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segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Entre desencontros e quebras de expectativas em Conto de outono



O famoso palavrório de Eric Rohmer está mais uma vez presente em Conto de outono (Conte d’automne, 1998), o último filme da série de Contos das Quatro Estações. O diretor francês, a quem as palavras são imprescindíveis, conclui maravilhosamente uma quadrilogia que só rendeu bons frutos. A base para cada filme é uma estação do ano e, no caso do longa-metragem a ser analisado, nota-se que, novamente, ele fez um grande uso do discurso. A história a ser contada, dessa vez, é a de Magali (Béatrice Roman), uma viticultora que praticamente se esconde no campo do sul da França, e que está há muito sozinha. Seu estado desperta em Isabelle (Marie Rivière) um desejo de ajudá-la a encontrar um parceiro, colocando, para isso, um anúncio em um jornal. Esse argumento básico e trivial serve de eixo de sustentação para uma trama em que o mais importante é a viagem, e não tanto a chegada.

Rohmer faz Conto de outono girar em torno de relações amorosas truncadas, de amizades que valem muito mais pela possibilidade de existência de veracidade da parte de cada envolvido, e das convicções que caem por terra diante de imprevistos que a vida reserva. Desde a primeira sequência, observam-se os personagens falando longamente, emitindo opiniões sobre tudo e todos que os cercam. Essa é uma característica recorrente no cinema do diretor. Quem já assistiu a algum dos seus filmes sabe que os diálogos sempre foram o seu ponto forte. Rohmer está interessado em perscrutar o quando cada pessoa pode se desnudar através de sua fala, e impregna os personagens de uma aura de afetividade que os torna totalmente palpáveis. Pode-se dizer que, dos membros da Nouvelle Vague, ele seja ainda hoje o menos popular, o que se constitui uma grande injustiça. Rohmer sempre praticou um cinema muito humano, que valoriza muito mais a composição intimista que a ação desenfreada.

A exemplo de seus demais filmes, quase nada acontece em Conto de outono. O que vemos aqui é a vida pacata de uma mulher simples, que cultiva vinhos como quem cultiva suas própria amizades. Somente poucos e bons chegam até ela, e Isabelle é uma dessas poucas com quem ela pode contar, e é exatamente quem a surpreende com a atitude de colocar o anúncio no jornal. Sem o seu consentimento, diga-se de passagem. Paralelamente à tentativa de unir Magali a alguém está o dilema amoroso de Rosine (Alexia Portal) e Étienne (Didier Sandre), uma jovem e seu professor de filosofia e namorado de ocasião. O relacionamento dos dois é um misto de incongruência com desejo incontido, que acaba invadindo a história de Magali, que se aproxima quase ingenuamente de Étienne em determinado momento, depois que Rosine tem a ideia de apresentá-la ao seu professor.



Como qualquer filme do legendário realizador francês, esse também requer muita paciência. O grande público, por conta de uma espécie de condicionamento behaviorista, habituou-se a poucas palavras e muita ação, e são inúmeros os exemplares de filmes que comprovam essa máxima. A princípio, não é um grande problema. Só passa a sê-lo quando nada mais além de um arrasa-quarteirão surge na telona. O fato é que Conto de outono merece ser conferido, e pode até mesmo ser o filme pelo qual se começa a quadrilogia. Cada uma das histórias tem independência para ser acompanhada individualmente, e o que lhes confere unidade é a presença dos elementos que caracterizam cada estação do ano. Além disso, em cada um deles Rohmer lança mão de certas coincidências inesperadas, que colocam os seus personagens em rumos que não pareciam ser os que estavam reservados pela vida. No caso de Conto de outono, Magali se vê, de repente, entre dois homens, já que entra em contato, em momentos diferentes, com Étienne e Gérald, o homem que responde ao anúncio no jornal e vai ao encontro de Isabelle, que serve de intermediária entre ele e Magali. A viticultora, aliás, é uma personagem muito carismática em sua verossimilhança, e une uma certa brejeirice com sofisticação que respondem pelo interesse dos dois homens em sua companhia.

A exemplo de Magali, Isabelle é muito cativante, e tem sua beleza loura constrastada com o visual trigueiro da amiga. As duas são vividas por atrizes que agradavam muito a Rohmer. Marie Rivière, por exemplo, trabalhou várias vezes com o diretor, em títulos como A mulher do aviador (La femme de l’aviateur, 1981) e O raio verde (Le rayon vert, 1986), que compuseram uma parceria muito bem-sucedida entre ambos. Não é de se espantar, portanto, que ela dê vida a uma mulher que tanto encanta Gérald, que pensa ser ela a mulher do anúncio no jornal. Ela, entretanto, vai se desvencilhando do conquistador aos poucos, encaminhando-o para a sua amiga. Por conta disso, o filme vai delineando uma pequena ciranda de desencontros e expectativas, como Rohmer sabe fazer muito bem. A trama é amarradinha, e essa costura perfeita contribui para a qualidade da história. O espectador pode ficar interessado pelo desenrolar dos fatos, desejoso de saber se a viticultora sairá de sua condição de solteirona. Tudo isso em meio a diálogos intermináveis, que esculpem as personalidades de cada um e lançam sementes para discussões proveitosas.

Há quem considere esse um dos melhores filmes do diretor, juntamente com Minha noite com ela (Ma nuit chez Maud, 1969). De fato, acompanhar as pequenas agruras e surpresas de Conto de outono se revela uma experiência irresistível. Os seus filmes são feitos para degustação, e encantam e suscitam reflexão na medida certa. Rohmer domina a câmera e os atore com habilidade notória, e nos outorga mais um dos maravilhosos exemplares de uma filmografia cuja iniciação pode se dar por qualquer um de seus trabalhos. Cada um deles revelará um artista encantador, para quem o cinema é uma ponte para todas as outras artes, um ensejo para discorrer sobre literatura, pintura e tantas outras formas de expressão artística. Pode-se dizer que ele tenha inaugurado e encerrado um estilo de cinema cuja ação quase nula abre espaço para grandes monólogos e diálogos que, em primeira instância, são constatações sobre a própria condição humana. E em Conto de outono, está presente mais uma vez a sua destreza em apresentar a justaposição entre uma realidade quae palpável e um realismo sutilmente mágico.

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