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segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Rosetta ou a dificuldade para lidar com o afeto inesperado

Os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne são figuras caras no Festival de Cannes desde quando participaram pela primeira vez da competição oficial da sexagenária mostra francesa, de onde já saíram com duas Palmas de Ouro. A primeira delas foi conquistada através de Rosetta (idem, 1999), um claro exemplar da inclinação dos belgas para as histórias assinaladas pela crueza e pelo desconforto com as atitudes de seus protagonistas. A personagem-título, vivida por Émilie Dequenne, tem seus 15, 16 anos e não para em nenhum emprego. Logo na primeira sequência, vemos a garota inconformada com mais uma demissão que considera injusta, lutando para não deixar a fábrica de onde retira o sustento para si e para a mãe em luta contra o alcoolismo. Rosetta se esperneia, grita, argumenta até não poder mais na tentativa de permanecer ali, mas seu esforço é vão e a desilusão com o mundo volta a assombrá-la. 

Toda a narrativa do longa-metragem é centrada na busca da menina por uma colocação profissional que garanta não apenas uma certa estabilidade financeira, mas a sua dignidade como ser humano. Em uma sociedade na qual o trabalho praticamente se confunde com o valor de um indivíduo, Rosetta não vê alternativa senão estar inserida no mercado de trabalho de um universo capitalista, regido sobretudo pela exploração do operário. Essas questões subjazem ao olhar dos diretores, mas eles nunca chegam se mostrar partidários desse ou daquele regime. Antes, preferem enxergar a humanidade ainda em construção da garota, obrigada a ser muito mais madura do que a sua idade cronológica, e síntese de uma dificuldade interna em lidar com o surgimento de afetos inesperados, traduzida na imagem de Riquet (Fabrizio Rongione), rapaz que se afeiçoa a ela e estende a mão sem qualquer interesse escuso. Deseja apenas a retribuição do carinho que ele passa a lhe dedicar, confundindo e, de certa forma, angustiando Rosetta.

As marcas principais dos Dardenne são facilmente encontráveis neste que é o segundo dos seis filmes que a dupla dirigiu até agora. A trama é situada em um ambiente cinzendo e gélido, onde a felicidade plena carece de espaço e as obrigações da vida prática exigem seu cumprimento diariamente. Para além disso, há sempre um protagonista que demonstra o quanto é inábil para encarar a vida que se ergue complexa, frequentemente metendo os pés pelas mãos. Rosetta é exatamente assim: tenta entender as pessoas e as situações ao mesmo tempo em que precisa descobrir a si mesma, todavia, não há muito tempo para essas questões, e ela precisa continuar seus esforços para seguir vivendo. Nos filmes seguintes dos irmãos, a construção dos protagonistas é igualmente verossímil: do Francis (Morgan Marinne) de O filho (Le fils, 2002) à Lorna (Arta Dobroshi) de O silêncio de Lorna (Le silence de Lorna, 2008), passando pelo Bruno (Jérémie Renier) de A criança (L'enfant, 2005), todos apresentam suas nuances de caráter e uma espécie de predisposição para criar problemas e podem fazer o público oscilar entre a aprovação e o desapontamento.


No caso específico de Rosetta, é possível notar a aflição constante da jovem com a aproximação crescente de Riquet. Diferentemente dela, ele conseguiu um emprego estável e tem a confiança total do chefe (Olivier Gourmet, um dos atores preferidos dos cineastas), além de um canto tranquilo para morar. Não é muito para a maioria das pessoas, mas o bastante para despertar a cobiça de Rosetta, um sentimento que ela talvez nem saiba nomear, mas que se alstra pelo seu interior e a conduz a atitudes de moral extremamente duvidosa. Nos vários close-ups oferecidos pela câmera perscrutadora dos Dardenne, essa luta é externalizada, e demonstram o quanto eles estão atentos às minúcias e as filigranas, deixando o seu cinema com ares documentais, mas sem a pretensão de capturar objetivamente a realidade, o que só faz crescer cada filme que carrega sua assinatura. Estar diante de uma produção como Rosetta é ter inclusive a oportunidade de descobrir um pouco sobre si mesmo e se surpreender. 

Por sua atuação despojada e minimalista, Dequenne foi agraciada com o prêmio de melhor atriz em uma edição que contava com nomes de alto calibre nessa e em outras categorias - somente para se ter uma ideia, o filme competiu com títulos como História real (The straight story, 1999) e Tudo sobre minha mãe (Todo sobre mi madre, 1999). A beleza da jovem foi embrutecida para dar conta dos sofrimentos de Rosetta, o que incluiu um corte de cabelo masculinizado e um vestuário desengonçado que é praticamente o mesmo do começo ao fim da história. Infelizmente, a presença de Dequenne no Cinema não se tornou recorrente nos anos seguintes, mas seu rosto é marcante o suficiente para que possa ser recordado por um longo tempo. Nos pouco mais de 90 minutos de narrativa, não faltam cenas capazes de sobreviver na memória como a dança tímida da protagonista com Riquet, o único momento com trilha sonora, em que ela finalmente parece desabrochar para, logo em seguida, interromper o processo com medo dos seus desdobramentos. No cinema dos Dardenne, pulsa a força da alma inquieta, que não sabe corresponder quando encontra algum calor em um mundo tão gélido. Mesmo assim, os silêncios e os gestos contidos denunciam: há uma fagulha de esperança.

9/10

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