazer parte do currículo de todos os envolvidos. O grande acerto do diretor e do ator é mesmo no filme de 2001. Por tudo isso, é lamentável que boa parte do público não atente para o seu trabalho magistral aqui, já que o filme passou praticamente batido. Ao menos o Globo de Ouro foi justo ao indicá-lo como melhor ator dramático, mas ele perdeu para Russell Crowe, favorito por Uma mente brilhante (A beautiful mind, 2001).

O filme também vale para conferir Scarlett Johansson ainda bem novinha no papel de Birdy, um apelido que a menina recebeu por sua vocação musical. Ela é o doce mel que apascenta as inquietações de Ed, sempre dissolvido quando em sua presença. A atriz está graciosa e afável aqui, e ainda não chega a lembrar a voluptuosa Nola Rice, que viria a interpretar apenas quatro anos depois no ótimo Ponto final (Match point, 2005). McDormand, por sua vez, é um espetáculo à parte. Esposa de um dos irmãos Coen na vida real, ela encarna com maestria uma mulher algo desolada que cai em uma espécie de armadilha do destino. Os rumos que sua história segue são verdadeiramente inesperados, o que torna toda a trama do filme ainda mais envolvente. É ótimo ver que, ainda que se trate de um exemplo de nepotismo, a presença de McDormand no elenco do filme só lhe faz bem, diferentemente de uma certa pífia Helena Bonham Carter nos filmes de seu marido Tim Burton, com exceção de Sweeney Todd – O barbeiro demoníaco da rua Fleet (Sweeney Todd, 2007).

Com seu desfile de excentricidades, O homem que não estava lá também pode representar uma porta de entrada no universo particular dos Coen. Embora a assinatura da direção caiba apenas a Joel, Ethan também oferece sua colaboração na história, sendo co-diretor e respondendo pelo roteiro juntamente com o irmão. Nessa categoria, aliás, Joel foi devidamente premiado em Cannes, reconhecedora de filmes de verdadeira qualidade, diferentemente do que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas costuma fazer. Mas isso é assunto para uma discussão mais ampla. Independentemente de prêmios, este é um grande filme, que disputa, em pé de igualdade com Onde os fracos não têm vez (No country for old men, 2007) o título de melhor da dupla, emparelhando-se com ele.

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