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terça-feira, 21 de outubro de 2014

Vestida para matar e os signos recorrentes de um cineasta

A influência hitchcockiana é exalada por todos os poros de Vestida para matar (Dressed to kill, 1980), um hábito em se tratando de Brian De Palma. Realizador do longa-metragem, ele soube prestar tributo ao Mestre do Suspense sem jamais incorrer na mera imitação, assumindo para si a matriz como fonte de inspiração para, daí em diante, alçar voos próprios. A trama em si é básica, e interessa menos que o jogo de som e imagem promovido pelo realizador, que cultiva um olhar voyeurista em muitas de suas obras. Aqui, o centro da narrativa começa em Robert Elliott (Michael Caine), terapeuta que exerce a profissão no centro de Manhattan e atende casos das mais variadas naturezas. Sua rotina ganha ares macabros quando descobre que uma de suas pacientes, que havia atendido naquele mesmo dia, foi assassinada com uma navalha roubada de seu próprio consultório.

Decidido a investigar o autor do crime, Robert mergulha em uma espiral de surpresas e reviravoltas, elevando a temperatura de uma trama em que a câmera passeia pelos ambientes como observadora contumaz, atenta a milímetros e fagulhas, convidando o espectador a fazer o mesmo. De Palma nos permite ser testemunhas do assassinato da paciente, mas não oferece closes frontais do assassino. Tudo que sabemos a seu respeito é que, apesar de se vestir com roupas femininas, trata-se de um homem que deseja fazer uma cirurgia de mudança de sexo, e Robert tem algo que ver com ele, mas entrar em detalhes a esse respeito seria entregar de bandeja um dos aspectos mais eletrizantes do roteiro, cuja redação é do próprio diretor. Mas o que se pode dizer é que, cada vez mais, a história apresenta contornos de um sonho mau, do qual despertar parece impossível.

A bem da verdade, o que se nota em Vestida para matar é a habilidade que De Palma tem para lançar mão de truques, os quais vão tornando esse percurso macabro sempre mais e mais envolvente, sobretudo para os amantes do gênero que predomina aqui. A falta de plena certeza sobre o que está acontecendo diante dos nossos olhos, bem como o que nossos ouvidos estão captando – o realizador daria ênfase maior ao sentido da audição em seu filme seguinte, Um tiro na noite (Blow out, 1981) – potencializa essa atmosfera de sobressalto. Por vezes, tudo pode soar até mesmo um tanto vagabundo, como se a condução do enredo estivesse nas mãos de um picareta, mas essa sensação é evidência de que estamos diante do Cinema bem próximo de sua forma mais pura: o visual e o auditivo predominando sobre os demais sentidos. Não será de todo estranho, portanto, um comentário do tipo “não acontece nada na história”. Enquanto pensar assim, o espectador perderá de vista o espetáculo montado pelo diretor.


Em meio à investigação de Robert para chegar a um inimigo que está mais próximo do que ele mesmo imagina, surge Liz Blake (Nancy Allen), prostituta que se envolve no caso e também coloca a vida em risco. Com sua beleza áurea, proporcionada em boa parte pelos cachos louros, ela é uma potente lufada de desejo para a narrativa, que acena para tal detalhe desde o seu início, uma espécie de prólogo (ou seria um delírio, como parece ser depois que acompanhamos o que vem a seguir?) sensual em que uma mulher é atacada enquanto toma banho. Talvez seja o sequência de citação mais escancarada a Hitchcock, que remete quase imediatamente à cena dos esfaqueamento no chuveiro de Psicose (Psycho, 1960). Aliás, é como se ela notasse a presença da câmera que, então, não seria uma observadora tão indiscreta assim, mas alguém que tem um pacto com quem observa, configurando uma relação de morde e assopra que, em última instância é revela a dualidade imanente do ser humano, que pode demonstrar rejeição ao que chama de olhar invasor, mas que, no fundo, gosta de ser contemplado.

Apesar de transcorrer em Manhattan, Vestida para matar não apresenta locações óbvias, como o Central Park e a Quinta Avenida. Pelo contrário. De Palma confina Robert, Liz e os demais personagens a espaços fechados e, por vezes, claustrofóbicos, como o elevador em que ocorre o assassinato da paciente do terapeuta, mulher traída pelo próprio desejo. Tudo contribui para um eficiente jogo chiaroscuro, uma herança renascentista que não perde a atualidade e é outro indicador da natureza dual que habita cada ser humano. O auge das reviravoltas da trama é a revelação da identidade do assassino, estarrecedora sobretudo para quem não tinha a menor suspeita sobre o personagem. É na fusão entre erotismo e suspense que Vestida para matar se revela como um dos melhores trabalhos de De Palma, que reinou ao longo da década de 80 com produções que aliam o domínio da câmera espiã com o pulsar agudo das notas do piano, vedetes do gênero em que se consagrou. Muito do que se nota aqui são signos que se mostrariam recorrentes em seu Cinema, e ajudaram a pavimentar sua estrada de realizador inventivo que recria o olhar sobre o suspense pela via da homenagem.

8/10

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