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sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Mais um ano: o percurso cíclico da existência

O realismo abarcado em sua amplitude é a tônica de Mais um ano (Another year, 2010), trabalho de profunda sensibilidade conduzida pelo talento veterano de Mike Leigh. Especialista na abordagem do cotidiano de pessoas extraordinárias em sua simplicidade, ele oferece aqui a história de Tom (Jim Broadbent) e Gerri (Ruth Sheen), um casal muito simpático que está sempre com amigos por perto. A união longeva dos dois é um exemplo a ser comentado e seguido, e eles apresentam uma felicidade crível: não são meros companheiros de habitação, mas também não vivem com seus zigomáticos dilatados qual atores de propagandas de margarina. Com suas personalidades tão agradáveis e um nível de compreensão muito mais elevado que o de boa parte das pessoas, eles servem como porto seguro para os outros, que os procuram para desabafar e, eventualmente, escutar algum conselho ou palavra carinhosa e encorajadora.

Tom é engenheiro ambiental e Gerri é psicóloga, e suas respectivas profissões são, de fato, partes integrantes de suas personalidades. Ele atenta para a natureza como quem sabe da importância de preservar uma relação harmônica com ela. A esposa, por sua vez, é um poço de paciência, e leva a sua disposição em ajudar para muito além do seu consultório onde, numa das primeiras cenas do filme, ela recebe Janet (Imelda Stauton, em participação afetiva), uma mulher atormentada por lacunas que a impedem de usufruir do conceito de felicidade na prática. Gerri demonstra um esforço genuíno em colaborar para a qualidade de vida daquela paciente, apartando-se de uma postura julgadora – o que nem seria cabível em uma situação como aquela. No dia a dia, eles também estão sempre disponíveis, e são aqueles vizinhos que qualquer um desejaria ter.

A trama do filme acompanha esses protagonistas ao longo de um ano inteiro, como o seu título sugere, percorrendo as quatro estações e valendo-se de algumas de suas especificidades para traçar um percurso afetuoso e sincero de um casal que sabe perfeitamente conjugar o verbo “doar”, principalmente em sua acepção simbólica. A câmera de Leigh está interessada em espiar as fagulhas cotidianas, os pequenos eventos e as conversas, por vezes banais, que compõem as relações interpessoais, como um grande obstinado pelo realismo, sem que, para isso, precise recorrer a passagens chocantes ou a fotografia trêmula. Em sua confortável casa, Tom e Gerri são visitados várias vezes pelo filho único e por algumas das colegas de trabalho de Gerri, sobretudo Mary (Lesley Manville), uma cinquentona à procura de quem possa lhe preencher a vacância de carinho, traduzida em um apego imenso ao casal, que parecem ser seus únicos amigos.


Mary nutre uma paixão platônica por Joe (Oliver Maltman), o filho de Tom e Gerri, que permanece solteiro na casa dos 30 anos e, se não dá reais esperanças de corresponder ao sentimento de Mary, também não se preocupa em dissolver suas ilusões. E, nas ocasiões em que se esbarram na casa dos pais dele, ambos vivenciam um discreto jogo de gato e rato em que nunca há um desfecho conclusivo. A personagem, aliás, rouba cada cena em que aparece, tornando-se a mais complexa da história. O mérito pertence não apenas ao roteiro primoroso de Leigh, mas também à Manville, que compõe magistralmente sua Mary e mexe com as emoções do público ao expor sua carência. A cena em que ela não encontra os amigos em casa em mais uma de suas visitas e tenta travar um diálogo com o irmão de Tom é dolorida e incrível. A atriz já havia demonstrado seu poder de encantar e magnetizar pela singeleza em uma colaboração anterior com o cineasta, o brilhante Agora ou nunca (All or nothing, 2002), em que vivia uma caixa de supermercado cujo casamento falido renasce após a doença de um dos seus filhos. É uma atriz recorrente em sua filmografia.

Broadbent e Sheen, por sua vez, também entregam desempenhos formidáveis, construindo uma harmonia cênica notável, que deixa a nítida sensação de que estão levando para a ficção uma cumplicidade cultivada na vida real. Eles são dois dos grandes atores ingleses de sua geração, sobre os quais o olhar do público raramente se coloca, o que traduz mais um daqueles exemplos de desperdício de intérpretes. Como artífice da delicadeza que é, Leigh sabe dirigi-los de modo a extrair docemente suas nuances, fazendo deles muito mais do que uma dupla adorável. Seus problemas também existem, mas eles parecem mais dispostos a cuidar dos problemas dos outros enquanto os seus vão se resolvendo aos poucos. Muitas vezes, é assim: enquanto nos doamos, a retribuição pode vir de onde menos se imagina. Sheen também já havia trabalhado com Leigh em Agora ou nunca e, em Mais um ano, troca de posição com Manville. Se antes ela era a melhor amiga da protagonista de Manville, dessa vez é ela quem ocupa o papel principal e oferece seu ombro e seu colo para as necessidades sentimentais de sua amiga.

Ao se propor a fazer uma caminhada pelo ciclo das estações, Mais um ano reafirma a vida como cíclica, em um permanente vaivém, como as marés. Essa mesma proposição também permite discutir velhos temas, como amor, fidelidade, carinho, altruísmo e morte. Por colocar todas essas questões sobre a mesa e analisá-las sem qualquer pretensão antropológica, o filme é sobre a vida e nada mais. No fundo, aquele ano inteiro na vida de Tom e Gerri que o diretor nos convida a acompanhar é um período de tempo sem grandes acontecimentos do ponto de vista pragmático, mas das sutis transformações internas derivadas de um simples diálogo ou de uma ausência na presença. Multifacetados, são todos simplesmente complexos, e essa característica tão contraditória serve de tempero às relações humanas, de tantas cores quanto as estações, magnificamente clicadas por Dick Pope, leal colaborador de Leigh nessa função. A verdade é que, como homem experiente, ele fala de assuntos que conhece de perto, e conquista espectadores mais sensíveis ao compartilhar seu modo de ver as coisas. Mais um ano respeita silêncios e hesitações, comovendo e alegrando com instantes de afeto e força benigna em meio a trivialidades. Viver é tentar lidar com uma infinidade de emoções.

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