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quinta-feira, 16 de maio de 2013

Alguns caminhos do Cinema em A visitante francesa


Milimetricamente pensada, a narrativa de A visitante francesa (Da-reun na-ra-e-suh, 2012) é um convite irresistível para entusiastas da metalinguagem. Cada detalhe conta na história de uma estudante de Cinema que está passando alguns dias em um balneário entranhado na costa sul-coreana e decide inventar três roteiros diferentes a partir de uma mesma personagem. Anne (Isabelle Huppert) é a tal protagonista desses enredos e, em cada caso, assume traços de personalidade e ocupações distintos, os quais servem a intenções e desdobramentos levemente destoantes entre si. Ao apresentar essa premissa para seu espectador, o cineasta Hong Sang-soo explicita a estrutura básica de seu longa: o tédio da jovem roteirista é o prefácio de uma trama que se desdobra em três atos cuja conexão se dá pela presença dos mesmos personagens que giram em torno da protagonista exercendo funções e ocupando posições diferentes em cada um.

Então, conhecemos a primeira leitura da história, em que Anne é uma cineasta que se hospeda em uma singela pousada por alguns dias com o intuito de espairecer. Apesar de suas vestes despojadas, é uma mulher que transparece umas certas sofisticação e impavidez no modo como transita entre os moradores do local. Na segunda variação do roteiro, a mesma Anne é uma mulher casada vivendo um caso extraconjugal que espera pelo amante no tal balneário e rapidamente se aflige com a sua demora em chegar ali. A terceira e última história traz uma Anne tentando se refazer depois que o marido a trocou por uma sul-coreana mais nova. As constantes desses atos são rapidamente percebidas: Anne não sabe a língua materna de seus interlocutores e se comunica com eles em inglês, o que gera limitação nos diálogos que ela trava com um salva-vidas, o dono da pousada, sua esposa e uma funcionária do local.

O tempo inteiro, portanto, os personagens falam uma língua que não é sua, e tentam expressar emoções que, no fundo, sempre caem melhor em seus idiomas nativos – um xingamento ou uma declaração de amor na sua própria língua sempre será mais convincente e catártica do que em uma língua estrangeira. Decorre desse uso uma série de pequenos incidentes comunicativos ora cômicos, ora aflitivos, normalmente causados por desconhecimento de uma ou outra palavra em inglês, sobretudo pelo salva-vidas. Quando, na primeira história, ele mostra a Anne a canção que escreveu em sua homenagem, por exemplo, sua dificuldade com a língua inglesa fica patente, já que ele não consegue ir além de alguns versos e não encontra rimas para todos eles. O resultado é uma letra improvisada e tímida que poderia ter feito por qualquer criança recém-alfabetizada: o conteúdo é razoável, mas cheio de sentimento sincero.



Por causa da construção meticulosa de suas tramas, Sang-soo é apontado pela crítica como praticante de um Cinema tributário de Eric Rohmer. Basta conhecer um pouco da filmografia do saudoso realizador francês, morto em 2010, para enxergar pertinência nesse cotejo. De fato, o sul-coreano mostra um forte apego a produções minimalistas que se atêm a repetições e coincidências prosaicas e verossímeis, encaixando reflexões sobre a dificuldade masculina na expressão de suas emoções. É o que acontece em Hahaha (idem, 2010), seu filme anterior lançado no Brasil com um longo atraso, e neste A visitante francesa. Ainda que Huppert possa ser encarada como a protagonista do longa, suas personagens, no fundo, deixam entrever homens um tanto desastrado no terreno do amor, e o salva-vidas é o exemplo magno dessa característica em cada uma das histórias. Vários são os exemplares rohmerianos que trazem personagens masculinos enredados em nós sentimentais, como o Jean-Louis (Jean-Louis Trintignant) de Minha noite com ela (Ma nuit chez Maud, 1969) e o Jêrome (Jean-Claude Brialy) de O joelho de Claire (Le genou de Claire, 1970), duas pérolas de sua extensa e deliciosa obra.

O modus operandi utilizado por Sang-soo também se revela atraente no que tange aos aspectos técnicos. Em várias sequências, sua câmera apresenta espaços abertos e vislumbra Anne a uma certa distância para, segundos depois, focalizá-la com precisão e deixar transparecer os seus anseios. O expediente também é utilizado nas três histórias, assim como a repetição de alguns objetos cênicos que apenas trocam de posição a cada roteiro pensado pela jovem do preâmbulo. Um desses objetos é um guarda-chuva, que exerce funções diferentes nas histórias e sempre é gentilmente oferecido a Anne pela funcionária do balneário. Com isso, torna-se uma brincadeira divertida pescar os rearranjos promovidos pela jovem, uma espécie de alter ego do cineasta, bem como o uso que ela faz do bom e velho Deus ex machina em cada situação. Mais do que um diretor, Sang-soo é um talentoso geômetra da condição humana, confundindo e explicando cena após cena e reafirmando a validade do seu Cinema como porta de entrada para um mundo de reflexões metalinguísticas em caminhos e descaminhos.

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