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quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Desencontros entre vida e vontade sob o ângulo de O garoto da bicicleta



Os retratos de vida apresentados por Jean-Pierre e Luc Dardenne fascinam pelo componente de verossimilhança, e pela capacidade que os irmãos diretores têm de observar através de frestas, discretas por natureza, instantâneos de uma realidade crua. O garoto da bicicleta (Le gamin au vélo, 2011) é um novo exemplar dessa notória predileção de ambos pela vivacidade correlacionada à veracidade, que encanta, empolga e inebria. À semelhança de seus trabalhos anteriores, o filme em questão aborda o cotidiano de pessoas que se inserem em um meio perverso, mas que não estão meramente determinadas por ele. Cyrill (Thomas Doret), o protagonista, é um garoto que está à beira dos 12 anos, e apresenta, sim, traços de revolta por conta das condições em que se inseriu. Entretanto, em nenhum momento ele é planificado pelo roteiro a ponto de mostrar apenas um lado rebelde e contestador.

Seu inconformismo advém do abandono de seu pai, que o entregou a um orfanato sob a promessa de que sua presença naquele lugar seria transitória. Uma grande mentira. Mais adiante, perceber-se-á que as intenções de Guy (Jérémie Renier), o pai, são outras, o que ferirá gravemente a esperança e a autoestima do garoto. Sua sorte, por assim dizer, é o cruzamento de seu caminho com o de Samantha (Cécile de France), uma cabeleireira amorosa que desenvolve por ele um afeto e um carinho praticamente inexplicáveis, a ponto de considerar a decisão de adotá-lo, e de assumir todas as consequências que derivam dessa escolha. Em verdade, ambos se conhecem numa das tentativas de fuga de Cyrill do orfanato, que acaba malfadada. Pouco tempo depois, ele estará morando com sua preceptora, e entre eles se desenvolve uma relação despida de certa reciprocidade explícita: quanto mais dedicação ela apresenta, mais ele é capaz de cometer atos preocupantes.

Debruçados sobre esse argumento básico, os Dardenne construíram um filme que exala sinceridade, e não deixa o espectador respirar em muitos momentos. Não se trata de um filme com ação ininterrupta nem com câmera frenética. Não é por isso que o público pode se sentir sobressaltado ou com a respiração presa, mas pela densidade de uma história que é contada com ares documentais, sem apelações e sentimentalismos desprezíveis. Como já se disse, os diretores espiam os acontecimentos como quem os vê de uma fresta, despidos de pieguice. O filme trava un diálogo notável com as obras pregressas da dupla, especialmente com A criança (L’enfant, 2005). A correlação inevitável com esse longa advém da presença de Jérémie Renier, reconhecidamente um ator-fetiche de ambos, como um pai que não assume sua condição perante o filho. Assim como o Bruno do filme anterior, Guy prefere prescindir de sua paternidade para alçar voos que julga serem os melhores para si. De certa forma, é como se estivéssemos diante do mesmo personagem do filme anterior, agora reafirmando o seu pouco caso por um filho que tivera anos antes. Não obstante a essa rejeição sistemática, Cyrill quer acreditar que a decisão de Guy é temporária. Mais do que isso, ele precisa acreditar nessa sua verdade.



O garoto de bicicleta é um daqueles raros filmes que consegue a proeza de ser lindo e dolorido ao mesmo tempo, com passagens que evocam o desalento de Os incompreendidos (Les 400 coups, 1959), o clássico incontestável de François Truffaut. Em sua busca incessante pelo preenchimento de seu vácuo afetivo, ele, muitas vezes, mete os pés pelas mãos, e sua sensação de abandono o leva a compactuar com as os planos maléficos de um rapaz envolvido com pequenos crimes. A sensação de aflição diante das atitudes escusas de Cyrill percorre a espinha do público com arrepios de quem vê, impotente, os erros cometidos em nome de uma vontade de ser alguém importante e notável. Não é de se espantar se, ao assistir ao filme, seja-se atravessado por um desejo de grito e intervenção nos passos do garoto. É interessante notar que, nos filmes dos Dardenne, o sentimento não se confunde com o sentimentalismo, e o realismo invade cada fotograma como uma demonstração da urgência de viver e fazer escolhas determinantes, cheias de consequências. Ademais, cada personagem apresenta as suas camadas e, ao se furtarem de expô-los em detalhes, os diretores deixam sempre algo a ser descoberto ou inferido. Não se sabe, por exemplo, porque Samantha devota tanto amor e cuidados a Cyrill, a despeito de sua ausência de reciprocidade.

Independentemente disso, o importante é notar que O garoto da bicicleta é um filme esperançoso, ainda que a crueza e a dureza o atravessem do início ao fim. Seus realizadores são habitués no festival de Cannes: invariavelmente, são premiados pelos seus filmes, sendo assim desde Rosetta (idem, 1999), pelo qual faturaram sua primeira Palma de Ouro. A segunda foi ganha por meio de A criança, e O silêncio de Lorna (Le silence de Lorna, 2008) venceu o prêmio de melhor roteiro. Cada uma das vitórias é justa, e o filme analisado aqui também foi laureado. Dessa vez, os irmãos saíram da Croisette com o Grande Prêmio do Júri, depois de ter concorrido com medalhões como Almodóvar, por A pele que habito (La piel que habito, 2011), e Malick, por A árvore da vida (The tree of life, 2011), o grande vencedor da edição 2011 do Festival. Os destaques do filme vão além de seus atores e de sua direção. O filme também é feliz em sua fotografia, uma incumbência de Alain Marcoen, que explicita o alto grau de realismo do filme com lentes que captam uma atmosfera algo documental, aspecto que tanto salta aos olhos do espectador. Ele, aliás, é colaborador fiel dos diretores, tenso assinado inclusive o segmento de Cada um com seu cinema (Chacun son cinema, 2007) idealizado por ambos. Esse detalhe dimensiona para o grau de intimidade que os três adquiriram ao longo dos anos, e apontam para um filme cuja intensidade e verdade encontram amparo na experiência individual do espectador, em quem poder-se-ão encontrar as profundas reverberações de uma crônica contemporânea de ganidos de dor e carência, que assevera que o cinema segue como um espaço catártico e envolvente.

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