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sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Magia ao luar ou as manias irresistíveis de um cronista existencial

Em uma das entrevistas que já concedeu à imprensa, Woody Allen afirmou que, no início das filmagens de um novo longa-metragem, acredita que aquele será o seu melhor, mas nunca chega a ficar satisfeito depois que conclui mais um trabalho e, assim, continua tentando, filme após filme. Um passeio, ainda que breve, por sua extensa filmografia permite notar o quanto o realizador é um perfeccionista de marca maior, daqueles que não consegue enxergar as várias qualidades do que faz. Entregando um filme por ano desde 1982, ele já provou várias vezes do que é capaz, e pode se dar ao luxo de oferecer produções despretensiosas, nas quais apenas reitera sua visão de mundo e permite a intérpretes de variados calibres fazer as vezes de seu alter ego. Em Magia ao luar (Magic in the moonlight, 2014), o cargo é ocupado por Colin Firth, belamente encaixado na persona ácida de Stanley, mágico que entende tudo de truques e cuja especialidade é desmascarar videntes charlatões. 

O filme abre com seu atual espetáculo, encenado em Berlim, no qual se disfarça de chinês e atende pelo codinome de Wei Ling Soo. Irreconhecível com a pesada maquiagem, ele surpreende a plateia fazendo um elefante desaparecer enquanto destila sua elegância e placidez durante toda a apresentação. No camarim, é convidado por Howard, amigo de longa data, a puxar o tapete de uma jovem que diz ter visões e conquistou a total confiança de uma família de ricaços, inclusive Brice (Hamish Linklater, neto de um famoso romancista escocês), de quem já tem o coração nas mãos. Incrédulo quanto à menor possibilidade de existência de um mundo espiritual, Stanley aceita o desafio de expor os truques por trás das supostas manifestações sensitivas de Sofia, e assim o público é transportado para o sul da França, país ao qual Allen retorna apenas três anos depois do estrondoso sucesso de Meia-noite em Paris (Midnight in Paris, 2011).

Ali, frente a frente, os dois começam um jogo de gato e rato que tantas vezes já foi visto no Cinema, porém a graça de uma história não é sobre o que ela trata, mas como ela trata. Nesse sentido, Magia ao luar é um delicioso oásis de boas tiradas, muitas das quais são provocações a uma crença no invisível, bem como na possibilidade de conexão com ele. A despeito de quaisquer dissonâncias do pensamento que guia a mente de Allen, ouvir essas tiradas dos lábios de Stanley, sem a menor cerimônia, pode arrancar alguns sorrisos. Nesse que já é seu 44º filme, o diretor quer apenas brincar com um punhado de autorreferências e sentenciar novamente o quanto as pessoas necessitam de válvulas de escape para seguir vivendo, uma das tônicas de sua obra. De uma forma ou de outra, a magia atravessa toda sua produção, mas é a primeira vez que ela é explicitada no título, felizmente traduzido ao pé da letra no Brasil.


Por várias vezes, o discurso de Stanley e o posicionamento dos personagens, entre eles a ingênua Grace (Jackie Weaver, uma atriz camaleônica) remete a longas anteriores do cineasta, como Sonhos eróticos de uma noite de verão (A midsummer night’s sex comedy, 1982) e Você vai conhecer o homem dos seus sonhos (You will meet a tall dark stranger, 2010), ambos diálogos com a obra shakesperiana que estão entre os mais subestimados de sua carreira. Estão todos embebidos em uma nuvem embriagante de ilusões, e mesmo o protagonista chega a caminhar um certo tempo por ela, mostrando que nenhum de nós passa incólume dos momentos de miopia sentimental. Para Allen, o amor é uma lente divergente da realidade, mas sua afeição à corrente filosófica existencialista o leva a assumi-lo como uma espécie de tábua de salvação, à qual se agarrar soa quase como uma questão de sensatez.

A tal médium, cujo dom é sempre colocado em dúvida por Stanley, coube a Emma Stone, de currículo pontuado por comédias e papéis adolescentes. Sua dicção com a língua constantemente entre dentes irrita – é algo que parece ter sido pensado apenas para esse papel -, mas Allen é do tipo que consegue pôr qualquer ator nos eixos – quem já viu Igual a tudo na vida (Anything else, 2003) há de convir que ele fez milagre com Jason Biggs, e ainda diz que não costuma exigir muito de seus elencos. Com seu jeito espontâneo, ela é uma armadilha e tanto para o faro apurado de Stanley, que se considera sempre um passo à frente da humanidade por acreditar que só existe aquilo que pode ser visto. Nesse sentido, há nele ecos do Boris Yelnikoff (Larry David) de Tudo pode dar certo (Weathever works, 2009), cuja arrogância respingava em quem quer que fosse seu interlocutor. Em dado momento, o mágico questiona se seria o único ser humano lúcido da face da Terra.

Magia ao Luar é o tipo de filme que os menos entusiasmados pelo diretor devem rotulá-lo como “um Allen menor”, o que não chega a ter um fundo de verdade, mas a esse clichê cabe somar outro muito mais verdadeiro, o de que um Allen menos inspirado ainda é melhor do que a maioria das comédias que toma de assalto o circuito comercial entra semana, sai semana. De certa forma, a relação do novaiorquino com a magia parece ser a de morde e assopra: ao mesmo tempo em que se mostra fascinado por ela e discorre sobre esse fascínio com um espectador conquistado, tem seus instantes de suspensão da crença e se mostra ofensivo com a mais ínfima possibilidade de ser iludido. No que diz respeito à questão, talvez sejamos todos um pouco Stanley, um pouco Allen.

8/10

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