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sexta-feira, 31 de maio de 2013

Depois de maio, um belo retrato de uma juventude instável


As reações inflamadas que tornaram o mês de maio de 1968 emblemático já passaram. Entretanto, ainda existe uma juventude inquieta, sobre a qual paira uma vontade de gritar aos quatro ventos os seus reais anseios, mesmo que, para isso, seja necessário transgredir tudo o que conhecem como tradição. Em algum lugar não muito distante de Paris, esse grito de liberdade ainda ecoa e impele moças e rapazes de pouco menos de 20 anos a proferir seus discursos contrários a toda uma ordem estabelecida há décadas. Esses são o cenário e o momento em que transcorre Depois de maio (Après mai, 2012), dirigido por Olivier Assayas e exibido na mostra competitiva do 65º Festival de Cannes.

De forma explícita, o realizador parisiense volta a se debruçar sobre a temática da juventude em busca de seu lugar no mundo, que havia comentado no belíssimo Água fria (L’eau froide, 1994). Até mesmo nos nomes dos protagonistas, ele deixa notório esse diálogo, uma vez que os repete aqui. Gilles (Clément Métayer) e Christine (Lola Créton), a princípio, não têm muito contato um com o outro, embora compartilhem as mesmas aspirações, sobretudo no tocante ao engajamento político. É justamente esse aspecto que os tornará cada vez mais próximos, até que iniciem um relacionamento amoroso. Até esse momento chegar, entretanto, Gilles está apaixonado por uma outra garota, com a qual sonha dividir a vida, em um sentimento de eternidade comum na sua faixa etária. Mas ela vai se distanciando progressivamente, até que parte, incerta quanto ao amor que sente por ele.

Assim, entre reuniões para discutir os eventos que vão ocorrendo na política da nação e invasões à escola para pichar muros na calada da noite, Gilles e Christine descobrem o amor um pelo outro. E Assayas vai mostrando o seu olhar carinhoso para uma geração que carregou consigo a honra e o fardo de tentar mudar o mundo, rompendo barreiras que, até então, outros não tinham criticado com tamanha veemência. Não deixa de ser uma viagem de retorno do cineasta à sua própria adolescência, já que ele tinha seus 13 anos à época em que as barricadas e demais reações explosivas ao Sistema ocorriam. Porém, seu percurso que mescla História e ficção está longe de colocar os jovens daquele tempo em um relicário. Depois de maio está longe de ser um filme romântico: antes, levanta questionamentos e mostra mais de um lado, permitindo ao espectador analisar o que vai acontecendo na tela evitando ao máximo uma postura tendenciosa.



Não faltam dilemas para Gilles e Christine. Como os personagens principais de Água fria, eles precisam exercitar sua capacidade de decisão e, aos poucos, vão se dando conta de que podem escolher atitudes, mas não podem se decidir quanto as consequências. Exatamente por isso, aproximam-se de tantos outros jovens retratados com igual brilhantismo por outros diretores tarimbados, como o François (Louis Garrel) e a Lilie (Clotilde Hesme) de Amantes constantes (Les amants réguliers, 2005) e o Mark (Mark Frechette) e a Daria (Daria Halprin) de Zabriskie point (idem, 1970). De Michelangelo Antonioni e Philippe Garrel, passando pelo Bernardo Bertolucci de Os sonhadores (The dreamers, 2003), não faltam realizadores que se utilizaram das encruzilhadas juvenis como matéria-prima para obras de qualidade inenarrável. Por suas qualidades artísticas e técnicas, Depois de maio vem se somar a toda essa produção pregressa, bebendo de uma fonte transbordante que, em última instância, é um nicho perene para o meio cinematográfico, sendo raros os exemplos em que, ao mirar sobre o assunto, cineastas foram infelizes em sua condução.

Outra virtude louvável que o filme apresenta é a paixão que lhe está subscrita. Não faltam passagens em que Assayas flagra a intensidade com que esse sentimento se manifesta entre os jovens, para os quais o tempo vai passando e transformando suas convicções que, a princípio, mostravam-se tão inabaláveis. Gilles, Christine e todos os demais jovens que orbitam ao seu redor experimentam uma das máximas que as gerações mais velhas adoram repetir, a de que, cedo ou tarde, a ânsia de mudar o mundo se dissipa. Talvez o próprio diretor tenha sentido o mesmo em sua pele, e transformou novamente essa constatação em Cinema, ainda que conserve em sua direção e em seu roteiro o ímpeto de ser e fazer, outra notória característica juvenil. O que resta, então, é a consciência de se estar diante de um longa que observa ideologias e engajamento perdendo o sentido. Enquanto se dilui a revolução, jovens sonhadores e amantes inconstantes se perdem (ou se encontram) no emaranhado de escolhas.

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