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sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Relacionamentos debruçados sobre a palavra em Noites de lua cheia

É inevitável discorrer sobre um filme de Eric Rohmer sem mencionar o apreço que o realizador francês demonstrava pela palavra. Nos intermináveis diálogos de seus personagens, sempre há espaço de sobra para constatações de toda sorte, sobre tudo no que se refere ao campo movediço dos sentimentos. Toda a sua filmografia, portanto, pode ser pensada como uma sucessão de variações sobre os mesmos temas, o que está longe de indicar um déficit criativo. Ao contrário, ele sempre encontrava novas maneiras de comentar os mesmos assuntos, e cada novo contato com sua obra é uma singela surpresa que se revela. Para os amantes da ação, cabe ressaltar que fazer a narrativa avançar nunca preocupou a Rohmer e, portanto, seus filmes exigem espectadores no sentido primário do termo, o de pessoas em estado contemplativo que, a certa altura, encontram-se absortas diante do que presenciam com olhos e ouvidos. Estes últimos, aliás, devem estar ainda mais atentos. Pode-se apreciar os seus filmes de olhos fechados, mas é impossível assistir a eles sem uma audição acurada.  

Essas peculiaridades tornam difícil comentar sobre um longa-metragem específico do diretor, já que analisar um é, em grande parte, fazer menção a vários outros. Veja-se o caso de Noites de lua cheia (Les nuits de la pleine lune, 1984): sua sinopse revela outro forte ponto de contato entre as suas obras, que é o da simplicidade extrema tomada como gancho para reflexões e ironias amplas sobre a confusão dos amantes e a inquietude das almas. Tudo gira em torno de Louise (Pascale Ogier), que divide o mesmo teto com Remi (Tchéky Karyo), seu namorado, em uma cidade pacata nos arredores de Paris. Enquanto ele tenciona oficializar o relacionamento, com todas as prerrogativas necessárias, ela teme perder a liberdade e se afasta. Volta a viver em seu apartamento parisiense e fica outra vez mais próxima do amigo Octave (Fabrice Luchini), em cuja companhia se dispõe a embarcar em novas aventuras amorosas. Essa é a deixa para que Rohmer indague sobre o que as mulheres realmente querem, uma pergunta ambiciosa para a qual ele não se preocupa em fornecer respostas absolutas.

Na concepção de Louise, essa distância de Remi vai fortalecer o relacionamento dos dois, mas a nuvem da instabilidade está sempre sobre a sua cabeça e, com isso, ela acaba se envolvendo com Bastien (Christian Vadim), um músico que conhece em uma festa à qual vai com Octave. Ao mesmo tempo, começa a desconfiar de uma possível traição do namorado oficial, e conta com a ajuda do amigo para investigar os passos de Remi e confirmar ou negar suas suspeitas. Calcado nesse jogo de encontros e desencontros, Noites de lua cheia vai se mostrando como mais um Rohmer típico, que analisa os hábitos burgueses e destila sua verver irônica sem jamais perder a elegância. À diferença de seus célebres companheiros de crítica da lendária Cahiers du Cinéma, que demonstraram vontade de reiventar a Sétima Arte e pensá-la com tons mais pulsantes (Jean-Luc Godard), letais (Claude Chabrol) ou romanceados (François Truffaut), só para citar os principais, Rohmer sempre exibiu preferência por um viés classicista, de rigor formal e ênfase na palavra, o que lhe trouxe uns quantos detratores ou esnobadores.


A crítica especializada aponta esse rigor como uma influência de Robert Bresson, realizador de longas como O batedor de carteiras (Pickpocket, 1959), rodado no ano em que Rohmer estreou como cineasta com O signo do leão (Le signe du lion, 1959). Em ambos, é notória uma predileção por um roteiro bem alinhavado e uma certa despreocupação com o desempenho dos intérpretes, criando personagens um tanto artificiais e, por vezes, até apáticos. Contudo, o efeito dessas características é benéfico, pois confere uma estranha verossimilhança aos homens e mulheres que desfilam na tela com suas inseguranças. Todos os dias, somos apresentados a pessoas reticentes, quando não somos nós mesmos os hesitantes e, por isso, travados e desconfortáveis, perdidos em um mundo de escolhas em que, tantas vezes, optar por uma alternativa é eliminar definitivamente todas as outras. Esse também é o caso de Louise: ela sofre de indecisão crônica justamente por saber que não se pode ter Remi e Bastien ao mesmo tempo, enquanto se consome por não saber mais se o namorado ainda está ao seu alcance. 

O filme é um dos exemplares da série Comédias e Provérbios, rodados na década de 80, que pode ser considerada como o apogeu do sarcasmo rohmeriano e a exploração máxima do ordinário em tramas que nunca ultrapassam os 100 minutos de duração. Entretanto, esse tempo cronológico não tão extenso é dilatado em exposições agudas de sentimentos que quaisquer um de nós pode experimentar em maior ou menor grau, longe de qualquer hermetismo. A exemplo dos demais filmes da série, Noites de lua cheia traz um frescor intelectual que afasta a perspectiva tradicional que associa esse traço à poeira que recobre os materiais artísticos e transpira uma juventude que parece ausente de cineastas mais novos que ele à sua época ou em décadas posteriores. Suas regras estreitas de concepção fílmica, porém, apresentavam exceções discretas. Raramente, ele trabalhava mais de uma vez com o mesmo ator mas, aqui, dirigiu Luchini pela terceira vez consecutiva, dando-lhe um papel de coadjuvante que contribui para catalisar as emoções e confusões da protagonista. No fundo, Louise é rondada pela ideia da solidão, um fantasma para a maioria das pessoas, à qual ela combate debilmente. A metáfora do título é outro recurso eficiente: todos temos nossas noites de lua cheia, mas trata-se apenas de uma fase a ser suplantada por outras, em um ciclo de mudanças e repetições da ordem do pensamento e da ação.

8/10

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