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quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Animais noturnos, um conto imagético de desencontros

A noite ronda os personagens de Animais noturnos (Nocturnal animals, 2016), segunda incursão do estilista Tom Ford atrás das lentes. Também signatário do roteiro, ele adapta o romance de Austin Wright, que contém uma trama apontada por alguns como sendo atravessada pelo sentimento de vingança. À medida que a narrativa se desenvolve, entretanto, tal observação parece indevida: o que está em jogo aqui parece ser a necessidade de um dos protagonistas de afirmar ser capaz diante de um amor do passado. Existe uma história dentro da história, e é nela que o espectador é imerso a maior parte do tempo, ganhando aos poucos certas informações que permitem entender como era a relação entre Susan (Amy Adams) e Edward (Jake Gylenhaal). 

Até que seja apresentado a ambos, o público tem diante de si uma sequência de abertura um tanto deslocada do conjunto. Fica a pergunta no ar: que significado poderia ter sido atribuído àquelas mulheres? Elas só voltam a aparecer em uma única cena, cuja exclusão da montagem final não teria feito falta para algum tipo de compreensão do enredo. A ideia de vingança, aliás, é empurrada pelo próprio roteiro, no momento em que Susan se dá conta da existência de um quadro que contém justamente a palavra REVENGE (vingança, em inglês), momento esse carregado de um didatismo dispensável. Mas, afinal, o que estaria em jogo em Animais noturnos? Há pouco a dizer sobre a trama sem entregá-la quase totalmente. É a fusão de tempos que a faz um pouco menos óbvia: dois antes e um agora se revezam ao longo de pouco menos de duas horas de sessão.

Susan e Edward foram apaixonados um pelo outro durante certo tempo, até que o relacionamento degringolou e o afastamento se tornou a única opção viável. As dificuldades que minaram a vida a dois não são escancaradas, mas um detalhe importante é acenado: Edward se ressente da falta de crédito de Susan, e seu livro, do qual o filme toma de empréstimo o título, se mostra como um tapa com luva de pelica nessa característica da ex-parceira que tanto o atingia. O problema é que a história narrada no livro ocupa tempo demais, e Susan acaba reduzida à "função" de leitora daquele manuscrito. Gylenhaal tem mais chances em cena porque acumula o papel de Tony, espécie de alter ego seu no livro. A opção por uma outra atriz em detrimento de Adams no papel feminino principal da história não é nada louvável. É sabido o quanto ela é uma intérprete de muitos recursos, e sua presença ruiva encorpa qualquer personagem.


Em mais de uma passagem, o único "conflito" de Susan é a queda do livro, que interrompe sua leitura atenta e leva a câmera para mais perto, em close-ups redundantes que só valem a pena porque estamos diante de um lindo rosto. Enquanto isso, Gylenhaal deita e rola em sequências que exigem de seu físico e reafirmam seu potencial dramático, atestado em títulos como Os suspeitos (Prisoners, 2013) e O abutre (Nightcrawler, 2014). Seu grande companheiro de cena é Aaron Taylor-Johnson, que encarna um tipo intragável e cuja caracterização e atuação aqui fazem lembrar um jovem Sean Penn. O ápice da narrrativa é desencadeado por seu personagem de atos desequilibrados, um convite ao estereótipo do qual Taylor-Johnson, o protagonista franzino de Kick-ass - Quebrando tudo (Kick-ass, 2010) se desvia muito bem. Vale citar ainda a presença de Michael Shannon, especialista em sujeitos não muito convencionais que também dispõe de considerável espaço. Não houve chances igualitárias de brilho para o trio, uma falha muito difícil de passar despercebida. 

Sete anos separam o Ford de Direito de amar (A single man, 2009) do de Animais noturnos e a comparação - aquela tentação à qual estamos sempre sucumbindo - permite notar um certo amadurecimento na sua direção. Ele consegue impor um ritmo à trama que desperta o interesse por acompanhar seus desdobramentos e, no que se refere aos pontos de intersecção com o trabalho anterior, investe outra vez em figurinos deslumbrantres - sua porção estilista, afinal. É uma obra na qual a imagem tem peso, o que, em se tratando de cinema, é qualidade desejável e admirável. As arestas que emergem daqui e de lá denunciam a necessidade de um melhor acabamento no estofo dramático, não exatamente com vistas ao belo. A beleza aqui, aliás, é triste e solitária, como uma noite sem lua.

7/10

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