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segunda-feira, 26 de novembro de 2012

O som ao redor: as paranoias da classe média brasileira

A zona sul de um bairro do Recife serve como cenário de O som ao redor (idem, 2012), dirigido por Kleber Mendonça Filho, que faz sua estreia em longas-metragens. Seu foco é o cotidiano de alguns moradores de uma rua aparentemente pacata, que reflete as principais paranoias da classe média contemporânea e, por tabela, alguns medos e anseios universais e atemporais. Não há um protagonista absoluto na história. Esse posto cabe muito mais à rua do que a qualquer um dos demais personagens que desfilam pela tela e expõem, cada um a seu tempo e sua cota, visões de mundo traduzidas em discursos e atitudes, por vezes, questionáveis. Um deles é João (Gustavo Jahan), um rapaz que levou sua mais recente conquista amorosa para casa e passou a noite ao seu lado, tendo que correr quando a empregada chega no dia seguinte. Por alguns minutos, a sua trama é a mais importante, e vemos que se liga a de outros personagens próximos dali – seu avô e seu primo são quase vizinhos.

Mais importante do que as histórias que correm em paralelo, O som ao redor funciona melhor se analisado como um todo. O filme é um eficiente painel de uma série de contradições que os seres humanos carregam consigo e, nesse sentido, o poder de identificação gerado por ele é enorme. Mendonça Filho aposta em uma narrativa fluida, sem grandes malabarismos audiovisuais, que enfatiza diálogos coloquiais e passagens plenas de verossimilhança. O que mais salta aos olhos é a sua discussão sobre a insegurança que tomou de assalto – com trocadilho – toda uma população e as alternativas que cada cidadão vem buscando para lidar com ela. Em decorrências desse sentimento de desproteção e abandono pelas autoridades oficiais, emergem as figuras das milícias e dos seguranças particulares, que oferecem seus serviços de porta em porta garantindo tranquilidade irrestrita aos moradores sempre acuados.

O representante dessa classe é Clodoaldo (Irandhir Santos), cuja lábia convence boa parte dos habitantes locais a contratar sua equipe. Em paralelo, ele ronda uma das empregadas dali e a leva para a cama, fazendo girar a roda de relações entre os personagens. Santos é um dos mais requisitados intérpretes do cinema nacional recente, acumulando papéis distintos e fortes em títulos como Viajo porque preciso, volto porque te amo (idem, 2009) e Febre do rato (idem, 2012). E a metrópole funciona como tipo para toda uma realidade brasileira, tornando O som ao redor um filme de seu tempo e de sua gente – cariocas, paulistas e gaúchos podem se ver refletidos na história, o que denota o seu alto grau de abrangência. Para além dos trunfos do roteiro e dos intérpretes, existe ainda o detalhe da engenharia de som, que oferece muitas informações sobre os personagens. Latidos, roncos, tiros, explosões e gritos vão surgindo na narrativa que ultrapassa as duas horas de duração sem se tornar enfadonha ou redundante em momento algum. Trata-se de um filme de ruídos e rumores, que dizem muito sobre nós, nossas paranoias, neuroses, incompletudes e relações truncadas.


O filme também discute a incomunicabilidade, fazendo-o através de uma abordagem distante de hermetismos, como normalmente acontece em obras acerca dessa temática. Em uma das residências conhecidas na trama, uma mulher sofre com os latidos insistentes do cão dos vizinhos, que a impedem de ter noites de sono tranquilas e a fazem tomar atitudes não muito corretas para se livrar do incômodo. Ao mesmo tempo, seu casamento está à beira do naufrágio por causa da falta de diálogo com o marido e os filhos lhe reclamam tanta atenção que ela não tem mais tempo para nada. Tudo isso se traduz em um cotidiano vazio, esparso e inerte, como se não houvesse escapatória. O sentimento é compartilhado, em alguma instância, pelos demais moradores, sempre desconfiados uns dos outros e reproduzindo relações de trabalho milenares que permanece como força motriz de uma sociedade estruturada no que existe de mais desigual.

Em sua carreira pelos festivais Brasil afora, O som ao redor foi muito bem-sucedido. Sua passagem por Gramado lhe rendeu quatro Kikitos e o Festival do Rio também lhe trouxe láureas, inclusive a de melhor filme. Há que se destacar o quanto o longa é um conjunto de acertos: funciona muito bem pela confluência de aspectos técnicos e dramáticos, e não somente por um ou outro. É um legítimo representante audiovisual de uma série de mazelas sociais que se soma e produções bem-sucedidas sobre o assunto, como Trabalhar cansa (idem, 2011) e Os inquilinos (os incomodados que se mudem) (idem, 2010). Entretanto, Mendonça Filho não compartilha da ferocidade de Sergio Bianchi, o que não faz de seu discurso menos válido. O som ao redor não é um olhar romanceado sobre uma classe, mas um atestado potente de nossa pujança e de seus desdobramentos e do quanto estamos cada vez mais presos em masmorras invisíveis, reféns de uma ausência manifestada em afetos vazios e à mercê de sonoridades nem sempre benévolas.


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