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sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O discreto charme da burguesia e o estado de provocação em alto grau



Costumeiramente classificado como provocativo e iconoclasta, Luis Buñuel fez da ousadia a sua marca registrada. O cineasta espanhol, naturalizado mexicano, construiu uma carreira profícua na sétima arte, dividindo opiniões filme após filme. Via de regra, não cabem meios termos para se referir a ele: há quem o adore e há quem o repudie. A indiferença, contudo, não consta da lista de reações possíveis à sua obra. O discreto charme da burguesia (Le charme discret de la bourgeoisie, 1972) é um exemplar clássico e frequentemente citado de sua verve irônica e corrosiva, que já havia destilado doses generosas de veneno viperino até então. Afinal, estamos falando de um dos diretores de Um cão andaluz (Un chien andalou, 1928) e A idade do ouro (L’age d’or, 1929), ambos concebidos quase simultaneamente e com repercussões igualmente escandalosas. O filme de 1972 é um grande achado em termos de crítica social e também de comédia de costumes, temperadas com rodelas de um humor nigérrimo.

Tudo gira em torno das figuras complexas de um grupo de burgueses, cuja vida vazia é dissecada por meio de intermináveis tentativas de reunião à mesa, que parecem ser a única razão de ser ou o único entretenimento que existe para eles. Do alto de sua pujança, eles só têm olhos para si mesmos, e para seus jantares refinados e esbanjadores que só interessam pelo que oferecem de ocasião para a ostentação de luxo. Aqui, Buñuel segue uma lógica inversa à que apresentou em O anjo exterminador (El angel exterminador, 1962). Nesse filme, um grupo de grã-finos simplesmente não conseguia sair de um jantar por conta de uma série de incidentes inesperados. Já em O discreto charme da burguesia, o que se vê é a impossibilidade de concretização das lautas ceias elaboradas pelos ricos protagonistas, a saber: Don Rafael (Fernando Rey), Florence (Bulle Ogier), Alice (Stéphane Audran), Thevenot (Paul Frankeur) e Senechal (Jean-Pierre Cassel). A cada momento, o jantar é marcado na casa de cada um deles.

Paralelamente às tentativas de reunião à mesa dos personagens, vemos todos eles caminhando por uma estrada que parece não conduzir a lugar algum, uma sequência que intercala os fracassos experimentados pelos burgueses quando buscam tornar reais grandes farras gastronômicas. Existe múltiplas leituras para essas cenas, que soam, aparentemente, desconexas do resto da narrativa. Elas podem ser entendidas como a caminhada rumo ao vazio existencial da classe burguesa, que, uma vez tendo se fartado de tudo o que desejava e buscava, não tem mais para onde ir e o que fazer. Também podem ser interpretadas como a falta de eixo definido entre sonho e realidade, já que aquela longa jornada empreendida pelos personagens parece estar muito mais em uma dimensão onírica ou em um estado de consciência latente de cada um deles. Elas podem, ainda, serem concebidas como mais um devaneio surrealista proporcionando por Buñuel, cuja estética é claramente influenciada pelos pressupostos dos artistas idealizadores desse movimento.



A verdade é que O discreto charme da burguesia funciona como um engenho jogo de construção e quebra de expectativas, com rupturas de interação que podem surpreender e, por vezes, enervar o espectador. Qualquer semelhança com uma breve descrição de uma obra de arte não será mero acaso. O filme tem o poder de inquietar e causar todo tipo de reação, algo que é inerente à verdadeira composição artística. Buñuel brinca de embaralhar a narrativa o tempo todo, colocando seus adoráveis burgueses com um típico ar blasé em situações absurdas, para, na cena seguinte, mostrar um deles despertando assustado de um sonho ruim. Essas cenas nos levam a questionar até onde as situações foram verdadeiras e o que pode ter sido fruto dos delírios imaginativos de Florence, Alice, Rafael e companhia, numa intrigante subversão da cronologia engendrada pelo realizador. Forma-se, então, um ciclo: quando se começa a comprar um jantar como verdadeiro e bem-sucedido, logo um imprevisto assola a reunião e impede que os convivas se refestelem como o planejado. Então, entramos em uma espiral de eterno recomeço que sacode a tela o tempo todo.

Por todos esses elementos conjugados, o filme de Buñuel é de uma grande qualidade, que o passar do tempo só fez atestar cada vez mais. A ácida crítica do diretor à classe burguesa é atemporal, visto que, ainda hoje, podemos reconhecer o desperdício e a entrega ao luxo e ao exibicionismo que aqueles homens e mulheres tanto praticam. Em meio às suas reuniões e aos seus palacetes nababescos, cada um deles representa plenamente o cinismo de uma camada social que veio de um passado de muito trabalho e de propostas de derrubada de uma tradição para a implementação de uma conjuntura revolucionária que, no fim, demonstrou-se mera utopia, devidamente abandonada (ou sacrificada), como quem apostata de suas crenças iniciais e perde a visão traçada anteriormente. Vale citar também o ótimo desempenho dos atores principais, entre eles a bela Stéphane Audran, quase uma miragem de beleza e encanto. A atriz, conhecida por outros títulos, como As corças (Les biches, 1968) e A festa de Babette (Babette’s feast, 1987), brilha na pele de uma burguesa cuja frivolidade causa um misto de reprovação com estranha simpatia. Junto a ela, estão seus parceiros de círculo social, que preferem fechar os olhos e ignorar uma realidade que lhes bate à porta, privilegiando o hedonismo e a libação.

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